A Ciência da Paleontologia

Por Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br

 

Desde quando Leonardo da Vinci primeiro reconheceu o verdadeiro caráter dos fósseis, tem havido aqui e ali homens que compreenderam que a crosta terrestre é um grande mausoléu. Aqui e ali um diletante tem enchido seu estúdio com relíquias de monstros; aqui e ali um filósofo os tem considerado--questionando se por acaso eles tinham estado uma vez vivos, ou se não passavam de meras recordações abortivas daquele tempo quando a matriz fértil da terra supostamente “fervilhava de inúmeras criaturas viventes, de formas e membros perfeitos e crescidos”.

Georges Cuvier nasceu em 1769. Recebeu brilhante educação, cedo recebeu reconhecimento como cientista e ainda jovem venho a ser tido como o maior anatomista comparativo de seu tempo. Foram os estudos anatômicos que o levaram para o reino dos fósseis.

 Foram-lhe trazidos por trabalhadores alguns ossos cavados numa pedreira. Imediatamente os olhos treinados de Cuvier lhe disseram que aquelas coisas eram diferentes de tudo que ele jamais pudera ver. Gente falava de gigantes dos primeiros tempos, até de anjos decaídos. Cuvier mostrou logo que nem de gigantes mitológicos, nem de anjos eram os restos em questão, mas de elefantes de uma espécie não registrada. Continuando seus estudos, particularmente com material reunido dos depósitos de gesso próximos de Paris, acumulou, por volta do início do século 19, ossos de aproximadamente 25 espécies de animais que ele acreditava serem diferentes de qualquer ser vivo do globo.

A fama de seus estudos alcançou os países estrangeiros e ossos fósseis começaram a ser escavados de todos os cantos, e, com isto, a convicção de Cuvier robusteceu-se com essas evidências de extintas formas de animais, estranhas e anômalas, algumas das quais de tamanho gigantesco. Assim, em 1816 foi publicado o famoso “Ossements Fossiles”, descrevendo estes novos objetos, e a paleontologia vertebrada tornou-se uma ciência. Entre outras coisas de grande interesse popular o livro continha a primeira descrição autoritativa de um elefante peludo ao qual Cuvier deu o nome de mamute, os restos do qual tinham sido encontrados incrustados numa massa de gelo na Sibéria em 1802, tão maravilhosamente preservado que os cães dos pescadores tungusianos de fato comeram algumas de suas partes. Foi descoberto pelo naturalista Pallas, que tinha também achado no mesmo local uma carcaça de rinoceronte, congelado na lama. Mas nenhum desses descobridores suspeitava que esses seres fossem membros de uma população extinta—eles supuseram que os mesmos eram meramente relíquias do Dilúvio.

Cuvier, por outro lado, afirmou que estas e outras criaturas que ele descreveu tinham vivido e tinham morrido na região onde os restos deles foram achados, e que a maioria não tinha nenhum representante vivo no globo. “Ossements fossiles” teve aceitação popular raramente visto numa obra de ciência técnica—uma recepção na qual a aprovação entusiástica de geólogos progressistas misturava-se aos amargos protestos dos conservadores.

Mas o grande erro de Cuvier foi não ver uma linha de continuidade entre essas formas fósseis vindas de todas as partes do mundo e as formas presentes, e nem a extinção da maioria delas e sua substituição por outras que deram origem às atuais populações. A interpretação correta estava por vir.


Resumo e tradução de Carlos Rezende, do seguinte livro em domínio público:

 Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 3, by Williams #3 in our series by Henry Smith Williams.
26/08/2008.

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