*Pe.
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Na
semana passada, a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef,
saiu vitoriosa no depoimento que deu à CPI sobre os cartões
corporativos por causa da infeliz afirmação do
líder do DEM no Senado, José Agripino, de que
ela não é confiável já que costumava
mentir nos depoimentos que dava aos militares na ditadura. Ontem,
o deputado federal Jair Bolsonaro, do PP do Rio, na negociação
sobre a questão das reservas indígenas em Roraima,
acusou o ministro da Justiça Tarso Genro de ter feito
terrorismo na década de 1970, por ter sido militante
do movimento pela democracia e contra o regime militar.
O
ranço de saudosismo que os partidos de direita têm
em relação aos maus tempos da ditadura militar
no Brasil nunca foi novidade para ninguém. Mas ultimamente
esses vínculos obscuros estão vindo à tona
no ferver dos ânimos. Freud já disse que o inconsciente
do sujeito emerge pelo chiste, pelo sonho e pelo ato falho.
Talvez as instituições também estejam sujeitas
a essas mesmas válvulas de escape que entregam as convicções
mais recônditas de suas ideologias.
A
ministra Dilma respondeu muito bem: mentir na ditadura significava
ter caráter, não ser covarde, não ser conivente
com o sistema autoritário ou com o desrespeito aos direitos
humanos. Mas para Agripino, o Estado está acima da própria
verdade. Genro fez bem em participar daqueles atos de rebeldia
no passado que abriram no país o caminho para a liberdade
e a democracia. Para Bolsonaro, porém, a obediência
civil está acima da consciência crítica,
e a ilegalidade deve ser punida tanto sob Geisel quanto sob
Lula, indiscriminadamente.
Não
dá outra: esses partidos mudam de nome, mas não
trocam o pano de fundo. Os rostos são mais ou menos os
mesmos, e os mesmos também são os preconceitos
e os interesses corporativistas. Os figurões tiram as
fardas e põem gravatas mais coloridas, mudam os velhos
chavões da aristocracia por motes mais populares, mas
no fundo o projeto de Brasil que eles têm continua o mesmo
da época da ditadura, o mesmo que, bem antes, já
haviam conseguido imprimir como mensagem subliminar em nossa
bandeira: ordem e progresso. "Tudo o que soar a desordem
deve ser corrigido com mão de ferro"...
_____________________________________________________________________________________________
*Pe.Juliano
Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense
de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério
na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES
