Por Carlos Rezendea
cev.rezende@uol.com.br
Uma
óbvia distinção entre as épocas clássica
e medieval está no fato de a primeira haver produzido alguns
poucos grandes pensadores científicos em cada geração,
enquanto que a segunda falhou inteiramente em produzi-los.Falhou
em produzir,bem entendido,aquela espécie de indivíduos
imbuídos daquele ceticismo que constitui a base do espírito
investigador; de mentes que pensavam por si mesmas e buscavam
explicações mais ou menos racionais de acordo com
os fenômenos observados.
Se eliminássemos o trabalho de algumas dezenas de observadores
e pensadores, o período clássico pareceria uma idade
medieval.
Então, surge a pergunta: Por que grandes e originais investigadores
não floresceram no período medieval?
Uma parte da explicação está em que as fronteiras
de civilização,onde a mistura racial naturalmente
se dava,estavam habitadas por povos semibárbaros.
Mas não podemos esquecer que nos centros de civilização
existiam muitos homens de intelecto poderoso.
De fato, constituiria uma violação do princípio
de continuidade histórica supor que houve qualquer súbita
mudança de nível na mentalidade do mundo romano
em seu período clássico final.
Newton dizia que fora levado às suas descobertas ao direcionar
de modo contínuo sua mente para uma determinada direção.
É provável que idêntica explicação
possa ser dada para quase toda grande descoberta científica
importante.
Anaxágoras por si só não poderia ter concebido
sua teoria das fases da lua; Aristarco não poderia ter
encontrado o mecanismo correto do sistema solar; Eratóstenes
não poderia ter desenvolvido seu plano de medir a Terra--
se cada um desses investigadores não tivesse orientado
suas mentes de um modo consciente e perseverante para cada problema
que tivessem querido resolver.
Não
duvidamos que os homens que viveram na Idade Média em cada
geração não fossem capazes de pensamento
criador uma vez que direcionassem suas mentes para os campos da
ciência --mas o problema é que eles não o
fizeram. Suas mentes tinham outras preocupações,
outras tendências, estavam por assim dizer sob o encanto
de ideais diferentes, todos os seus esforços mentais estavam
dirigidos para outros caminhos. Que estes caminhos existiam, é
coisa que não pode ser posta em dúvida--havia uma
orientação geral para aquilo que pode ser chamado
de eclesiasticismo. Um fato fala por tudo. Segundo um grande estudioso
de cultura assinala, de Boécio (morto em 524 ou 525) até
Dante (1265-1321 d.C.) não houve um único escritor
de nomeada na Europa ocidental que não fosse um profissional
da Igreja. Todo o saber da época era eclesiástico.
Sabemos que o mesmo sucedeu no Egito, quando a ciência também
se manteve estática. Mas, por outro lado, também
sabemos que na Grécia e na Roma antigas os trabalhadores
ligados à ciência eram majoritariamente profissionais
médicos ou professores, entre os quais muito raramente
surgia um teólogo.
De modo semelhante,como iremos ver no mundo árabe quando
ali nos detivermos,foi somente aí que houve progresso na
Idade Média, e todos os homens de saber eram médicos,
na maioria das vezes. Para homens de hoje, tudo isso parece evidente.
O médico naturalmente direcionava sua mente para os aspectos
práticos da vida. Seus estudos profissionais faziam-no
um investigador das operações da natureza. Ele é
usualmente um cético, com um interesse espontâneo
nos aspectos práticos da vida. Seus estudos profissionais
o levavam a investigar as operações da natureza.
Já a mente do teólogo está direcionada para
o misticismo. Ele é o profissional que lida com o sobrenatural.
Sua atitude mental afasta-o da ciência; ele subtrai o valor
meramente "natural”. Os fundamentos básicos
de sua fé são baseados em alegadas ocorrências
que as ciências indutivas não podem admitir--isto
é, milagres. E, portanto, as mentes se direcionavam para
o sobrenatural que só podia ser atingido através
do nebuloso misticismo do pensamento medieval. Ao invés
de investigar as leis naturais, eles davam atenção
a coisas tais como as que Tomás de Aquino dava: aos “atos
dos anjos”, os “anjos comunicantes”, a “subordinação
dos anjos”, a “ ação dos anjos guardiãs”,etc.Eles
disputavam sobre questões como:quantos anjos podem caber
na ponta de uma agulha,se Cristo era coevo com Deus ou se ele
tinha sido meramente criado "desde o princípio dos
tempos".Como se poderia esperar que a ciência florescesse
quando a maior mente daqueles tempos se ocupava com problemas
dos tipos acima mencionados?
A despeito de nossos possíveis preconceitos ou prejuízos,
não pode haver senão uma resposta para a questão.
A superstição oriental lançou sua penumbrosa
luz sobre o claro campo da ciência. Devemos, porém,
ficar em guarda contra uma superestimação ou incorreta
estimação desta influência.
A posteridade, ao olhar para trás, parece estar sempre
pronta em caracterizar esse passado por uma única idéia
e defini-lo por uma frase, enquanto que a realidade de todos os
tempos é diversificada, e qualquer generalização
pode levar a uma injustiça maior ou menor.
Podemos, portanto, estar certos de que o eclesiasticismo não
é o único responsável pela estase científica
da Idade Média. De fato, houve outra influência que
não pode ser desconsiderada--qual seja, a condição
econômica da Europa ocidental durante esse período.
A Itália, o centro da civilização ocidental,
estava, por essa época, empobrecida, e, portanto, não
poderia oferecer o estímulo tão essencial para o
progresso artístico e científico quanto para o progresso
material. Não havia nenhum patrono da ciência e literatura
tais como os Ptolomeus da antiga Alexandria. Não havia
grandes bibliotecas, nem tampouco colégios que oferecessem
estímulos para as novas gerações. Pior que
tudo, tornou-se cada vez mais difícil possuir livro. Este
fator não pode ser esquecido. E uma reflexão mostrará
sua importância.
Como
estaríamos hoje se não fossem os novos livros científicos
que são editados e se os primeiros registros de passadas
gerações não fossem preservados?Muito mal,
sem dúvida. No entanto, as coisas estavam nesse pé
no período medieval. Em épocas anteriores, os livros
eram feitos e distribuídos com muito mais abundância
do que se supõe geralmente. A manufatura de livros em Roma
era uma profissão importante executada pelos escravos sob
a direção de editores. Foi através dos esforços
desses trabalhadores que as obras clássicas em latim e
grego foram multiplicadas e disseminadas. Infelizmente o clima
da Europa não é adequado à preservação
indefinida de livros. Assim, pouquíssimos remanescentes
dessas obras clássicas chegaram até nós em
sua forma original. As raras exceções são
certos fragmentos de papiros encontrados no Egito, dos quais alguns
são manuscritos gregos datando do terceiro século
a.C. Mas mesmo dessas fontes o resultado é parco; e o único
outro repositório de livros clássicos é um
aposento na cidade sepultada de Herculano, onde várias
centenas de manuscritos, a maioria com muitas partes destruídas,
mas ainda legíveis. Esta biblioteca na cidade sepultada
é composta de livros sobre filosofia, muitos dos quais
eram totalmente desconhecidos até sua descoberta lá.
O
gosto de quem comprava livro requeria que este tivesse um texto
claro, e na Idade Média tornou-se comum produzi-lo em forma
ornamentada. A grafia das letras empregadas foi o protótipo
do moderno texto impresso, e tarefa assim dificultosa permitia
apenas que um escriba produzisse, na melhor das hipóteses,
umas poucas páginas por dia. Uma obra volumosa, portanto,
podia exigir o labor de vários meses ou mesmo de vários
anos. Deste modo, podia ser considerado florescente o editor que
produzisse 100 cópias por ano (não havia mais o
trabalho escravo, pelo menos nessa área).
Outra fonte de obras antigas preservadas, incluindo a literatura
científica, nos chegou através dos árabes.
A familiar história de que os árabes invadiram o
Egito e queimaram a biblioteca de Alexandria não passa
de uma invenção de tempos posteriores. É
muito mais provável que ela tenha sido pilhada e seus livros
espalhados muito antes da chegada dos muçulmanos. De fato,
foi sugerido que os primeiros cristãos foram os responsáveis
por essa remoção dos registros deixados pelos pagãos.
Mas seja como for, o certo é que a grande biblioteca já
há muito desaparecera antes que houvesse o reavivamento
do interesse pelo saber clássico. Nesse meio tempo, os
árabes, longe de destruírem a literatura ocidental,
foram bem ao contrário os seus principais preservadores,
uma vez que reconheceram o valor inestimável desse saber.
Enquanto a Europa da Idade Média ignorava toda a ciência
já acumulada pelos antigos, os árabes, sob o seu
estímulo, tentavam fazer investigações científicas
originais.
Com efeito, os sucessores de Maomé mostraram-se receptivos
às idéias dos povos ocidentais por ele conquistados.
Entraram em contato com os gregos e os egípcios e se tornaram
os seus virtuais sucessores em carregar a tocha do conhecimento
para frente. Não se pense, contudo, que eles possuíram
o gênio criativo de seus predecessores. Ao contrário,
detiveram muito da tradição oriental. Houve, porém,
algumas notáveis exceções entre seus homens
de ciência, aos devemos creditar algumas valiosas descobertas.
Os principais ramos do conhecimento que despertaram o interesse
dos sábios árabes se concentravam na astronomia,
matemática e medicina. Assim, são bem conhecidos
de todos nós os numerais arábicos, que datam dessa
época. O efeito verdadeiramente revolucionário que
estes caracteres,quando aplicados às matemáticas
práticas,tiveram para a humanidade nunca será superestimado;
mas é geralmente considerado, e de fato foi admitido pelos
próprios árabes, que realmente estes numerais foram
tomados de empréstimo dos hindus, com quem os árabes
estiveram em contato no oriente. Porém não se sabe
se os hindus os empregavam de acordo com o sistema decimal, que
é o elemento chave de sua importância. Não
existe conhecimento de exatamente quando ou por quem tal aplicação
foi feita. Se foi uma inovação dos árabes,
foi a mais importante já feita por essa nação.
Nos séculos nono e décimo a cidade arábica
de Córdoba, na Espanha, foi um importante centro de influência
científica. Havia aí uma biblioteca de várias
centenas de milhares de volumes e uma faculdade de matemática
e astronomia. Granada, Toledo e Salamanca eram também importantes
centros de saber, para os quais
acorriam estudantes de toda Europa ocidental.
No campo da ciência física um dos mais importantes
cientistas árabes foi Alhazen, nascido em Basra, Iraque,
em 965 e morto em 1040, no Egito. Sua obra, publicada por volta
do ano 1100 d.C. gozou de grande celebridade durante toda a Idade
Média. Suas principais investigações originais
estão no campo da ótica. Conduziu pesquisas particularmente
sobre o olho, e as várias partes dele, como o humor vítreo,
a córnea, a retina--que são até hoje denominados
assim pelos anatomistas.
Sabe-se que Ptolomeu estudou a refração da luz,
e que ele, em comum com seus predecessores imediatos, estava a
par dos efeitos da refração atmosférica sobre
a posição aparente das estrelas próximas
ao horizonte. Alhazen levou adiante tais estudos, e foi levado
através deles a fazer o primeiro registro científico
acerca do fenômeno do crepúsculo e da altura da camada
atmosférica.
Resumo e Tradução de Carlos Rezende, extraído
do seguinte livro em domínio público:
1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 2, by Williams
#2 in our series by Henry Smith Williams
04/01/2008
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