O VOTO DEVOTO

*Pe. Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com


  O chamado "voto devoto" a cada eleição se mostra mais comum. Em Cachoeiro de Itapemirim, o católico de carteirinha Carlos Casteglione virou o jogo quando, sob o comando do senador evangélico Magno Malta, recebeu o apoio (e a bênção) de mais de 200 pastores evangélicos às vésperas da eleição. Mas, ao sair vitorioso, a primeira visita que fez foi ao bispo católico local. Seu adversário Theodorico Ferraço, que também se declara católico, disse durante a campanha que "só Deus tiraria seus eleitores", mas em seguida, confirmada sua derrota, atribuiu-a na verdade à Igreja. Em Vila Velha, Neucimar Fraga fecha acordo com pastores evangélicos, enquanto do outro lado o Dr. Hércules se apresenta como católico fiel. No Rio, até o clássico comunista Fernando Gabeira vem se ajoelhando para as orações dos evangélicos debandados da campanha de Marcelo Crivela.

            A maioria dos políticos está usando da religião como se usa de mais uma peça de marketing. Os líderes religiosos vivem uma relação humilhante com essa nova política utilitarista, gozando do fato de se sentirem, durante as campanhas, voltando à cristandade medieval, quando suas instituições mandavam e desmandavam, coroavam reis e eram financiadas pela máquina administrativa como mais um departamento de Estado. Pura ilusão... Nas campanhas, os candidatos que beijam o anel do bispo, abraçam padres e pastores, vão às missas e comungam, levam bíblias aos cultos e se ajoelham, depois de eleitos baixam os estandartes da fé e trazem à tona a verdade dos fatos: "estamos num país laico, portanto, não temos compromisso com os valores religiosos, aqueles arcaicos, ditos familiares". Então, como numa "desconversão" automática, defendem o aborto e outras polêmicas permissividades, distribuem camisinha, desrespeitam os feriados religiosos, respondem com hostilidade aos líderes religiosos que lutam para ter um minuto ao microfone nas salas do poder, cada vez mais pagãs.

           
No século XVII, o jesuíta Pe. Antônio Vieira era o pregador oficial da corte portuguesa. Ele, que já fôra missionário aqui no Brasil, conhecera o drama dos índios e dos negros escravizados, bem como da exploração desumana da colônia, e depois podia pregar com firmeza e sem censura. A função da religião no seio do Estado era a de equilibrar o poder, purificando-o dos riscos da corrupção, da heresia, da impiedade e do abuso de autoridade. Mas a verdade é que, ao invés de regular o sistema de governo, a religião acabava sendo desregulada internamente por ele, assimilando seus vícios e esquemas. Então surgiu, na Modernidade, Napoleão Bonaparte. O Museu de Louvre, em Paris, exibe a tela famosa em que o Imperador, que financiou a ida do Papa à França para sua coroação, toma-lhe a coroa das mãos e a depõe, ele mesmo, em sua própria cabeça. Ali surgia o secularismo do Estado moderno e a idéia de laicidade e neutralidade religiosa do poder civil. E surgia também o utilitarismo do aspecto religioso única e exclusivamente para legitimar esse poder.

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*Pe.Juliano Ribeiro Almeida é membro da Academia Calçadense de Letras, sacerdote católico e exerce seu ministério na paróquia Nossa Senhora do Amparo, Itapemirim-ES


 



 

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