Animais do Brasil


Por Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br

 

Falta ao Brasil a espetacular fauna da África.O país não tem elefante,leão,gorila ou hipopótamo.Não existem grandes manadas.Mas se o Brasil não tem impalas,nem gnus,ele tem com fartura sucuri,tatu,macacos guaribas e sagüis.Possui os maiores insetos da terra e talvez a maior quantidade deles.
Como se poderia esperar,a mais densa concentração de animais está na imensa floresta tropical do Vale Amazônico.Este vale não possui abrigos adequados para caçadores,exceto para aqueles homens primitivos que estão familiarizados com esse ambiente antediluviano.Para quaisquer outros, tudo é muito confuso e desconfortável de dia,e por demais assustador durante a noite.É um “paraíso” sim—mas para os naturalistas.Uma vez que a Amazônia é toda ela uma vasta reserva animal,não há nada comparável a um parque nacional.
Os brasileiros têm uma particular afinidade com os animais.Isto é especialmente verdadeiro em relação aos índios, que algumas vezes devem sentir mais empatia entre eles e os animais do que entre eles e o chamado homem branco.Sua ingênua mitologia está construida sobre animais e formas monstruosas deles.Em sua cosmogonia, não estabelecem diferenciação entre eles próprios e os animais que lhes são familiares. Em sua imaginação acreditam descender dos animais e com sua morte poderem se transformar na onça ou no veado.Diferentemente do caboclo ou mameluco,em cujo sangue corre uma pitada do sangue do branco,ele não mata por prazer de matar,mas só para saciar a fome,ou raramente para se proteger,embora se deva dizer que ele raramente é atacado pelos animais.Sua cabana é uma verdadeira menagerie de animais domésticos ou domesticados: tucanos,papagaios,macacos,queixadas,o brincalhão quati,o grande mutum,que foi domesticado para servir de exterminador de ratos.Pode até haver uma jibóia no telhado colmado.Os animais entram e saem da cabana à vontade e dormem no chão sujo à noite.Algumas vezes os animais seguirão seus donos nas idas e vindas da floresta,e o índio pode deixar alguns deles dormirem em sua rede para mantê-lo quente durante a noite.Os papagaios pousam em seus ombros e conversam com ele,ou o tucano pode lhe catar insetos no cabelo.Não é incomum uma índia amamentar de seus próprios seios filhotes de animais.Se possuem galinhas,não matarão os machos, porque gostam de ouvir o seu canto nas madrugadas.Uma feição característica das festas indígenas é a imitação dos animais em suas danças e cortejos.
Os estrangeiros facilmente se tornam zoófilos em contato com os nativos brasileiros.Quando nossa expedição científica desceu o rio Amazonas,após vários meses em seu curso superior,nossa coleção de animais consistia do seguinte: um quati,onze macacos de cinco espécies diferentes,quatro araras,nove papagaios e periquitos,dez outros miscelâneos pássaros,incluindo cantores e aves de caça como o mutum e o jacamar e ainda um cachorro do mato.Eu tinha jogado nossa jibóia para dentro do barco depois de pisá-la no chuveiro.Era tão amigável quanto qualquer outro de nossos animais.Uma onça pintada e um quati dormiam juntos ao pé de minha rede.
Embora a vida animal da Amazônia seja rica e variada,o viajante descuidado na floresta pode ver poucos exemplares dela.Mas escutará os barulhos emitidos por eles.Os animais são tímidos e evitam o homem.No chão,o único perigo vem das serpentes venenosas.Muitos animais escondem-se de dia e só aparecem quando escurece.Uma das características da fauna amazônica é o enorme número de espécies que vivem no topo das árvores.Este mundo arbóreo pulula de vida:não somente pássaros,mas também mamíferos que raramente ou mesmo nunca descem ao chão.Lá no alto estão os macacos e as preguiças e mais um sem número de criaturas geofóbicas.A água,eles a buscam nas pequeninas poças que se formam nas depressões das palmeiras ou nos calices das árvores em floração.Rãs,insetos,e mesmo pequenos vertebrados aquáticos de conchas podem passar toda sua existência sem descer ao chão.Nenhum animal,em qualquer lugar do mundo,parece estar tão bem adaptado ao seu estilo de vida como os macacos-aranha,os melhores trapezistas voadores do mundo.Equipados com quatro membros idealmente construidos para agarrar e uma longa e poderosa cauda preênsil,este natural acrobata salta através de incríveis espaços com a maior facilidade.O índio,quando deseja capturar esse e outros moradores das altas árvores,tomam de uma zarabatana,poem dentro dela um dardo previamente envenenado,e então o sopram com infalível pontaria em direção ao animal,que em segundos vemos despencar do alto,atordoado ou morto,conforme o desejo do caçador.
Exceto por um ocasional vislumbre de alguma criatura de extraordinária beleza ou feiúra,os sons da floresta tropical são muito mais impressionantes do que aquilo que se vê.A gama varia enormente de uma hora do dia para outra e dentre diferentes partes da região.Algumas vezes,no sufocante calor da tarde,o zunido dos insetos pode ser o único som a quebrar o pesado silêncio.Mas o barulho das alvoradas ou dos crepúsculos pode parecer uma cósmica cacofonia.Henry Bates,um naturalista inglês que viveu 11 anos na Amazônia,escreveu repetidamente o que ele denominou de “as muitas formas dos sons da vida”,ou “a audível expressão da pululante profusão de vida”,ou “o quase ensurdecedor barulho da aurora”,ou ainda “esta baderna de vida que quase nunca desaparece”.
Uma tempestade tropical é uma experiência inesquecível.Primeiro vem uma ventania que varre toda a floresta, derrubando árvores e lançandos ramos para o chão.Com o vento vem um dilúvio de chuva que afoga tudo exceto os gritos mais altos de animais tomados de pânico.Os clarões dos relâmpagos são quase contínuos,e uma dessas labaredas de fogo pode nos deixar entrever um animal procurando um abrigo que não existe.
A onça-pintada é o mais formidável dos animais brasileiros.Pode ser encontrada até o norte do México.Ela não ataca o homem senão quando provocada.O volume de seu corpo e sua força tornam-na uma adversária terrível.De pura curiosidade, ela algumas vezes pode surgir como do nada perto de um acampamento ou às margens de um rio.É mais fácil avistá-la no Mato Grosso do que na Amazônia.Dizem que é um animal facilmente domesticável, podendo se tornar uma graciosa companhia doméstica.
O maior animal terrestre do Brasil é a anta,que pode chegar a pesar 300 quilos.A despeito de sua aparência semelhante ao porco,é,na verdade,um mamífero ungulado,isto é,possui quatro dedos nas patas dianteiras e apenas três nas traseiras.Os cientistas afirmam que se ela tivesse sofrido certas modificações evolucionárias há cerca de 10 milhões de anos,poderia ter se tranformado num animal muito parecido com o elefante.Contudo,agora é tarde demais--e os zoólogos a classificam como bem aparentada com o rinoceronte.
Por outro lado, o tamanduá é um bom exemplo de especialização functional de longo planejamento.Ele é um animal mirmecófago e, assim, nunca pensou em comer outra coisa que não formiga e cupim.O tamanduá-bandeira, o maior das três espécies brasileiras, é de tamanho considerável com seu corpo de até 1,80m de comprimento e uma anorme cauda em formato de penacho, que serve de cobertor para o animal nas noites frias.
Os principais aparatos para tal modo de vida são uma longa língua e poderosas garras.Com estas ele pode abrir os cupinzeiros, quase tão duros quanto o concreto ou, sentando-se sobre os quadris, cortar em pedaços uma onça-pintada ou um homem que lhe cai ao alcance de seu abraço.
Os símios do Brasil,em tamanho,vão desde o sagüi pigmeu,do Solimões,que tem apenas 17 cm de comprimento até o robusto macaco barrigudo,e o macaco roncador ou guariba.Não existe nenhum que se compare aos macacos antropóides do Velho Mundo.Em materia de temperamento,os macacos brasileiros variam desde o pacífico barrigudo até o nervoso e irrequieto macaco-prego,e o irritável e temperamental guariba,que,mesmo assim,os indígenas conseguem domesticar.
Apesar de sua bem estabelecida posição de animal de estimação, a carne de macaco é um ítem importante e delicioso na dieta dos habitantes de partes da Amazônia.Entretanto, tal prática tem as suas limitações psicológicas, uma vez que existe um entranhado sentimento de empatia entre o homem e o macaco, que pode despertar em nós escrúpulos de consciência de estarmos praticando antropofagia.
Quem quer que penetre na floresta logo irá se deparar com os sinais típicos da presença dos macacos.Fazem um verdadeiro pandemônio de chamados, conversas, gritaria no topo das árvores e podem até arremessar galhos de árvore e outros objetos sobre uma pessoa.Quando cai a noite, entram em cena os guaribas com seus gritos ensurdecedores.Seu ronco profundo abafa todos os outros sons até uma distância de quilômetros ao redor, até que a algazarra infernal termine, tão abruptamente como começou.
O mais interessante, embora de presença bastante modesta, dos animais brasileiros de pequeno porte é a preguiça.Esta bizarra criatura,com sua face inexpressiva e seu comportamento nada sociável,pode ser chamada de uma remanescente antediluviana.Emite um balido semelhante ao chamado de um carneiro e sua carne tem o sabor da de carneiro.Vive nas árvores,entre as quais se desloca com extrema lentidão.No entanto,seus movimentos são deliberados e sempre atingem seu alvo.Alimenta-se das folhas e brotos tenros de diversas espécies,com marcada predileção pelos da embaúba ou cecrópia.Suas patas traseiras possuem extraordinária força.
Permanecendo ainda na mesma categoria do bizarro ou nem tanto, temos o tatú, um mamífero escavador e provido de uma couraça articulada, que pode medir até 85 cm; a fluvial capivara, maior roedor do mundo, e que se parece com um rato silvestre que cresceu demais e tem hábitos semelhantes aos do hipopótamo; e a paca, roedor de pelo curto, lustroso e castanho, animal favorito do caçador.
Muitos dos perigos naturais para o homem no Brasil não vêm do solo nem do ar e sim da água dos numerosos rios.Alguns deles são bem reais como a voraz piranha, enquanto outros são magnificados pela imaginação, como a anaconda.
Os rios são ricos em peixe, desde os curiosos peixinhos de aquário ao imenso pirarucu, o maior peixe de água doce.
Dos outros grandes habitantes da água,os mais conhecidos são o mamífero peixe-boi e as três variedades de golfinhos ou botos.Sobre este ultimo diz Bates:”No Amazonas,eles são sempre vistos a girar,soprando bolhas e resfolegando,especialmente à noite,e estes barulhos contribuem para nos impressionar com a vastidão de água e com a desolação que às vezes assombra o viajante”.Há milhões de tartarugas e sua carne,bem como seus ovos,são consumidos pelo povo ribeirinho.Dos batráquios,quase a metade das espécies do mundo vivem aqui.
Os estrangeiros instintivamente associam as cobras venenosas com a floresta tropical,mas as probabilidades de se encontrar uma nas selvas é,de fato,pequena.Durante mais de um ano em que viajei quase 25 mil milhas pela Amazônia só me deparei com duas.Muitos dos acidentes com serpentes ocorrem na região do cerrado de Mato Grosso ou na caatinga do Nordeste.As variedades mais perigosas pelo seu veneno são a jararaca,a cascavel e a horrível e agressiva surucucu,que é a maior e mais venenosa de todas as serpentes que podem ser encontradas no Brasil.
Ave encontradiça em toda parte do país é o urubu.Quando não está pairando bem alto no céu ou devorando carniça,este lúgubre espectro pode ser visto nos telhados das casas.
O primeiro pássaro a ser identificado no Brasil foi o papagaio, que é um importante item de exportação desde a descoberta do país.A ave adapta-se com facilidade em qualquer parte e chega inclusive a mudar de idioma nas suas falas, com toda a graça e bom temperamento, que são sua marca registrada.Ele vem da mesma família a que pertecem os periquitos e as araras, todos de plumagem tão colorida que são uma delícia para os olhos.
O brasileiro quando se sente nostálgico pensa logo num pássaro chamado sabiá,que canta na escuridão e mesmo na chuva.O sentimento popular acerca desse pássaro foi cristalizado pelo poeta Gonçalves Dias,em seu poema “Canção do Exílio”,que foi escrito em Portugal.E quase todos os nomes de pássaros,é bom que se diga,vieram das línguas dos índios.Assim,temos o jacurutu,que é uma coruja e a juriti,que é da família dos pombos.Algumas vezes,porém,o caboclo ou o português renomeou alguns pássaros,o que causou uma certa confusão na ornitologia brasileira,o que não impede,felizmente,que todo mundo saiba o que é o aguerrido canário,o mavioso uirapuru,o infatigável picapau ou o belo cardeal de crista vermelha,o trabalhador incansável joão-de-barro,o indiscreto bem-te-vi e o gracioso beija-flor.
O Brasil é rico em aves de caça, algumas das quais podem ser domesticadas.Há uma grande variedade delas como o mutum, o inhambu, o jacu, etc.
Dignos de nota são os insetos.O naturalista Henry Bates identificou 7 mil espécies só nas proximidades de uma cidade da região norte chamada Ega.Eles vivem no ar,nas cascas e folhagens de árvores,no chão e debaixo da superfície,e na água.Vivem nas moradias e nos materiais de que são construidas.Vivem no pelo e dentro dos corpos dos animais.Alguns,como o bicho-de-pé,podem furar e enterrar-se dentro do corpo humano.Eles procriam durante todo o ano e não existe inverno assaz rigoroso que diminua o processo astronômico de sua multiplicação.Quase todos são inimigos do conforto humano,de sua saúde e de sua economia.Sua extinção ou controle é um grande problema para o país.
Mas há também insetos que não prejudicam ninguém,como as borboletas.Um naturalista as chamou de “flôres voadoras”.Bates encontrou para mais de 700 espécies delas em apenas uma hora de caminhada nos arredores de Belém e Ega,onde ele viveu muitos anos.A mais notável é a famosa morpho,de asas de um belo azul metálico.

Resumo e Tradução de Carlos Rezende, extraído do seguinte livro em domínio público:
1) The Project Gutenberg EBook of Wanderings In South America, by Charles Waterton
26/01/2008
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