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Aristarco de Samos, o Copérnico da antiguidade.
Parece
que Aristarco foi contemporâneo de Arquimedes, mas
as datas exatas de sua vida não são conhecidas.
Estava ele ativamente realizando observações
astronômicas em Samos pouco antes do meio do terceiro
século a.C. Em outras palavras, exatamente no tempo
em que as atividades da escola de Alexandria estavam em
seu apogeu. Hiparco, pouco mais tarde, comparou suas observações
com as de Aristarco. Contudo, os fatos de sua vida são
demasiado obscuros, e dos seus escritos somente um foi preservado.
Esse, entretanto, é o mais importante e interessante
e trata das medições do sol e da lua.
Aristarco resolveu, em essência, o mecanismo do sistema
solar, e suas teorias são explícitas em seu
livro. Tivessem elas encontrado eco, a história da
ciência teria sido bem diferente do que realmente
foi, e não teríamos que esperar o nascimento
de Copérnico para nos dizer que a terra não
é o centro do universo e nem teríamos que
assistir à perseguição de Giordano
Bruno, nem à de Galileu por ensinar essa doutrina
no século dezessete de nossa era. Mas os ensinamentos
de Aristarco encontravam séria resistência
entre a maioria dos filósofos que seguiam Aristóteles,
os chamados peripatéticos.
Para entendermos completamente a teoria de Aristarco, deveremos
recuar dois séculos até ao outro grande filho
de Samos, Pitágoras, o qual já ensinava que
os mundos estavam em movimento e que nossa terra era uma
esfera que não fugia à regra, enquanto que
os outros filósofos ainda acreditavam que nosso mundo
era plano.
Qual
foi, então, a linha de indução científica
que guiou Aristarco até sua audaciosa meta?Por sorte
podemos dar resposta a essa questão, pelo menos em
parte. O astrônomo chegou à evidência
através de maravilhosas medições. Primeiro,
ele mediu os discos do sol e da lua. Isto, claro, não
poderia lhe dar a distancia desses corpos, e, portanto,
nenhuma pista acerca de seus tamanhos relativos; mas, ao
forçar esse caminho, foi conduzido a um extraordinário,
embora simples experimento. Ocorreu-lhe que,quando a lua
está dividida exatamente ao meio,a linha de visão
da terra para a lua deve necessariamente formar um ângulo
reto com a linha de luz que passa do sol para a lua. Neste
ponto, então, as linhas imaginárias que unem
o sol, a lua e a terra formam um triângulo retângulo.
Ora, as propriedades do triângulo retângulo
já tinham sido estudadas e entendidas há muito
tempo. Tales já tinha medido a distância de
um navio em alto mar aplicando essas mesmas propriedades
do triângulo retângulo. Agora, o que Aristarco
fazia era nada mais nada menos que substituir o navio de
Tales pelo sol, e, vendo a lua ao mesmo tempo, medir o ângulo
e estabelecer a forma desse triângulo de um ângulo
reto. Isto não lhe diz a distância do sol,para
sermos exatos,uma vez que ele não sabia o comprimento
da linha-base—isto é, da linha entre a lua
e a terra, mas atava a distância relativa do sol à
distância relativa da lua. Mas quando Aristarco verifica
o ângulo, ele mostra que o sol é dezoito vezes
tão distante de nós quanto à lua. Ora,
comparando o tamanho aparente do sol com o tamanho aparente
da lua, Aristarco torna-se capaz de nos dizer que o sol
é “mais do que 5832 vezes, e menos do que 8000
vezes” maior que a lua.
O
método acima é notavelmente engenhoso, mas
altamente falível se não for auxiliado por
instrumentos que só foram desenvolvidos muitos séculos
adiante. O ângulo calculado por Aristarco é
de 87 graus. O ângulo correto é de 87 graus
e 52 minutos. Pode parecer pequena a diferença, mas
ela nos leva a resultados grotescos. O sol não está
a uma distancia de 18 vezes a da lua e sim 200 vezes. Através
dele, porém, Aristarco pôde fazer inferências
perfeitamente válidas. Mais uma vez dizemos: o método
era perfeito.
Vejamos quais foram as inferências de Aristarco: o
sol está a uma distância muito maior que a
da lua e é vastamente maior que ela em tamanho;a
lua é menor que a terra e o sol muito maior;é
inerentemente improvável que o sol sendo assim tão
enorme gire ao redor da terra,tão minúscula;é
inconcebível que um corpo tão distante como
o sol fizesse seu circuito ao redor da terra em apenas 24
horas.Por outro lado,parecia inerentemente provável
que um corpo tão pequeno quanto a terra girasse ao
redor do gigantesco sol.Uma vez aceitas essas hipóteses
como verdadeiras,fácil era também admitir
a rotação da terra sobre seu próprio
eixo e a conseqüência necessária do aparente
movimento das estrelas.
Eis aqui a teoria heliocêntrica reduzida a uma virtual
demonstração por Aristarco de Samos.
Cláudio
Galeno, o último gigante de Alexandria
Com
seus escritos, provavelmente influenciou o progresso da
ciência médica mais do que qualquer outro escritor.
Sua influência foi suprema por quatorze séculos,
e, embora tenha feito contribuições originais,
suas obras são principalmente dignas de nota como
uma enciclopédia dos conhecimentos médicos
de seu tempo e como uma crítica das obras de seus
predecessores. Há também em seus livros muitas
informações acerca de sua própria vida.
Nasceu ele em Pérgamo, em 130 d.C. Seu pai era um
renomado arquiteto e sua mãe uma megera. Galeno,
em sua infância, adquiriu muitos conhecimentos e exemplos
de vida com o pai, e quando completou 15 anos, recebeu instrução
das escolas dos estóicos, platônicos, peripatéticos
e epicuristas. Ele conjugou o idealismo de Platão,
o realismo de Aristóteles, o ceticismo dos epicuristas
e o materialismo dos estóicos. Aos 17 anos, foi iniciado
na profissão de médico pelo pai por um sonho
que este último teve. Estudou com os homens mais
eminentes de sua época. Foi a Esmirna para ser aluno
de Pelops, médico, e Albino, platônico;a Corinto
para estudar com Numesiano;à Alexandria,para ouvir
as conferências de Heracliano;e também a Creta,Palestina,Chipre,etc.Aos
29 anos,Galeno retornou de Alexandria para Pérgamo,recebendo
o emprego de médico da Escola dos Gladiadores,onde
ganhou muita distinção.
Foi a Roma pela primeira vez em 163-4 d.C., e lá
permaneceu durante quatro anos; neste período escreveu
sobre anatomia e sobre os escritos de Hipócrates
e Platão. Adquiriu grande fama como clínico
e,se assim o quisesse,poderia ter servido ao imperador;
mas é provável que Galeno pensasse que servindo
ao imperador se veria impedido de deixar Roma quando bem
lhe aprouvesse. Também proferia conferências
públicas e freqüentemente entrava em querelas
com seus pares de profissão--daí ter sido
chamado não somente de o “prodígio da
palavra” como também de “o milagreiro”.
Os sucessos por ele alcançados atraiam a inveja de
muitos, e ele chegou a temer
que o envenenassem seus rivais menos brilhantes. Não
é certa a razão que o levou a deixar Roma.
Uma pestilência grassava pela cidade nesta ocasião,
mas é improvável que ele desertasse seus pacientes
por esta razão. Talvez Roma não lhe agradasse
e sentisse saudade pela sua terra natal. Entretanto, esteve
pouco tempo em Pérgamo, uma vez que foi chamado para
atender aos imperadores Marco Aurélio e Lúcio
Vero, quando os dois compartilhavam o título de imperador.
Vero morreu de apoplexia a caminho de Roma e, assim, Galeno
seguiu Marco Aurélio até a capital. Ocorreu
pouco depois a partida do imperador para o teatro de guerra
no Danúbio, e a Galeno foi permitido ficar em Roma
cuidando de Cômodo, o filho do imperador. Como da
outra vez, ficou em Roma, praticando e realizando estudos,
e mais uma vez retornou a Pérgamo.
Galeno
não foi somente um grande médico, mas um homem
de larga cultura. Em questões de religião,
confessava-se monoteísta. Houve perseguição
de cristãos em seus dias, sendo até provável
que ele tivesse tido algum contato com os discípulos
da nova religião. Como quer que seja, em um de seus
livros perdidos, citado por seus biógrafos árabes,
Galeno louva o amor da virtude praticado pelos cristãos.
Sem dúvida a prática da medicina por ele,quando
já alcançara enorme prestígio,deve
lhe ter parecido lucrativa, pois certa ocasião curou
a esposa do cônsul Boécio e recebeu como paga
o equivalente a 350 libras esterlinas.
Galeno escreveu não menos de 500 tratados, de grande
e pequena extensão, a maioria sobre medicina, mas
também alguns versando a ética, a lógica
e a gramática. Seu estilo é bom, mas um tanto
prolixo, e ele encontra grande satisfação
em citar os antigos filósofos gregos. Admirava Hipócrates,
sempre o tratando com profundo respeito, mas curiosamente,
será difícil encontrar escritores de estilos
tão diferentes—Hipócrates expressando-se
com simplicidade e Galeno com extrema sofisticação.
Obras
sobre anatomia e fisiologia
Galeno
insistia que o estudo da anatomia era essencial. Seus livros
sobre o assunto eram quinze, em número. As instruções
que ele ministra sobre dissecação mostram
que ele era um mestre consumado nesta arte. Ao dissecar
a veia porta e suas ramificações, por exemplo,
ele aconselha que uma sonda seja inserida na veia e que
com ela se avançasse gradualmente enquanto o tecido
circundante fosse afastado de modo que as ramificações
minúsculas pudessem ser expostas. Ele executava o
experimento de amarrar as artérias ilíacas
e axilares em animais, demonstrando que este procedimento
fazia cessar o pulso da perna e do braço, mas sem
causar sérios sintomas, e ele ainda demonstrou que
mesmo as artérias carótidas podiam ser amarradas
sem que com isso a morte súbita sobreviesse.
É altamente improvável que Galeno dissecasse
corpos humanos em Roma, embora o fizesse com uma grande
variedade de animais. Ele escreve que os médicos
que atendiam Marco Aurélio nas guerras germânicas
dissecavam os cadáveres dos bárbaros. Os principais
erros cometidos por Galeno como anatomista foram devidos
à sua crença de que aquilo que se aplicava
aos animais também valesse para o homem.
Galeno fez avançar a fisiologia ao reconhecer que
toda parte do corpo existe para o propósito de executar
uma função definida. Ele considerava as várias
estruturas, tais como a mão e as membranas que envolvem
o cérebro, como perfeitas, não obstante ser
sua idéia da mão humana derivada do estudo
com macacos. Entretanto, seria injusto quem criticasse seu
legado, visto que seus erros limitavam-se a detalhes relativamente
desimportantes.
Descobriu a função dos nervos motores e era
capaz de provocar a paralisia de certos músculos.
Era uma grande autoridade nos mecanismos da pulsação,
chegando a reconhecer a diástole (expansão)
e a sístole (contração). Aristóteles
pensava que as artérias contivessem ar, mas Galeno
ensinou que elas continham sangue, pois,quando uma era ferida,o
sangue jorrava em abundância. Conheceu muito bem o
esqueleto humano e aconselhava a seus estudantes que fossem
a Alexandria,onde poderiam ver e tocar os ossos.
Higiene
Galeno advogava a prática da ginástica. Recomendava
banhos frios para as pessoas no apogeu de suas forças.
Para os idosos recomendava banhos quentes e o consumo do
vinho. Pensava que essa bebida era particularmente adequada
para os idosos. Tinha em alta conta o uso da carne de porco
em nossa alimentação e dizia que os atletas
não poderiam manter seu vigor se não a consumissem.
Patologia
Galeno acreditava na doutrina dos quatro elementos, e suas
especulações levaram-no à crença
na seguinte subdivisão: ”O fogo é quente
e seco; o ar é quente e úmido, pois é
como o vapor; a água é fria e úmida
e a terra é fria e seca”. Ensinava que há
oito temperamentos humanos; e sua classificação
das inflamações mostra que suas idéias
acerca das patologias eram tão exatas, em essência,
quanto suas idéias sobre anatomia e fisiologia.
Sobre
diagnose
Seus estudos sobre a pulsação foram-lhe muito
úteis no diagnóstico de moléstias.Seguramente
foi um extraordinário perito nesta difícil
arte, graças aos seus longos, variados e custosos
conhecimentos médicos e, certamente ainda, à
sua enorme capacidade de julgamento.
Sobre
terapêutica
Não foi tão hábil quanto Dioscórides,cujos
ensinamentos ele adotou.Nas obras de Galeno existe uma extensa
lista de compostos medicinais,vários remédios
receitados para uma mesma moléstia e nunca prescritos
com muita confiança.Na verdade havia muito do que
hoje denominamos placebo.Eram classificados antes pelas
suas inerentes qualidades de umidade,frialdade e calor do
que pelas suas propriedades terapêuticas em si e,triste
lembrança,punha fé em amuletos e em crendices
de seu tempo.Há coisas estranhas e loucas na “Materia
Medica”,como,por exemplo:” O cisto (uma planta)
possui poderes adstringentes e moderadamente refrescantes
e,quando aplicado em feridas,causa um efeito desidratante
e aglutinante,com isto fechando a ferida;mas as flores têm
propriedades secantes e,quando maceradas em água
e dado a beber,curam disenterias e toda sorte de fluxos”.
Cirurgia
Galeno conformou-se aos costumes dos médicos de Roma
e,assim,não praticou a cirurgia,ainda que vez por
outra usasse a lanceta na sangria e defendia sua prática
contra os seguidores de Erasistrato,em Roma.Dizem que realizou
amputações e era hábil na ligadura
da artéria femoral—mas não podemos ter
certeza neste particular.
Ginecologia
Galeno tinha um conhecimento superficial do assunto.Suas
informações sobre o útero e partes
acessórias não eram boas, mas merece ficar
registrado que tinha mais familiaridade com a anatomia dos
tubos de Falópio que seus antecessores.
A
residência de Galeno em Roma ficava na parte oposta
do Templo de Rômulo,próxima ao Fórum
e a data de sua morte não é exatamente conhecida,mas
provavelmente se deu por volta do ano 200 d.C.
Higiene pessoal
Só
foi redescoberta no final do século dezenove, tendo
sido muito popular na Grécia e Roma antigas, dois
mil anos atrás.
A água era considerada pelos mais sofisticados, talvez
com razão, o principal agente de doenças.
Banhar-se em água era atividade perigosa. Ao invés
dela, a realeza usava tomar banhos de leite. Os plebeus
se limitavam a esfregar uma toalha molhada pelo corpo ou
salpicar o rosto e ombros com ela a partir de uma bacia,
ou mesmo, já agora nos séculos 12 e 17, utilizarem-se
de banheiros públicos. Considere, por exemplo, o
caso da rainha Isabel, da Espanha, que se tornou famosa
por sua ligação com Cristóvão
Colombo. Gabava-se ela de haver tomado apenas dois banhos
em toda sua vida—ao nascer e em sua noite de núpcias.
Mas nem todos os membros da realeza tinham tamanha aversão
à água. A rainha Elizabeth I, da Inglaterra,
lavava as partes íntimas graças a um aparato
inventado para uso exclusivo dela.
Em 1857, o empresário nova-iorquino Joseph Gayetty
fabricou o primeiro papel pré-umedecido para asseio
e o britânico Thomas Crapper, pela mesma época,
redesenhou aquele que viria a se tornar o toalete moderno.
Antes da invenção do papel higiênico,em
1890,pela Scott Paper Company, as pessoas usavam toda sorte
de objetos para se manterem limpas—desde folhas de
diversas plantas e árvores até sabugo de milho.
A realeza francesa empregava tecidos de renda, os duros
vikings lã, os romanos esponjas, e os chineses, à
frente dos tempos já em 1391, as primeiras folhas
de papel.
Resumos
e Tradução de Carlos Rezende, extraídos
dos seguintes livros em Domínio Público:
1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 1,
Henry Smith Williams
2) 2) The Project Gutenberg EBook of the First Book of Factoids,
by Sam Vaknin
3) The Project Gutenberg EBook of Outlines of Greek and
Roman Medicine, by James Sands Elliott.
29/09/2007
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