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Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
Eu gostava muito de história em quadrinhos quando menino. E uma das coisas que acho mais interessante nesse tipo de literatura é que as falas são colocadas em balões que parecem se desprender da boca das personagens, contidas por uma espécie de invólucro que as protege. Quem dera se na realidade fosse assim. Quem dera se o que eu falei pudesse ser controlado ao menos por mim. Mas não pode. Depois eu posso até reconsiderar, corrigir, completar, arrepender-me de haver dito; o efeito daquela fala, porém, é inevitável. O que falamos não permanece num saco de letrinhas. O conteúdo voa livre, e a forma evapora imediatamente como nosso hálito ou nossa respiração.
Podemos contar até dez e escolher o que vamos dizer. Mas, uma vez dito, perdemos completamente o controle daquilo que dissemos. E não estou me referindo aos escritores que publicam suas obras e as veem rapidamente tornar-se domínio público; não estou falando de questões miúdas como direitos autorais. Falo do poder e da autonomia das ideias encarnadas em palavras, que, uma vez pronunciadas, não têm como voltar mais para dentro de nós. O parto da palavra é como o parto de um filho na constatação edipiana de uma mãe.
A religião cristã afirma que Jesus é a Palavra de Deus que se fez carne. “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, [...] imagem do seu ser” (Hb 1,1-2). Os cristãos creem que esse Verbo é um com Deus Pai, possui a mesma substância e natureza que o Pai, mas não se confunde com Ele. Deus é uma pessoa e o Verbo de Deus encarnado é outra pessoa distinta. Inseparável, mas realmente distinta. Essa fé na Santíssima Trindade está perfeitamente em consonância com a experiência humana. E isso não é – cremos nós cristãos – porque a Trindade seja invenção nossa, mas justamente porque nós somos “imagem e semelhança” (Gn 1,26) do Deus Trino.
Como na forma de ser de Deus, eu sou uma pessoa e a palavra que eu pronuncio ganha um outro corpo que não o meu. Plasticamente, é como se a minha palavra fosse outra pessoa, autônoma e independente. A minha palavra é livre. Vez ou outra vemos por aí tentativas de controlar a divulgação de ideias, a publicação de palavras. É a tentação da censura. Já que não se pode prender a pessoa mesma, quer-se prender a proclamação das suas palavras, controlando, proibindo, censurando. Muitos que não aceitam isso preferem que lhe prendam o corpo ou então que lhe tirem a vida de uma vez. Mas a palavra – isto é sagrado –, a palavra é soberanamente livre. Prendam, espanquem e matem o profeta, mas não pensem ser possível evitar que ele continue gritando a verdade, ainda que apenas para as correntes ouvirem.
Esta é minha homenagem ao meu grande amigo Dr. Bruno Alves de Souza Toledo, comendador advogado do ano pela OAB-ES, presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos. Suas palavras não têm cabido em balões de quadrinhos, e o que ele tem a dizer merece ser recebido com atenção.
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*Juliano Ribeiro Almeida, twitter.com/padrejuliano, é padre católico, reside e trabalha no bairro IBC, em Cachoeiro de Itapemirim-ES
