|
Por
Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br
Fuga
da peste
Como já foi dito anteriormente, Newton graduou-se em 1665,
e logo foi obrigado a deixar Cambridge por causa da
pestilência que por essa época assolou a Inglaterra.
Recolheu-se a Woolsthorpe, na casa onde nascera. Fora construida
num pequeno vale bonito, no lado ocidental do rio Witham; e aí,
na tranqüila residência de sua infância, ele
passou os dias em serena contemplação, enquanto
a peste ceifava dezenas de milhares de vidas e as lançava
em sepulturas rasas, quando não em pilhas de cadáveres.
Ao fim de um agradável dia outonal de 1666, sentara-se
sozinho debaixo de uma árvore no jardim, absorvido em meditação.
Era um jovem de compleição modesta, semblante suave
e pensativo, em seus 24 anos de vida.
Newton, fazendo um resumo mental de tudo que pensara, chegou às
conclusões: que se a distância entre dois corpos
fosse duplicada, o poder atrativo seria reduzido não à
metade, mas à quarta parte; se triplicada, o poder atrativo
seria reduzido à nona parte.Se, por outro lado, a distância
fosse reduzida à metade do que é em realidade, o
poder atrativo não seria simplesmente o dobro, mas aumentaria
sim quatro vezes mais.E o que é verdade acerca do Sol e
da Terra é verdade para todo corpo no firmamento, e, como
mostrou o Professor Rutherford, mesmo para os corpos que formam
o sistema solar em miniatura do quase infinitesimal átomo.
Evidentemente que as maçãs caiam ao solo muito antes
de Newton nascer, e a razão de elas retornarem á
terra foi corretamente atribuída à misteriosa força
de atração possuída pela Terra, à
qual força se deu o nome de gravidade. O grande triunfo
de Newton consistiu em mostrar que essa força não
era tão somente uma propriedade da Terra e sim uma propriedade
universal de toda matéria; que ela se aplica tanto à
Lua e ao Sol como a Terra; que, de fato, os movimentos da Lua
e dos planetas podem ser explicados com base na gravidade. Mas
o supremo triunfo de Newton foi dar, em uma sublime generalização,
expressão quantitativa ao movimento que regula a marcha
dos corpos celestes.
Sigamos o seu pensamento. Uma maçã cai de uma árvore
de 50 jardas de altura. Ela cairia também de uma árvore
de 500 jardas de altura. Cairia do alto da mais alta montanha,
a várias milhas acima do nível do mar. Provavelmente
caísse de uma altura muito acima do topo da montanha. Por
que não o faria?Provavelmente, quanto mais subíssemos,
menos poder de atração a Terra teria sobre a maçã.
E agora a principal pergunta: a que distância esta atração
deixa de existir completamente?
O corpo no espaço mais próximo da Terra é
a Lua, que está a 240.000 milhas (384.000 km, em média).
Se jogássemos uma maçã da Lua, ela alcançaria
a Terra?Talvez a própria Lua tenha o poder de atrair as
coisas. Se assim é, uma vez que a maçã está
mais próxima da Lua do que da Terra, as probabilidades
são de que ela nunca alcance a Terra.
Cautela, porém!A maçã não é
o único objeto que cai ao chão. O que é verdade
sobre a maçã é verdade para todos os outros
corpos materiais, grandes e pequenos. E a Lua é um corpo
dos grandes. Será que a Terra exerce alguma atração
gravitacional sobre a Lua?Para ser exato, a Lua está a
milhares de milhas afastada, mas é um corpo bem grande,e
talvez este tamanho esteja de algum modo relacionado com o poder
de atração?Mas, então, se a Terra atrai a
Lua, por que a Lua não cai na Terra?
Uma olhadela na figura abaixo vai nos ajudar a responder a pergunta.
Devemos nos lembrar que a Lua não é um objeto estacionário,
e sim viaja a uma tremenda velocidade, a ponto de dar um giro
completo em torno da Terra uma vez a cada semana. Bem, se a Terra
não existisse, a trajetória da Lua seria a linha
reta MB. Se,
contudo, a Terra exerce atração, a Lua seria puxada
para dentro. Ao invés de seguir a linha MB seguiria a linha
MB’.E, então, a Lua tendo chegado a B’, seria
impedida de seguir a linha B’C e seguiria B’C’.De
modo que a trajetória ao invés de ser uma linha
reta, tende a tornar-se uma curva.Pelas pesquisas de Kepler, as
probabilidades são de que essa curva assuma a forma de
uma elipse e não a de um círculo.Assim, a única
razão por que a Lua não cai na Terra é o
seu movimento.Parasse ela de mover-se por uma fração
de segundo e viria direta sobre nós e provavelmente não
restaria uma só pessoa para contar a história.
Newton raciocinou que aquilo que mantém a Lua a girar em
torno da Terra é a força gravitacional da última.
O próximo passo foi descobrir a lei que regula este movimento.
Aqui, as observações de Kepler sobre os movimentos
dos planetas em torno do Sol foram de inestimável valor;
pois foi delas que Newton deduziu a hipótese de que a atração
varia inversamente com o quadrado da distância. Fazendo
uso dessa hipótese, Newton calculou qual deveria ser o
poder de atração da Terra de modo que a Lua pudesse
continuar em sua trajetória. Ele comparou esta força
com a força exercida pela Terra ao puxar a maçã
para o chão—e descobriu que as forças deviam
ser idênticas!”Comparei”, ele escreve, ”a
força necessária para manter a Lua em sua órbita
com a força de gravidade na superfície da Terra
e vi que a resposta era quase idêntica”.A mesma força
que puxa a Lua puxa a maçã: a força da gravidade.Além
disso, a hipótese de que a força da gravidade varia
inversamente com o quadrado da distância tinha agora recebido
confirmação experimental.
O próximo passo foi perfeitamente claro. Se o movimento
da Lua é controlado pelo puxão gravitacional da
Terra, por que não será possível que o movimento
da Terra, por seu turno, não seja controlado pelo puxão
exercido pelo Sol?Por que, de fato, não somente o movimento
da Terra, mas também o movimento de todos os planetas não
será regulado do mesmo modo?Aqui, novamente, o trabalho
pioneiro de Kepler foi uma fundação comparável
ao concreto reforçado. Kepler mostrara que a Terra gira
em torno do Sol numa trajetória na forma de uma elipse,
um dos focos da qual sendo ocupado pelo Sol. Newton provou que
tal trajetória elíptica era possível somente
se a intensidade da força atrativa entre o Sol e os planetas
variasse inversamente com o quadrado da distância—a
mesma relação que tinha sido aplicada com tanto
sucesso na explicação do movimento da Lua em torno
da Terra!
Newton mostrou que a Lua, o Sol, os planetas e todo corpo no espaço
se conformavam a essa lei. A Terra atrai a Lua; mas a Lua atrai
a Terra. Se a Lua gira em torno da Terra ao invés de a
Terra girar em torno da Lua, é devido ao fato de a Terra
ser um corpo muito maior que a Lua, e, portanto, seu puxão
gravitacional ser mais forte. O mesmo é verdade na relação
entre a Terra e o Sol.
A grande lei de Newton é útil igualmente para explicar
as marés. Desde tempos remotos as pessoas reparam na modificação
das águas com a Lua cheia. Newton assinalou que a altura
das águas é uma conseqüência direta do
poder atrativo da Lua.
Em
seu imortal “Principia”, publicado pela primeira vez
em 1686, Newton começa por definições sobre
a matéria e a força, às quais se seguem suas
famosas três leis do movimento. A natureza e a quantidade
de esforços necessários para por um corpo em movimento
estão incluídas nessas leis. Os conceitos fundamentais
de massa, tempo e espaço são oferecidos em suas
variadas interconexões. As leis do movimento são
dadas como axiomas, como os de Euclides: não admitem prova
direta; mas os axiomas de Euclides são mais obviamente
verdadeiros. Por exemplo, quando o matemático grego nos
informa que “coisas que são iguais a uma mesma coisa,
são iguais entre si”, não temos qualquer hesitação
em aceitar tal declaração, já que ela é
auto evidente. Quando, por outro lado, Newton nos diz que “a
alteração de movimento é sempre proporcional
à força motora imprimida”, ficamos a principio
perplexos com a expressão, e mesmo que dominemos o assunto,
a prontidão de resposta irá depender da quantidade
de treinamento científico que recebemos.Eis outra: ”Todo
corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme
em linha reta, a menos que seja compelido a mudar aquele estado
por forças imprimidas sobre ele”.Assim Newton exprimiu
sua primeira lei de movimento.Um corpo não se move, a menos
que algo o faça mover; para fazer um corpo mover-se é
necessário superar a inércia do corpo.Por outro
lado, se um corpo estiver em movimento, ele tenderá a continuar
a mover-se, como testemunhamos ao irmos para frente num trem que
pára abruptamente.Talvez alguém se pergunte porque
a bala de um revolver não continua a mover-se indefinidamente
uma vez que deixou seu cano?A resposta é: por causa da
resistência do ar, e podemos acrescentar que sua trajetória
não é reta porque a gravidade atua sobre ela de
modo a puxá-la para baixo.
A terceira lei de Newton diz: ”A toda ação
há sempre oposta a ela uma reação igual”.
O próprio fato de termos que usar força significa
que temos que superar algo de natureza oposta.O puxão para
frente de um cavalo a rebocar um barco iguala ao puxão
para trás da corda que une barco e cavalo.Muitas pessoas
acham difícil aceitar esta declaração, uma
vez que imaginam que se a força exercida pelo cavalo numa
ponta da corda não fosse um pouquinho maior do que a força
exercida para trás pela corda atada ao cavalo, não
haveria a tração, o transporte de um pelo outro.Mas
neste caso, no que diz respeito às posições
relativas de ambos, o cavalo e o barco estão em repouso,
e formam um único corpo.A ação e a reação
entre eles, devidas à tensão na corda, devem ser
iguais e opostas, pois de outro modo haveria movimento relativo,
um com respeito ao outro.
Experiências com a luz
Platão
e Aristóteles consideravam a luz uma propriedade do olho
e deles exclusiva.Newton não podia laborar no mesmo erro.Assim,
a fonte da luz para ele eram os corpos luminosos.Tais corpos tinham
o poder de emitir diminutas partículas a grande velocidade
e, estas, quando entravam em contato com a retina, produziam a
sensação da visão.
Newton dirigiu sua atenção para a óptica
em 1666 quando provou que a luz do Sol, branca para nós,
é na verdade uma mistura de todas as cores do arco-íris.Este
fato, ele o demonstrou colocando um prisma entre um raio de luz
e uma tela.O espectro exibiu as cores desde o vermelho até
o violeta.Colhendo a luz do primeiro, ele fez o espectro incidir
sobre outro prisma, recompondo a luz branca primitiva. Sua descoberta
lançou os fundamentos da moderna ciência da Óptica.
Outra notável conquista de seu gênio foi a construção
do telescópio de reflexão, que focalizava os objetos
com ótima nitidez, sem os borrões que tantos inconvenientes
traziam para os observadores mais antigos.
Fatos da vida
Aos 27 anos, Newton foi conduzido ao cargo de Professor Lucasiano
de Matemática (o mesmo ocupado atualmente por Stephen Hawking),com
a renúncia de Isaac Barrow.Quando seu amigo Montague se
tornou Chanceler, Newton foi elevado à posição
lucrativa de diretor da Casa da Moeda.Como presidente da Royal
Society ocasionalmnete privava da companhia da rainha Anne.Ela
o tinha em alta estima, e em 1705 conferiu-lhe o título
de Cavalheiro.Em 1727 venho a falecer, como uma das glórias
da Inglaterra.
Resumo
e Tradução de Carlos Rezende, do seguinte livro
em domínio público:
(1) The Mathematical Principles of Natural Philosophy, by Sir
Isaac Newton, tr. Andrew Motte, ed. N. W. Chittenden. New York:
Daniel Adee, 1848. First American edition.

|