Ciência Grega em Alexandria - Aristarco e Galeno


Por Carlos Rezende
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Aristarco de Samos, o Copérnico da antiguidade.

Parece que Aristarco foi contemporâneo de Arquimedes, mas as datas exatas de sua vida não são conhecidas. Estava ele ativamente realizando observações astronômicas em Samos pouco antes do meio do terceiro século a.C. Em outras palavras, exatamente no tempo em que as atividades da escola de Alexandria estavam em seu apogeu. Hiparco, pouco mais tarde, comparou suas observações com as de Aristarco. Contudo, os fatos de sua vida são demasiado obscuros, e dos seus escritos somente um foi preservado. Esse, entretanto, é o mais importante e interessante e trata das medições do sol e da lua.
Aristarco resolveu, em essência, o mecanismo do sistema solar, e suas teorias são explícitas em seu livro. Tivessem elas encontrado eco, a história da ciência teria sido bem diferente do que realmente foi, e não teríamos que esperar o nascimento de Copérnico para nos dizer que a terra não é o centro do universo e nem teríamos que assistir à perseguição de Giordano Bruno, nem à de Galileu por ensinar essa doutrina no século dezessete de nossa era. Mas os ensinamentos de Aristarco encontravam séria resistência entre a maioria dos filósofos que seguiam Aristóteles, os chamados peripatéticos.
Para entendermos completamente a teoria de Aristarco, deveremos recuar dois séculos até ao outro grande filho de Samos, Pitágoras, o qual já ensinava que os mundos estavam em movimento e que nossa terra era uma esfera que não fugia à regra, enquanto que os outros filósofos ainda acreditavam que nosso mundo era plano.

Qual foi, então, a linha de indução científica que guiou Aristarco até sua audaciosa meta?Por sorte podemos dar resposta a essa questão, pelo menos em parte. O astrônomo chegou à evidência através de maravilhosas medições. Primeiro, ele mediu os discos do sol e da lua. Isto, claro, não poderia lhe dar a distancia desses corpos, e, portanto, nenhuma pista acerca de seus tamanhos relativos; mas, ao forçar esse caminho, foi conduzido a um extraordinário, embora simples experimento. Ocorreu-lhe que,quando a lua está dividida exatamente ao meio,a linha de visão da terra para a lua deve necessariamente formar um ângulo reto com a linha de luz que passa do sol para a lua. Neste ponto, então, as linhas imaginárias que unem o sol, a lua e a terra formam um triângulo retângulo. Ora, as propriedades do triângulo retângulo já tinham sido estudadas e entendidas há muito tempo. Tales já tinha medido a distância de um navio em alto mar aplicando essas mesmas propriedades do triângulo retângulo. Agora, o que Aristarco fazia era nada mais nada menos que substituir o navio de Tales pelo sol, e, vendo a lua ao mesmo tempo, medir o ângulo e estabelecer a forma desse triângulo de um ângulo reto. Isto não lhe diz a distância do sol,para sermos exatos,uma vez que ele não sabia o comprimento da linha-base—isto é, da linha entre a lua e a terra, mas atava a distância relativa do sol à distância relativa da lua. Mas quando Aristarco verifica o ângulo, ele mostra que o sol é dezoito vezes tão distante de nós quanto à lua. Ora, comparando o tamanho aparente do sol com o tamanho aparente da lua, Aristarco torna-se capaz de nos dizer que o sol é “mais do que 5832 vezes, e menos do que 8000 vezes” maior que a lua.

O método acima é notavelmente engenhoso, mas altamente falível se não for auxiliado por instrumentos que só foram desenvolvidos muitos séculos adiante. O ângulo calculado por Aristarco é de 87 graus. O ângulo correto é de 87 graus e 52 minutos. Pode parecer pequena a diferença, mas ela nos leva a resultados grotescos. O sol não está a uma distancia de 18 vezes a da lua e sim 200 vezes. Através dele, porém, Aristarco pôde fazer inferências perfeitamente válidas. Mais uma vez dizemos: o método era perfeito.
Vejamos quais foram as inferências de Aristarco: o sol está a uma distância muito maior que a da lua e é vastamente maior que ela em tamanho;a lua é menor que a terra e o sol muito maior;é inerentemente improvável que o sol sendo assim tão enorme gire ao redor da terra,tão minúscula;é inconcebível que um corpo tão distante como o sol fizesse seu circuito ao redor da terra em apenas 24 horas.Por outro lado,parecia inerentemente provável que um corpo tão pequeno quanto a terra girasse ao redor do gigantesco sol.Uma vez aceitas essas hipóteses como verdadeiras,fácil era também admitir a rotação da terra sobre seu próprio eixo e a conseqüência necessária do aparente movimento das estrelas.
Eis aqui a teoria heliocêntrica reduzida a uma virtual demonstração por Aristarco de Samos.

Cláudio Galeno, o último gigante de Alexandria

Com seus escritos, provavelmente influenciou o progresso da ciência médica mais do que qualquer outro escritor. Sua influência foi suprema por quatorze séculos, e, embora tenha feito contribuições originais, suas obras são principalmente dignas de nota como uma enciclopédia dos conhecimentos médicos de seu tempo e como uma crítica das obras de seus predecessores. Há também em seus livros muitas informações acerca de sua própria vida. Nasceu ele em Pérgamo, em 130 d.C. Seu pai era um renomado arquiteto e sua mãe uma megera. Galeno, em sua infância, adquiriu muitos conhecimentos e exemplos de vida com o pai, e quando completou 15 anos, recebeu instrução das escolas dos estóicos, platônicos, peripatéticos e epicuristas. Ele conjugou o idealismo de Platão, o realismo de Aristóteles, o ceticismo dos epicuristas e o materialismo dos estóicos. Aos 17 anos, foi iniciado na profissão de médico pelo pai por um sonho que este último teve. Estudou com os homens mais eminentes de sua época. Foi a Esmirna para ser aluno de Pelops, médico, e Albino, platônico;a Corinto para estudar com Numesiano;à Alexandria,para ouvir as conferências de Heracliano;e também a Creta,Palestina,Chipre,etc.Aos 29 anos,Galeno retornou de Alexandria para Pérgamo,recebendo o emprego de médico da Escola dos Gladiadores,onde ganhou muita distinção.

Foi a Roma pela primeira vez em 163-4 d.C., e lá permaneceu durante quatro anos; neste período escreveu sobre anatomia e sobre os escritos de Hipócrates e Platão. Adquiriu grande fama como clínico e,se assim o quisesse,poderia ter servido ao imperador; mas é provável que Galeno pensasse que servindo ao imperador se veria impedido de deixar Roma quando bem lhe aprouvesse. Também proferia conferências públicas e freqüentemente entrava em querelas com seus pares de profissão--daí ter sido chamado não somente de o “prodígio da palavra” como também de “o milagreiro”. Os sucessos por ele alcançados atraiam a inveja de muitos, e ele chegou a temer que o envenenassem seus rivais menos brilhantes. Não é certa a razão que o levou a deixar Roma. Uma pestilência grassava pela cidade nesta ocasião, mas é improvável que ele desertasse seus pacientes por esta razão. Talvez Roma não lhe agradasse e sentisse saudade pela sua terra natal. Entretanto, esteve pouco tempo em Pérgamo, uma vez que foi chamado para atender aos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero, quando os dois compartilhavam o título de imperador. Vero morreu de apoplexia a caminho de Roma e, assim, Galeno seguiu Marco Aurélio até a capital. Ocorreu pouco depois a partida do imperador para o teatro de guerra no Danúbio, e a Galeno foi permitido ficar em Roma cuidando de Cômodo, o filho do imperador. Como da outra vez, ficou em Roma, praticando e realizando estudos, e mais uma vez retornou a Pérgamo.

Galeno não foi somente um grande médico, mas um homem de larga cultura. Em questões de religião, confessava-se monoteísta. Houve perseguição de cristãos em seus dias, sendo até provável que ele tivesse tido algum contato com os discípulos da nova religião. Como quer que seja, em um de seus livros perdidos, citado por seus biógrafos árabes, Galeno louva o amor da virtude praticado pelos cristãos.
Sem dúvida a prática da medicina por ele,quando já alcançara enorme prestígio,deve lhe ter parecido lucrativa, pois certa ocasião curou a esposa do cônsul Boécio e recebeu como paga o equivalente a 350 libras esterlinas.
Galeno escreveu não menos de 500 tratados, de grande e pequena extensão, a maioria sobre medicina, mas também alguns versando a ética, a lógica e a gramática. Seu estilo é bom, mas um tanto prolixo, e ele encontra grande satisfação em citar os antigos filósofos gregos. Admirava Hipócrates, sempre o tratando com profundo respeito, mas curiosamente, será difícil encontrar escritores de estilos tão diferentes—Hipócrates expressando-se com simplicidade e Galeno com extrema sofisticação.

Obras sobre anatomia e fisiologia

Galeno insistia que o estudo da anatomia era essencial. Seus livros sobre o assunto eram quinze, em número. As instruções que ele ministra sobre dissecação mostram que ele era um mestre consumado nesta arte. Ao dissecar a veia porta e suas ramificações, por exemplo, ele aconselha que uma sonda seja inserida na veia e que com ela se avançasse gradualmente enquanto o tecido circundante fosse afastado de modo que as ramificações minúsculas pudessem ser expostas. Ele executava o experimento de amarrar as artérias ilíacas e axilares em animais, demonstrando que este procedimento fazia cessar o pulso da perna e do braço, mas sem causar sérios sintomas, e ele ainda demonstrou que mesmo as artérias carótidas podiam ser amarradas sem que com isso a morte súbita sobreviesse.

É altamente improvável que Galeno dissecasse corpos humanos em Roma, embora o fizesse com uma grande variedade de animais. Ele escreve que os médicos que atendiam Marco Aurélio nas guerras germânicas dissecavam os cadáveres dos bárbaros. Os principais erros cometidos por Galeno como anatomista foram devidos à sua crença de que aquilo que se aplicava aos animais também valesse para o homem.

Galeno fez avançar a fisiologia ao reconhecer que toda parte do corpo existe para o propósito de executar uma função definida. Ele considerava as várias estruturas, tais como a mão e as membranas que envolvem o cérebro, como perfeitas, não obstante ser sua idéia da mão humana derivada do estudo com macacos. Entretanto, seria injusto quem criticasse seu legado, visto que seus erros limitavam-se a detalhes relativamente desimportantes.
Descobriu a função dos nervos motores e era capaz de provocar a paralisia de certos músculos. Era uma grande autoridade nos mecanismos da pulsação, chegando a reconhecer a diástole (expansão) e a sístole (contração). Aristóteles pensava que as artérias contivessem ar, mas Galeno ensinou que elas continham sangue, pois,quando uma era ferida,o sangue jorrava em abundância. Conheceu muito bem o esqueleto humano e aconselhava a seus estudantes que fossem a Alexandria,onde poderiam ver e tocar os ossos.

Higiene

Galeno advogava a prática da ginástica. Recomendava banhos frios para as pessoas no apogeu de suas forças. Para os idosos recomendava banhos quentes e o consumo do vinho. Pensava que essa bebida era particularmente adequada para os idosos. Tinha em alta conta o uso da carne de porco em nossa alimentação e dizia que os atletas não poderiam manter seu vigor se não a consumissem.

Patologia

Galeno acreditava na doutrina dos quatro elementos, e suas especulações levaram-no à crença na seguinte subdivisão: ”O fogo é quente e seco; o ar é quente e úmido, pois é como o vapor; a água é fria e úmida e a terra é fria e seca”. Ensinava que há oito temperamentos humanos; e sua classificação das inflamações mostra que suas idéias acerca das patologias eram tão exatas, em essência, quanto suas idéias sobre anatomia e fisiologia.

Sobre diagnose

Seus estudos sobre a pulsação foram-lhe muito úteis no diagnóstico de moléstias.Seguramente foi um extraordinário perito nesta difícil arte, graças aos seus longos, variados e custosos conhecimentos médicos e, certamente ainda, à sua enorme capacidade de julgamento.

Sobre terapêutica

Não foi tão hábil quanto Dioscórides,cujos ensinamentos ele adotou.Nas obras de Galeno existe uma extensa lista de compostos medicinais,vários remédios receitados para uma mesma moléstia e nunca prescritos com muita confiança.Na verdade havia muito do que hoje denominamos placebo.Eram classificados antes pelas suas inerentes qualidades de umidade,frialdade e calor do que pelas suas propriedades terapêuticas em si e,triste lembrança,punha fé em amuletos e em crendices de seu tempo.Há coisas estranhas e loucas na “Materia Medica”,como,por exemplo:” O cisto (uma planta) possui poderes adstringentes e moderadamente refrescantes e,quando aplicado em feridas,causa um efeito desidratante e aglutinante,com isto fechando a ferida;mas as flores têm propriedades secantes e,quando maceradas em água e dado a beber,curam disenterias e toda sorte de fluxos”.

Cirurgia

Galeno conformou-se aos costumes dos médicos de Roma e,assim,não praticou a cirurgia,ainda que vez por outra usasse a lanceta na sangria e defendia sua prática contra os seguidores de Erasistrato,em Roma.Dizem que realizou amputações e era hábil na ligadura da artéria femoral—mas não podemos ter certeza neste particular.

Ginecologia

Galeno tinha um conhecimento superficial do assunto.Suas informações sobre o útero e partes acessórias não eram boas, mas merece ficar registrado que tinha mais familiaridade com a anatomia dos tubos de Falópio que seus antecessores.

A residência de Galeno em Roma ficava na parte oposta do Templo de Rômulo,próxima ao Fórum e a data de sua morte não é exatamente conhecida,mas provavelmente se deu por volta do ano 200 d.C.


Higiene pessoal

Só foi redescoberta no final do século dezenove, tendo sido muito popular na Grécia e Roma antigas, dois mil anos atrás.
A água era considerada pelos mais sofisticados, talvez com razão, o principal agente de doenças. Banhar-se em água era atividade perigosa. Ao invés dela, a realeza usava tomar banhos de leite. Os plebeus se limitavam a esfregar uma toalha molhada pelo corpo ou salpicar o rosto e ombros com ela a partir de uma bacia, ou mesmo, já agora nos séculos 12 e 17, utilizarem-se de banheiros públicos. Considere, por exemplo, o caso da rainha Isabel, da Espanha, que se tornou famosa por sua ligação com Cristóvão Colombo. Gabava-se ela de haver tomado apenas dois banhos em toda sua vida—ao nascer e em sua noite de núpcias. Mas nem todos os membros da realeza tinham tamanha aversão à água. A rainha Elizabeth I, da Inglaterra, lavava as partes íntimas graças a um aparato inventado para uso exclusivo dela.
Em 1857, o empresário nova-iorquino Joseph Gayetty fabricou o primeiro papel pré-umedecido para asseio e o britânico Thomas Crapper, pela mesma época, redesenhou aquele que viria a se tornar o toalete moderno. Antes da invenção do papel higiênico,em 1890,pela Scott Paper Company, as pessoas usavam toda sorte de objetos para se manterem limpas—desde folhas de diversas plantas e árvores até sabugo de milho. A realeza francesa empregava tecidos de renda, os duros vikings lã, os romanos esponjas, e os chineses, à frente dos tempos já em 1391, as primeiras folhas de papel.

Resumos e Tradução de Carlos Rezende, extraídos dos seguintes livros em Domínio Público:

1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 1, Henry Smith Williams
2) 2) The Project Gutenberg EBook of the First Book of Factoids, by Sam Vaknin
3) The Project Gutenberg EBook of Outlines of Greek and Roman Medicine, by James Sands Elliott.
29/09/2007
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