FUNDAÇÃO RECANTO “CARLOS JOSÉ NUNES

*Márcio Furtado
marciofurt@yahoo.com.br


Muita gente diz que todos os dias estamos aprendendo alguma coisa. Não importa o ramo de atividade, ou até mesmo no campo do sentimentalismo, a gente amanhece sem ter idéia do que vai acontecer. Estamos sempre diante de algo novo e inesperado que chega até nós como parte do ensinamento que nunca paramos de receber. O dia em que não mais tivermos alguma coisa para aprender é porque, neste dia, deixamos de viver. A vida é um eterno aprendizado.

Sempre quando volto à minha querida Calçado, Terra onde nasci e aprendi a maior parte daquilo que hoje sei, experimento novas emoções, bem como recebo novas lições de vida. Estive visitando o Lar dos Idosos, entidade registrada como Fundação Recanto “Carlos José Nunes”, localizada atrás do campo do Motorista, onde jamais imaginei pudesse existir um espaço reservado por Deus para amparar pessoas que, em função de suas idades avançadas e por outras razões, ali foram parar.

Na vida da gente, sempre acontece alguma coisa que o destino nos reserva. Ainda tem gente que não acredita que quando nascemos já temos um caminho traçado e que, neste caminho, muitas pessoas, mais cedo ou mais tarde, estarão nos dando as mãos, quando já não mais tivermos forças para caminhar sozinhos. Assim é a vida de muitos, principalmente daqueles cujas famílias não dispõem de recursos para ampará-los na velhice. Existem, também, os que nunca tiveram famílias e os que são abandonados quando mais precisam de carinho e amor.

Tenho dito sempre, nas oportunidades quando escrevo alguma coisa, que nos tempos atuais existe muito pouca relação de afetividade entre as pessoas, mais notadamente nos grandes centros urbanos. No interior, como a sociedade ainda não foi afetada pela turbulência gerada pela correria no trânsito em prol da sobrevivência, existem pessoas que preservam o espírito de solidariedade e dedicam grande parte de suas vidas a favor de outrem; existem também aquelas que, com apenas um pequeno gesto de doação, contribuem para fazer chegar a felicidade a muitos, mesmo sem saber quem os benefícios chegarão.

Há algum tempo, não muito distante, em Calçado, algumas pessoas (gostaria de não mencionar nomes), umas com mais dedicação que outras, conseguiram transformar um sonho em realidade. Construíram o Lar dos Idosos. Algumas dessas pessoas já não estão mais entre nós para verem a felicidade estampada nos olhos daqueles que habitam aquela casa. Outras, com uma parcela menor de contribuição, mas com o coração cheio de amor, vivem no anonimato e não imaginam o quanto sua ajuda tem sido benéfica. E, para a manutenção dessa felicidade, um grupo de pessoas de nossa sociedade vem abraçando esta causa com muita determinação e garra.

Lá, fui encontrar pessoas conhecidas e que conviveram comigo na época em que joguei futebol em Calçado. Fiquei feliz por reencontrá-las e perceber que têm uma vida alegre e sem constrangimentos.  Fiquei feliz por conhecer aquele ambiente tão agradável, com muita paz e cheio de amor oferecido pelas pessoas que lá estão a serviço e que têm a bondade no coração. Lá, encontrei uma família que, embora as pessoas não tenham a mesma consangüinidade, vive em harmonia, recebe todos os cuidados necessários e consegue desfrutar dos momentos bons que a vida nos oferece, mesmo longe dos entes queridos.  

Aprendi muita coisa nesse dia. Aprendi que se pode colher bons frutos quando plantamos sementes carregadas de amor e sem a preocupação de obtermos quaisquer recompensas. Aprendi que, mesmo na ausência de pessoas ligadas à nossa vida, se pode continuar a viver. Aprendi que também posso levar a certas pessoas um pouco de felicidade, dando-lhes alguma coisa que possa alegrar suas vidas, podendo ser bens materiais ou, simplesmente, um sorriso e uma palavra de afeto. Aprendi que ainda existem pessoas boas e que, por isso, vale a pena viver.

Indo ao Lar dos Idosos, pude ver mais ainda. Pude ver que é necessário ir lá para sentir o quanto é diferente a idéia que temos quando ouvimos dizer que alguém irá ou foi para o “asilo de velhos”. Mas, para que este paradigma seja mudado é preciso que as pessoas se dêm mais, tenham mais consciência que a humanidade somente existe porque Deus está no coração de muita gente e que se cada um puder dar, mesmo que pouco, alguma coisa a alguém, conseguirá fazer brotar um sorriso num rosto já cansado.   


*Engenheiro Agrônomo e Professor da UVV.

 



 

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