Amazônia

Por Carlos Rezendea
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Próximo às minas de prata de Cerro Pasco, no pequeno lago de Lauricocha, logo abaixo do limite das neves eternas, nasce o “Rei das águas”. Pelos primeiros 804 km o curso segue para o norte em uma contínua série de cataratas e rápidos, através de um profundo vale entre as cordilheiras paralelas do Peru. Ao alcançar a fronteira do Equador, ele vira para a direita e segue na direção oriental por 4023 km, a rasgar o grande plano equatorial do continente.
O Vale Amazônico está quase todo ele em terras do Brasil. Em qualquer outro sentido, é um mundo à parte. Para o brasileiro médio, é pouco mais que uma "expressão geográfica”, de algum modo associado a seu país, mas singularmente destituído de significação com o seu dia a dia,com a sua vida,enfim.Até o seu acesso a ele é difícil.Sua reputação de selva desconfortável e nada saudável faz muito pouco para promover uma maior afinidade entre ela e o restante do Brasil.
Como medida de sua magnitude, basta dizer que a Ilha de Marajó, na foz de seu rio principal, é maior que a Suiça.
Talvez fosse melhor deixar toda a Amazônia, incluindo aquelas suas partes que se encontram em paises vizinhos do Brasil, não dividida, formando uma imensa porção única, sem fronteiras nacionais que quebrem sua unidade, e governada pelos índios, os quais há muito aprenderam a viver nela, respeitando suas realidades e mistérios. É todo um cosmos ainda não concluído, e para os homens que vivem no ambiente do mundo civilizado, quase que nenhuma familiaridade ou compatibilidade porventura terão com esse vasto mundo primitivo.
O primeiro contato autenticado de homens, que não os indígenas, com a Amazônia, se deu em 1539, com Francisco Orellana, lugar-tenente de Gonzalo, um dos irmãos Pizarro que subjugaram o império inca para a Espanha.
Gonzalo Pizarro conduziu uma malfadada expedição de Quito até Napo, em busca da noticiada “Terra da canela”. Vagueando pela selva, mandou Orellana, com uma pequena guarnição, rio abaixo, a buscar comida, mas Orellana encontrou outra coisa dias mais tarde que o fez esquecer seu chefe e até a sua fome--um imenso rio corria para leste. A curiosidade e a correnteza devem tê-lo decidido seguir o rio até o oceano. Suas margens deviam estar muito mais povoadas do que agora, e Orellana teve muitos encontros, hostis e indiferentes, com os índios, antes de finalmente alcançar o Atlântico, muitos meses depois. Em alguma parte ao longo de seu caminho, encontrou-se com nativos que lhe pareceram mulheres, mas cujas flechas o mantiveram à distância, de modo que ele não pode certificar-se de suas suspeitas.
De qualquer modo, era uma estória que acendeu a imaginação de todos--principalmente de seu escrivão, muito versado em mitologia grega, que chamou os estranhos indígenas de Amazonas--deste modo batizando o rio ao mesmo tempo.
Após a viagem de Orellana até o mar, navegando pelo rio Amazonas, os espanhóis pouca atenção deram à região amazônica. Alguns realizaram pequenas incursões em busca do mítico El Dorado--a cidade de ouro supostamente situada no lago de Monoa.
A Amazônia, por algum tempo, ficou fora das disputas dos europeus. Então, no início do século 17, os portugueses deram início à sua ocupação. Seu motivo imediato foi a expulsão de outros europeus da região. Em 1615, eles expulsaram os franceses de São Luís, nas costas do Estado do Maranhão, e no próximo ano fundaram Belém, na entrada sul do rio principal. Logo após, expulsaram os holandeses de três postos avançados no baixo Amazonas, e também expulsaram alguns ingleses que haviam estabelecido uma base na boca principal do rio.
Livres da ameaça dos rivais europeus, os portugueses empreenderam a tomada de posse de todo o Vale Amazônico, o qual, acima da foz do Xingú, era região intocada por eles.
Os portugueses e seus descendentes exterminaram um vasto número de aborígines e escravizaram outro tanto. Os índios sobreviventes subiram o Amazonas para se porem a salvo deles. Entrementes, Portugal ainda iria reforçar sua posse sobre esse império florestal com os mamelucos chamados Bandeirantes e seus descendentes, vindos do longínquo Estado de São Paulo.
Por volta de meados do século 18 havia cerca de 50 colônias no Vale, mas pouco se conhecia das terras e rios entre elas, com exceção da expedição francesa de Charles de la Condamine que,em 1735,fazia medições do arco do meridiano do equador,para deste modo determinar o tamanho da circunferência da Terra.Depois dele veio o grande explorador e geógrafo alemão Alexander von Humboldt,já no século 19.
A partir de 1822, o já então Império do Brasil conheceu várias insurreições por independência, a começar pela chamada Confederação do Equador, dois anos apenas à sua transformação em monarquia, e a Cabanagem,em 1835,um sério levante contra certos abusos políticos. Por vários anos houve muita desordem, bordejando algumas vezes pela mais franca anarquia, até serem sufocadas por drásticas medidas militares. Na verdade, inexistia base econômica para tais sublevações. Porém, com a descoberta de Charles Goodyear, entre os anos de 1839 a 1844, do processo de vulcanização da borracha, toda aquela região, até então estéril, passou a ter um futuro promissor.
Passados 10 anos, um importante passo à frente foi dado com a inauguração da navegação a vapor pelo Amazonas, que foi seguida pela abertura do rio à navegação de todas as nações, em 1867.
Por essa época tinha a Amazônia se transformado em objeto da curiosidade de cientistas estrangeiros, e, de meados do século 19, um notável grupo de sábios internacionais levou a efeito uma pesquisa e exploração intensiva dessa região.
Entre os primeiros que continuaram as atividades de Humboldt estão os dois cientistas bávaros Spix e Martius, que em 1823 publicaram o monumental estudo científico sobre o Brasil, que cobre praticamente todas as ciências da época: “Viagem pelo Brasil”. Outros nomes da mais alta honorabilidade científica vieram juntar-se àqueles dois como os do geólogo suiço-americano Louis Agassiz, o do naturalista inglês Alfred Russell Wallace, que simultaneamente a Darwin, teve a idéia da Teoria da Seleção Natural, e ainda o seu compatriota Henry Walter Bates, que passou os anos de 1848-59 no Vale e escreveu sobre ele uma obra clássica—“Um Naturalista no Amazonas”.
Não podemos deixar de citar também as importantes obras dos exploradores brasileiros Silva Coutinho e Barboza Rodrigues; a do famoso escritor José Veríssimo, Cenas da Vida Amazônica, nos últimos anos do império, e a do brilhante e malfadado engenheiro-escritor Euclides da Cunha.
E o maior entre os mais modernos--de não importa qual nacionalidade associada ao Vale Amazônico--Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, oficial do Corpo-de-Engenheiros do Exército Brasileiro, o qual conquistou merecida distinção ao unir pelas linhas do telégrafo regiões remotas do Brasil. Ligou a bacia do Paraguai, em Mato Grosso, a Porto Velho, no rio Madeira, e de lá a Manaus. Dedicou o restante de sua longa vida aos trabalhos nessas vastidões selvagens, e aos seus habitantes, de cujo sangue compartilhava. Foi o responsável pela criação do Serviço de Proteção ao Índio, cuja finalidade era proteger as tribos da floresta da exploração pelo homem branco, e gradual, mas pacificamente integrá-las à vida nacional.
A principal característica da Amazônia é o próprio rio Amazonas. Todos os outros rios do mundo nada mais são, em comparação com ele, do que riachos. Ele é, sem exagero, incomparável. Excetuando-se as ondas dos oceanos, nada mais no planeta representa tão bem as forças cósmicas que incansavelmente inundam uma área do tamanho dos Estados Unidos, do que o fluxo gigantesco do rio Amazonas.
O Amazonas lança no Atlântico um volume de cerca de 190.000 m3/s de água na estação de chuvas, ou um quinto de toda a água fluvial do planeta. Quantidade suficiente para descolorir o oceano ao longo de 200 milhas adentro, a partir da região costeira. Henry Bates o chamou de "O Mediterrâneo da América do Sul".
O rio Amazonas é por demais desorganizado, selvagem, imensurável para além de qualquer padrão que o homem lhe possa aplicar, é grandioso demais para o chamarmos de bonito. Os que vivem em constante contato com ele não lhe têm apego sentimental tal como os que vivem junto ao rio Reno, por exemplo. Os homens somente o temem e respeitam em virtude de seu poder—sentem-lhe a sinistra presença. Assim, ninguém até hoje escreveu odes ao Amazonas, ou sequer pintou-o, assim como não cantam canções em seu louvor.
Grande parte de seu curso não possui margens, assemelhando-se estas mais a praias de um manguezal. Ao invés de bordas claramente definidas, como as de um rio bem comportado, as suas usualmente são pantanosas, impenetráveis zonas de vegetação densa, fechada por lianas tentaculares, que crescem em todas as direções—em alguns trechos sendo tão grandes como um quarteirão de rua. Suas plantas ribeirinhas são muito diferentes daquelas que medram em terra firme, em mato aberto.
O Amazonas nunca é benigno, nunca é um lugar em que alguém se sente em casa. Ele é, acima de tudo, um destruidor em escala para além de toda compreensão. Quando as margens parecem evidentes, podem ser meros paredões efêmeros contra os quais uma violência destrutiva irá se exercer. Fenômeno familiar no Rio-Mar é o das “terras caídas”. Trata-se de uma experiência terrificante à noite, quando o rio vai solapando pouco a pouco suas margens,e por fim grandes nacos de terra são arrancados do todo e subitamente carregados pelo fluxo d’água com um enorme rugido,como se fossem novas ilhas,tudo acompanhado pelo som de enormes árvores batendo contra a água, entrelaçadas umas nas outras e arrancadas pelas raízes. Numa noite de janeiro vi um pedaço de terra de vários acres de tamanho ser arrancado e carregado pelo rio. Árvores inteiras da espécie das cecrópias estavam naquela “ilha” flutuante e, no alto de uma delas, um macaco apavorado agitava-se num galho.
Os ciclos de cheia do rio Amazonas e de seus tributários é determinado pelo derretimento anual de vastas camadas de neve nos Andes. As águas atingem seu pico em junho e baixam entre setembro e dezembro. A variação sazonal do nível do rio abaixo da localidade de Paxintins é normalmente de 6 metros. Em Manaus, onde existem docas articuladas flutuantes construídas para compensar as diferenças de nível, o rio Negro pode subir 12 metros, e em Juruí pode chegar até a 18 metros. As elevações e quedas dos rios podem também ocorrer de modo súbito, conseqüentes a derretimentos inesperados dos campos de neve.
Os tributários do Amazonas figuram entre os maiores rios do mundo. O rio Madeira está entre os vinte maiores; o Purus, o Tocantins e o Juruá, entre os trinta principais. Dentro de território brasileiro sobressaem, pela margem direita, o Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu; pela margem esquerda, Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari. Pelo seu espantoso volume de águas negras o rio Negro parece tornar pequenos todos os outros tributários que correm para o sul. Aonde ele desemboca no Amazonas, logo abaixo de Manaus, o fluxo escuro de suas águas corre lado a lado com o corpo turvo do rio principal por uma extensão considerável, antes que suas águas se misturem e o Negro perca sua identidade para o devorador de todos os outros rios. Sua cor escura é devida a uma substância chamada tanino, encontrada nas folhas das árvores que lhe margeiam o curso.
Com o advento da borracha começou a exploração dos recursos naturais da Amazônia. É verdade que desde o estabelecimento dos portugueses na região já havia uma demanda estrangeira por eles, porém a população era então muito esparsa e diminuta, não havendo, portanto, mão-de-obra suficiente para qualquer tipo de extrativismo em larga escala. Tudo isso mudou, entretanto, com o desenvolvimento do mercado centrado na borracha crua.
A matéria-prima da borracha é o látex extraído principalmente da seringueira (Hevea brasiliensis). As reservas da árvore da borracha eram particularmente abundantes nos cursos superiores dos rios meridionais, e tais áreas remotas transformaram-se logo em centros produtores. Em nenhum lugar as árvores se adensam numa só região. Ao contrário, estão espalhadas em meio a outras espécies da floresta. Com o desenvolvimento do seu comércio, o padrão de qualidade exigiu que as várias espécies de árvore do látex fossem classificadas de acordo com as exigências de mercado. Assim, as árvores originárias do Acre e das áreas mais montanhosas do norte do Mato Grosso eram consideradas “borrachas de alta qualidade”, por contraste com as de “baixa qualidade”, encontradas em terras de pequena altitude e mais ao norte do Amazonas. Com a anexação do Acre, antes território da Bolívia, por um processo de infiltração similar à anexação do Texas pelos Estados Unidos, as regiões produtoras aumentaram consideravelmente. O grosso da mão-de-obra foi provido pela forte migração de nordestinos assolados pelas secas, que se tornaram extratores de látex ou seringueiros.
O boom da borracha se deu em 1910. Por vários anos algumas cidades da Amazônia conheceram muita atividade humana. O grande Teatro de Manaus, ainda hoje, é um testemunho monumental da prodigalidade extravagante de uma era, quando companhias de cantores de ópera vindos da Itália deliciavam as famílias mais abastadas—e não eram poucas.
Entrementes, um pacato cidadão inglês chamado Henry Wickham contrabandeou cerca de 70 mil sementes da Hevea brasiliensis do baixo Tapajós para o Jardim Botânico em Kew, lugar próximo a Londres. De Kew ele levou as mudas para o Ceilão, após cuidadoso cultivo, e do Ceilão ela se espalhou para a Malásia e Sumatra, dando início a uma plantação de escala industrial. Já em 1913 a produção de látex asiático superava a da Amazônia e, daí em diante, o Brasil só conheceu amarguras nesse comércio, decaindo cada vez mais suas exportações.
A grande variedade dos outros produtos não compensou a derrocada da borracha. A soma de todos os produtos comerciáveis não é nada impressionante, nem seu futuro é promissor, se excetuarmos as minas existentes de manganês.
A agricultura do Vale Amazônico dedica-se à produção de gêneros alimentícios para a população local. Embora grandes áreas sejam adequadas ao plantio da cana-de-açúcar, as plantações mal alcançam 20 mil acres. Na verdade, o açúcar aí consumido vem de estados mais ao sul. Há cerca de 50 mil acres plantados de arroz, que é um importante item da dieta regional. E outras culturas de subsistência, tais como: milho, feijão, banana e mandioca. Há quase 1 milhão de cabeças de gado,sendo que na Ilha de Marajó os animais vivem em ambiente semi-anfíbio.
Muito se tem falado a respeito do clima da Amazônia. Devo dizer que é desconfortável na maior parte do ano, porém mais suportável do que os verões extremos de partes dos Estados Unidos. O ar está sempre em movimento, mesmo dentro da selva, e as noites são bastante toleráveis e frequentemente frescas. As pessoas podem suar copiosamente à tarde, mas não morrem de calor. Adotando-se razoáveis precauções em questões atinentes à saúde, pode-se esperar uma normal expectativa de vida. Contudo, se ignorarmos as regras básicas de higiene, a cobrança será pesada, pois a Amazônia pertence aos insetos, e todas as demais criaturas vivem sob o seu pesado fardo. Mas o governo brasileiro tem adotado medidas salutares para a prevenção e tratamento da malária, por exemplo.
Os solos da Amazônia são definitivamente limitados para os propósitos da agricultura. A camada superior de húmus da floresta é demasiado fina, uma vez que não existe a queda outonal de folhas para enriquecer a terra superficial, como sucede nos climas temperados. Além disso, em razão das chuvas torrenciais, o solo sofre o processo da lixiviação, ou seja, os resíduos orgânicos são removidos do solo, e assim sua fertilidade é de curta duração.
O transporte de tudo é feito pelos rios. As inundações impedem que sejam construídas estradas de rodagem. Navios a vapor podem navegar desde a foz do rio Amazonas até a Iquitos, no Peru, o ano inteiro.
Parece-nos que aquilo que impede a concretização de todos os potenciais da Amazônia é de ordem psicológica--uma condição que se perpetua na mentalidade tradicional desde os tempos do boom da borracha e sua posterior decadência. Abalados pela catástrofe de 1910, os líderes da região salvaram o que poderia ser salvo de seu capital investido e buscaram refúgio em Manaus ou Belém, ou abandonaram de vez a região e tomaram o rumo do Rio de Janeiro, a Meca dos brasileiros descontentes. Os mais aventureiros seguiram para São Paulo. Desde o fracasso do sistema do qual foram responsáveis, eles nada mais fizeram de produtivo, quer através do pensamento, quer através da ação. Perderam inclusive a audácia e iniciativa, as quais, os seus predecessores possuíam, quaisquer que fossem seus padrões de ética ou perspicácia nos negócios.
A classe governante da região é resistente a idéias e técnicas novas. Tem falhado em não aceitar todas as implicações da Revolução Industrial e recusa-se a utilizar o moderno método científico para as descobertas. Até hoje não quiseram reconhecer que a conquista da Amazônia não poderá ser feita com o facão de mato. Suas doutrinas econômicas pertencem ao século 16. Se a economia da região ainda é “colonial” isso lhes deve ser creditado. Tal como no Império Hispânico, anterior a 1800, a base de seu desenvolvimento até aqui se focou na exploração predatória dos recursos naturais.
O Brasil é potencialmente uma das nações mais ricas do planeta, mas infelizmente não tem dado oportunidades de crescimento à sua maior riqueza, sem a qual nada valem as nações: o seu povo.

 


Resumo e Tradução de Carlos Rezende, extraído do seguinte livro em domínio público:
1) The Project Gutenberg EBook of The Andes and the Amazon, by James Orton
20/02/2008
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