| Falta
ao Brasil a espetacular fauna da África.O país
não tem elefante,leão,gorila ou hipopótamo.Não
existem grandes manadas.Mas se o Brasil não tem impalas,nem
gnus,ele tem com fartura sucuri,tatu,macacos guaribas e
sagüis.Possui os maiores insetos da terra e talvez
a maior quantidade deles.
Como se poderia esperar,a mais densa concentração
de animais está na imensa floresta tropical do Vale
Amazônico.Este vale não possui abrigos adequados
para caçadores,exceto para aqueles homens primitivos
que estão familiarizados com esse ambiente antediluviano.Para
quaisquer outros, tudo é muito confuso e desconfortável
de dia,e por demais assustador durante a noite.É
um “paraíso” sim—mas para os naturalistas.Uma
vez que a Amazônia é toda ela uma vasta reserva
animal,não há nada comparável a um
parque nacional.
Os brasileiros têm uma particular afinidade com os
animais.Isto é especialmente verdadeiro em relação
aos índios, que algumas vezes devem sentir mais empatia
entre eles e os animais do que entre eles e o chamado homem
branco.Sua ingênua mitologia está construida
sobre animais e formas monstruosas deles.Em sua cosmogonia,
não estabelecem diferenciação entre
eles próprios e os animais que lhes são familiares.
Em sua imaginação acreditam descender dos
animais e com sua morte poderem se transformar na onça
ou no veado.Diferentemente do caboclo ou mameluco,em cujo
sangue corre uma pitada do sangue do branco,ele não
mata por prazer de matar,mas só para saciar a fome,ou
raramente para se proteger,embora se deva dizer que ele
raramente é atacado pelos animais.Sua cabana é
uma verdadeira menagerie de animais domésticos ou
domesticados: tucanos,papagaios,macacos,queixadas,o brincalhão
quati,o grande mutum,que foi domesticado para servir de
exterminador de ratos.Pode até haver uma jibóia
no telhado colmado.Os animais entram e saem da cabana à
vontade e dormem no chão sujo à noite.Algumas
vezes os animais seguirão seus donos nas idas e vindas
da floresta,e o índio pode deixar alguns deles dormirem
em sua rede para mantê-lo quente durante a noite.Os
papagaios pousam em seus ombros e conversam com ele,ou o
tucano pode lhe catar insetos no cabelo.Não é
incomum uma índia amamentar de seus próprios
seios filhotes de animais.Se possuem galinhas,não
matarão os machos, porque gostam de ouvir o seu canto
nas madrugadas.Uma feição característica
das festas indígenas é a imitação
dos animais em suas danças e cortejos.
Os estrangeiros facilmente se tornam zoófilos em
contato com os nativos brasileiros.Quando nossa expedição
científica desceu o rio Amazonas,após vários
meses em seu curso superior,nossa coleção
de animais consistia do seguinte: um quati,onze macacos
de cinco espécies diferentes,quatro araras,nove papagaios
e periquitos,dez outros miscelâneos pássaros,incluindo
cantores e aves de caça como o mutum e o jacamar
e ainda um cachorro do mato.Eu tinha jogado nossa jibóia
para dentro do barco depois de pisá-la no chuveiro.Era
tão amigável quanto qualquer outro de nossos
animais.Uma onça pintada e um quati dormiam juntos
ao pé de minha rede.
Embora a vida animal da Amazônia seja rica e variada,o
viajante descuidado na floresta pode ver poucos exemplares
dela.Mas escutará os barulhos emitidos por eles.Os
animais são tímidos e evitam o homem.No chão,o
único perigo vem das serpentes venenosas.Muitos animais
escondem-se de dia e só aparecem quando escurece.Uma
das características da fauna amazônica é
o enorme número de espécies que vivem no topo
das árvores.Este mundo arbóreo pulula de vida:não
somente pássaros,mas também mamíferos
que raramente ou mesmo nunca descem ao chão.Lá
no alto estão os macacos e as preguiças e
mais um sem número de criaturas geofóbicas.A
água,eles a buscam nas pequeninas poças que
se formam nas depressões das palmeiras ou nos calices
das árvores em floração.Rãs,insetos,e
mesmo pequenos vertebrados aquáticos de conchas podem
passar toda sua existência sem descer ao chão.Nenhum
animal,em qualquer lugar do mundo,parece estar tão
bem adaptado ao seu estilo de vida como os macacos-aranha,os
melhores trapezistas voadores do mundo.Equipados com quatro
membros idealmente construidos para agarrar e uma longa
e poderosa cauda preênsil,este natural acrobata salta
através de incríveis espaços com a
maior facilidade.O índio,quando deseja capturar esse
e outros moradores das altas árvores,tomam de uma
zarabatana,poem dentro dela um dardo previamente envenenado,e
então o sopram com infalível pontaria em direção
ao animal,que em segundos vemos despencar do alto,atordoado
ou morto,conforme o desejo do caçador.
Exceto por um ocasional vislumbre de alguma criatura de
extraordinária beleza ou feiúra,os sons da
floresta tropical são muito mais impressionantes
do que aquilo que se vê.A gama varia enormente de
uma hora do dia para outra e dentre diferentes partes da
região.Algumas vezes,no sufocante calor da tarde,o
zunido dos insetos pode ser o único som a quebrar
o pesado silêncio.Mas o barulho das alvoradas ou dos
crepúsculos pode parecer uma cósmica cacofonia.Henry
Bates,um naturalista inglês que viveu 11 anos na Amazônia,escreveu
repetidamente o que ele denominou de “as muitas formas
dos sons da vida”,ou “a audível expressão
da pululante profusão de vida”,ou “o
quase ensurdecedor barulho da aurora”,ou ainda “esta
baderna de vida que quase nunca desaparece”.
Uma tempestade tropical é uma experiência inesquecível.Primeiro
vem uma ventania que varre toda a floresta, derrubando árvores
e lançandos ramos para o chão.Com o vento
vem um dilúvio de chuva que afoga tudo exceto os
gritos mais altos de animais tomados de pânico.Os
clarões dos relâmpagos são quase contínuos,e
uma dessas labaredas de fogo pode nos deixar entrever um
animal procurando um abrigo que não existe.
A onça-pintada é o mais formidável
dos animais brasileiros.Pode ser encontrada até o
norte do México.Ela não ataca o homem senão
quando provocada.O volume de seu corpo e sua força
tornam-na uma adversária terrível.De pura
curiosidade, ela algumas vezes pode surgir como do nada
perto de um acampamento ou às margens de um rio.É
mais fácil avistá-la no Mato Grosso do que
na Amazônia.Dizem que é um animal facilmente
domesticável, podendo se tornar uma graciosa companhia
doméstica.
O maior animal terrestre do Brasil é a anta,que pode
chegar a pesar 300 quilos.A despeito de sua aparência
semelhante ao porco,é,na verdade,um mamífero
ungulado,isto é,possui quatro dedos nas patas dianteiras
e apenas três nas traseiras.Os cientistas afirmam
que se ela tivesse sofrido certas modificações
evolucionárias há cerca de 10 milhões
de anos,poderia ter se tranformado num animal muito parecido
com o elefante.Contudo,agora é tarde demais--e os
zoólogos a classificam como bem aparentada com o
rinoceronte.
Por outro lado, o tamanduá é um bom exemplo
de especialização functional de longo planejamento.Ele
é um animal mirmecófago e, assim, nunca pensou
em comer outra coisa que não formiga e cupim.O tamanduá-bandeira,
o maior das três espécies brasileiras, é
de tamanho considerável com seu corpo de até
1,80m de comprimento e uma anorme cauda em formato de penacho,
que serve de cobertor para o animal nas noites frias.
Os principais aparatos para tal modo de vida são
uma longa língua e poderosas garras.Com estas ele
pode abrir os cupinzeiros, quase tão duros quanto
o concreto ou, sentando-se sobre os quadris, cortar em pedaços
uma onça-pintada ou um homem que lhe cai ao alcance
de seu abraço.
Os símios do Brasil,em tamanho,vão desde o
sagüi pigmeu,do Solimões,que tem apenas 17 cm
de comprimento até o robusto macaco barrigudo,e o
macaco roncador ou guariba.Não existe nenhum que
se compare aos macacos antropóides do Velho Mundo.Em
materia de temperamento,os macacos brasileiros variam desde
o pacífico barrigudo até o nervoso e irrequieto
macaco-prego,e o irritável e temperamental guariba,que,mesmo
assim,os indígenas conseguem domesticar.
Apesar de sua bem estabelecida posição de
animal de estimação, a carne de macaco é
um ítem importante e delicioso na dieta dos habitantes
de partes da Amazônia.Entretanto, tal prática
tem as suas limitações psicológicas,
uma vez que existe um entranhado sentimento de empatia entre
o homem e o macaco, que pode despertar em nós escrúpulos
de consciência de estarmos praticando antropofagia.
Quem quer que penetre na floresta logo irá se deparar
com os sinais típicos da presença dos macacos.Fazem
um verdadeiro pandemônio de chamados, conversas, gritaria
no topo das árvores e podem até arremessar
galhos de árvore e outros objetos sobre uma pessoa.Quando
cai a noite, entram em cena os guaribas com seus gritos
ensurdecedores.Seu ronco profundo abafa todos os outros
sons até uma distância de quilômetros
ao redor, até que a algazarra infernal termine, tão
abruptamente como começou.
O mais interessante, embora de presença bastante
modesta, dos animais brasileiros de pequeno porte é
a preguiça.Esta bizarra criatura,com sua face inexpressiva
e seu comportamento nada sociável,pode ser chamada
de uma remanescente antediluviana.Emite um balido semelhante
ao chamado de um carneiro e sua carne tem o sabor da de
carneiro.Vive nas árvores,entre as quais se desloca
com extrema lentidão.No entanto,seus movimentos são
deliberados e sempre atingem seu alvo.Alimenta-se das folhas
e brotos tenros de diversas espécies,com marcada
predileção pelos da embaúba ou cecrópia.Suas
patas traseiras possuem extraordinária força.
Permanecendo ainda na mesma categoria do bizarro ou nem
tanto, temos o tatú, um mamífero escavador
e provido de uma couraça articulada, que pode medir
até 85 cm; a fluvial capivara, maior roedor do mundo,
e que se parece com um rato silvestre que cresceu demais
e tem hábitos semelhantes aos do hipopótamo;
e a paca, roedor de pelo curto, lustroso e castanho, animal
favorito do caçador.
Muitos dos perigos naturais para o homem no Brasil não
vêm do solo nem do ar e sim da água dos numerosos
rios.Alguns deles são bem reais como a voraz piranha,
enquanto outros são magnificados pela imaginação,
como a anaconda.
Os rios são ricos em peixe, desde os curiosos peixinhos
de aquário ao imenso pirarucu, o maior peixe de água
doce.
Dos outros grandes habitantes da água,os mais conhecidos
são o mamífero peixe-boi e as três variedades
de golfinhos ou botos.Sobre este ultimo diz Bates:”No
Amazonas,eles são sempre vistos a girar,soprando
bolhas e resfolegando,especialmente à noite,e estes
barulhos contribuem para nos impressionar com a vastidão
de água e com a desolação que às
vezes assombra o viajante”.Há milhões
de tartarugas e sua carne,bem como seus ovos,são
consumidos pelo povo ribeirinho.Dos batráquios,quase
a metade das espécies do mundo vivem aqui.
Os estrangeiros instintivamente associam as cobras venenosas
com a floresta tropical,mas as probabilidades de se encontrar
uma nas selvas é,de fato,pequena.Durante mais de
um ano em que viajei quase 25 mil milhas pela Amazônia
só me deparei com duas.Muitos dos acidentes com serpentes
ocorrem na região do cerrado de Mato Grosso ou na
caatinga do Nordeste.As variedades mais perigosas pelo seu
veneno são a jararaca,a cascavel e a horrível
e agressiva surucucu,que é a maior e mais venenosa
de todas as serpentes que podem ser encontradas no Brasil.
Ave encontradiça em toda parte do país é
o urubu.Quando não está pairando bem alto
no céu ou devorando carniça,este lúgubre
espectro pode ser visto nos telhados das casas.
O primeiro pássaro a ser identificado no Brasil foi
o papagaio, que é um importante item de exportação
desde a descoberta do país.A ave adapta-se com facilidade
em qualquer parte e chega inclusive a mudar de idioma nas
suas falas, com toda a graça e bom temperamento,
que são sua marca registrada.Ele vem da mesma família
a que pertecem os periquitos e as araras, todos de plumagem
tão colorida que são uma delícia para
os olhos.
O brasileiro quando se sente nostálgico pensa logo
num pássaro chamado sabiá,que canta na escuridão
e mesmo na chuva.O sentimento popular acerca desse pássaro
foi cristalizado pelo poeta Gonçalves Dias,em seu
poema “Canção do Exílio”,que
foi escrito em Portugal.E quase todos os nomes de pássaros,é
bom que se diga,vieram das línguas dos índios.Assim,temos
o jacurutu,que é uma coruja e a juriti,que é
da família dos pombos.Algumas vezes,porém,o
caboclo ou o português renomeou alguns pássaros,o
que causou uma certa confusão na ornitologia brasileira,o
que não impede,felizmente,que todo mundo saiba o
que é o aguerrido canário,o mavioso uirapuru,o
infatigável picapau ou o belo cardeal de crista vermelha,o
trabalhador incansável joão-de-barro,o indiscreto
bem-te-vi e o gracioso beija-flor.
O Brasil é rico em aves de caça, algumas das
quais podem ser domesticadas.Há uma grande variedade
delas como o mutum, o inhambu, o jacu, etc.
Dignos de nota são os insetos.O naturalista Henry
Bates identificou 7 mil espécies só nas proximidades
de uma cidade da região norte chamada Ega.Eles vivem
no ar,nas cascas e folhagens de árvores,no chão
e debaixo da superfície,e na água.Vivem nas
moradias e nos materiais de que são construidas.Vivem
no pelo e dentro dos corpos dos animais.Alguns,como o bicho-de-pé,podem
furar e enterrar-se dentro do corpo humano.Eles procriam
durante todo o ano e não existe inverno assaz rigoroso
que diminua o processo astronômico de sua multiplicação.Quase
todos são inimigos do conforto humano,de sua saúde
e de sua economia.Sua extinção ou controle
é um grande problema para o país.
Mas há também insetos que não prejudicam
ninguém,como as borboletas.Um naturalista as chamou
de “flôres voadoras”.Bates encontrou para
mais de 700 espécies delas em apenas uma hora de
caminhada nos arredores de Belém e Ega,onde ele viveu
muitos anos.A mais notável é a famosa morpho,de
asas de um belo azul metálico.
Resumo e Tradução de Carlos Rezende, extraído
do seguinte livro em domínio público:
1) The Project Gutenberg EBook of Wanderings In South America,
by Charles Waterton
26/01/2008
This ebook is for the use of anyone anywhere at no cost
and with almost no restrictions whatsoever. You may copy
it, give it away or re-use it under the terms of the Project
Gutenberg License included with this eBook or on-line at
www.gutenberg.org

|
|
|