Cinco escritores


Por Carlos Rezendea
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Breves considerações sobre cinco escritores brasileiros



Cedo, dois principais impulsos estavam presentes nas letras do Brasil: a literatura portuguesa e as escolas fundadas pelos jesuítas. Ao tempo da descoberta do Brasil somente Itália, Espanha, França e Portugal possuíam uma vida literária, pelo menos nos povos cujas línguas derivaram do latim. Portugal, inclusive, como assinala o crítico literário brasileiro José Veríssimo, estava então em seu período áureo. Gabava-se de cronistas como Fernão Lopes, novelistas como Bernardim Ribeiro, historiadores como João de Barros e dramaturgos do porte de Gil Vicente, o criador do teatro português e um dos iniciadores do moderno teatro Europeu. E o maior de todos, lírico excepcional e épico superior, que só ele vale uma literatura--Camões.
Os estabelecimentos de ensino dos jesuítas foram responsáveis pela disseminação da cultura latina e mantiveram o contato entre o interior e os centros mais importantes. É natural, portanto, que as primeiras manifestações literárias no Brasil fossem portuguesas não só na linguagem mas também na inspiração,sentimento e espírito.Similarmente encontramos a mesma dependência intelectual nos países de fala espanhola com respeito à Espanha,mesmo que mais tarde tanto os escritores dos mundos espanhol e português passassem a sofrer muito maior influência da cultura francesa.”A poesia brasileira”,afirma Veríssimo num pequeno ensaio,”era já superior à portuguesa no século 17”.Ele chegou a prever um tempo em que ela deixaria para trás a portuguesa.Mas a literatura brasileira como um todo carecia da continuidade, coesão e unidade das grandes literaturas,principalmente por haver se iniciado como portuguesa,logo a seguir francesa e só num terceiro momento brasileira.No início faltava-lhe a solidariedade que só veio a existir com a mais fácil comunicação entre os grandes centros literários.Esta mesma falta de comunicação era,em certa medida,verdadeira ao tempo em que Veríssimo escreveu o seu ensaio.O elemento de comunicabilidade existiu durante o período Romântico (1835-1860),por conseqüência das influencias vindas da França,Inglaterra,Itália,e mesmo da Alemanha,e as letras assim sofreram uma rápida desnacionalização.O que era necessário e benéfico do ponto de vista da cultura nacional prejudicava,de outra parte,os interesses da literatura nacional,enfatiza Veríssimo.Ele descobre também que há pouca originalidade e cultura entre os escritores brasileiros,e mais,que lhe faltavam sinceridade e forma (1899).Que a poesia frequentemente se reduzia ao gosto da forma,enquanto que a ficção estava intimamente ligada à cópia da literatura francesa,operando-se deste modo a asfixia do desenvolvimento da literatura dramática nacional.Também a excessiva preocupação com a política e as finanças contribuía para impedir a eclosão da verdadeira literatura nativa.
Talvez a visão de Veríssimo fosse pessimista; foi ele um espírito sério, destemeroso no expressar suas convicções e um amante algo exagerado da verdade ao ponto de se deixar iludir pelo amor ao seu país e deste modo exigir mais do que o possível e humanamente realizável pelos seus compatriotas dedicados ao cultivo das letras.
Como quer que seja, é com a prosa de período mais recente que estamos mais interessados. A crescente importância do Brasil como nação comercial, juntamente com um correspondente aumento do interesse pelo idioma português, faz nascer entre o público consumidor de livros da língua inglesa um real interesse pelas obras produzidas pelos escritores dessa grande nação.
O “Indianismo” brasileiro atingiu seu ponto mais alto com o famoso romance “O Guarani”, de José de Alencar, o qual conquistou reputação nacional e sucesso sem precedentes. A estória possui tanta intensidade de vida e descrições tão encantadoras que fazem lembrar páginas de Chateaubriand. Sua prosa frequentemente confunde-se com a poesia em sua idealização da vida dos indígenas. Do autor, dentre outras obras numerosas e famosas, só “Iracema”, a “virgem dos lábios de mel”, aproxima-se de o “Guarani” em popularidade. Já ganhou bela tradução da Srª. Isabel Burton, esposa do renomado Sir Richard Burton, a qual se rendeu a seus encantos e assim se expressa no prefácio da obra:” Nossa língua do norte só muito rudemente pode transmitir toda a imensa graça e musicalidade do idioma português falado no Brasil,e particularmente nesta obra que tentei traduzir.A nota dominante do autor,depois muitas vezes repetida na história literária dessa nação,é a essencial bondade e espírito de auto-renúncia do caráter nacional”.
Com Alfredo d'Escragnolle Taunay (1843-1899) temos um dos mais importantes romancistas. Nascido no Rio de Janeiro, de família nobre, engajou-se como militar na guerra do Paraguai. Tomou parte na campanha da Laguna—evento que viria a tornar-se imortal graças ao seu livro “A Retirada da Laguna”, cuja primeira edição foi publicada em francês e depois traduzida para o português. Taunay serviu também como secretário do Conde d’Eu, que comandava o exército brasileiro. Mais tarde ocupou vários cargos políticos. Suas obras são tão numerosas que não mencionaremos neste texto que é apenas uma fragmentária introdução. Avulta, dentre elas, ”Inocência”, à qual Veríssimo chama de uma das poucas obras verdadeiramente originais do país. Também recebeu os devidos encômios de Merou (1900), que a saudou como “o melhor romance escrito na América do Sul por um escritor sul americano”. Sua obra mais famosa foi traduzida duas vezes para o francês, e uma para o inglês, italiano, alemão, dinamarquês e até para o japonês.
O cenário dela são as ermas terras de Mato Grosso, pano de fundo favorito do autor. Inocência é tudo o que seu nome implica, e mora em lugar recluso com seu pai, que é trabalhador de mina, sua escrava Conga e o anão Tico, que a ama. Mas o médico Cirino de Campos entra na vida de Inocência, chamado que fora pelo pai da moça para curá-la de uma febre. Os dois acabam se apaixonando e chegam a fazer amor escondidos, pois a moça estava prometida em casamento ao brutal tropeiro Manecão pelo pai. Inocência promete seu amor a Cirino, quando o tropeiro chega para renovar seu pedido de casamento; o pai, atado à sua palavra de honra, apóia o pedido de casamento de Manecão. A tragédia parece estar predestinada, uma vez que Inocência opõe resistência vigorosa, enquanto Manecão jura vingar-se matando o médico. A cômica figura de um cientista alemão adiciona humor e certa pungente ironia à estória. Um esboço assim esquemático certamente não transmite o misterioso encanto do original—e nem a sua densa atmosfera poética.
Com o lançamento de “O Mulato”, de Aluízio Azevedo (1857-1912), a literatura do Brasil, preparada para tal reorientação por influência direta do grande escritor português Eça de Queirós, e pelo fundador e principal autor do Naturalismo, Émile Zola, definitivamente deixou-se guiar para esse movimento artístico. ”Em Aluízio Azevedo”, diz Benedito Costa, ”não se vê a poesia de Alencar, nem a delicadeza—ou talvez melhor, a travessura—de Macedo, nem o requinte sentimental de Taunay, nem a sutil ironia de Machado de Assis. Sua frase é algo fria, falta-lhe lirismo, ternura, fantasia sonhadora, mas é plena de dinamismo, vigor, expressividade e, em momentos, de uma sensualidade que beira o doce delírio”.
O “Mulato”, embora obra de um jovem na casa dos vinte,foi reconhecido como sólido e bem construído exemplo do realismo brasileiro. Há uma nota de humorismo, bem como de crítica literária, numa anedota do autor (contada no prefácio da 4ª edição), acerca do editor de província que aconselhou o jovem autor a abandonar o ofício de escrever e ir empregar-se numa fazenda. Deve notar-se, entretanto, que Azevedo se tornou um dos poucos escritores brasileiros a conseguir sustentar-se pela sua pena.
Quando a literatura dos Estados Unidos enfim libertar-se de suas infantis, hipócritas, puritanas inibições metidas goela abaixo por certos estratos quase oficiais de sua sociedade, poderemos saborear, dentre a longa prateleira dos livros de Aluízio Azevedo, esse produto sensual que é o seu livro “O Cortiço”.
Tenho selecionado um tanto arbitrariamente os autores, devo admitir, mas trato das obras mais notáveis num texto que é por força exíguo.
Outro livro importante é “Canaã”, de Graça Aranha.
Essa sua obra-prima é das mais vastas concepções. Ela possui todo o lirismo de Inocência e lhe acrescenta o acento épico inerente ao assunto de que trata e que perpassa todo o livro. De fato, trata-se de um romance de difícil classificação, impregnado que está do mais nobre heroísmo, em que pese indubitavelmente a mescla de poderoso realismo em que foi vazada. Isto, contudo, não implica a sugestão de inepta mistura de gêneros; o estilo parece haver-se imposto pela própria natureza da larga temática—aquele momento no qual o elemento nativo e a descendência imigrante começam a fundir-se na terra do futuro—a terra prometida que os protagonistas estão destinados a nunca por os pés, tal como o próprio Moisés que, do Monte Nebo, na terra de Moab, contempla Canaã, e morre nas torturas dessa grande visão.
Canaã é um daqueles romances cujo âmago é uma idéia que nos subjuga. Tipifica o gosto daquele que quer devotar toda sua atenção no descrever a vida e os costumes, em discutir a realidade presente e os propósitos últimos, características talvez mais freqüentes entre os americanos descendentes de espanhóis e portugueses do que entre os nossos próprios leitores norte-americanos, os quais revelam certa insistência exagerada em seus desejos por ações rápidas e visíveis. Não obstante isso, devemos todos admitir que, nas mãos do mestre, a primeira possui não menor interesse do que a segunda,que pede um tipo de ficção mais óbvia,uma vez que as idéias encarnam mais vida e são,em última instância,elas que movem as pessoas e não o contrário.
A idéia que traz Milkau do Velho Mundo para o Novo é o ideal da fraternidade humana. Num lugar do Estado do Espírito Santo, onde a colonização alemã é dominante, ele planeja levar uma vida simples que deve beber inspiração na juventude de um novo e virgem continente. Encontra-se com outro alemão, Lentz, cuja visão sobre a vida é bem oposta à combinação de cristianismo e socialismo liberal de Milkau. O ambiente estranho deflagra em ambos uma espécie de langor intelectual que extravasa em longas discussões, em miragens de espírito. Milkau gradualmente choca-se com algo de errado na colônia. Pouco a pouco torna-se-lhe patente ante os olhos que algo da hipocrisia do Velho Mundo, da sua fraude e da sua insinceridade está contaminando este território virgem. Aqui ele não descobre o paraíso à la Rousseau—não existe homem que não se tenha corrompido pelos males da civilização.A enxertia do mal alastra-se como em qualquer outro distrito do mundo d'além mar;a crueldade lavra tal como uma epidemia.A piedade de Milkau é estimulada pela situação de Maria,uma desamparada serviçal doméstica que é seduzida pelo filho de seus empregadores.Não somente o covarde canalha a abandona quando mais ela dele necessita como também se mantém calado quando seus igualmente odiosos pais a expulsam,lançando a pobre criatura numa vida das mais intensas agruras.Ela é repelida de cada porta à qual bate em busca de trabalho e socorro e vê-se reduzida à mais miserável condição de pedinte.Seu bebê nasce nas mais aflitivas circunstâncias,e sob condições que percutem uma nota de puro horror--a infeliz vê o fruto de seu ventre ser estraçalhado por uma vara de porcos vorazes que o comem aos pedaços,enquanto ela,de olhos esgazeados e corpo abatido pelas dores do parto,inutilmente luta por socorro para salvar o filho.
Maria é acusada de infanticídio, e, dado que não houve testemunho idôneo, é colocada numa posição muito difícil. Além do mais, a comunidade de colonos em cuja cadeia ela se acha presa adota as medidas mais duras para mantê-la aí. Milkau, homem de coração aberto a todos os sofrimentos do universo, tem mais essa oportunidade de observar o desumano tratamento da mulher. Movido pela piedade consegue libertá-la da prisão e juntos fogem para uma jornada que termina no delírio da morte para ambos. A terra prometida transforma-se numa miragem—ao menos para o presente. E é sob o toque pungente dessa nota de indecisão que o livro chega ao fim.
Entre as qualidades dessa obra de Graça Aranha, devemos assinalar a beleza de seu estilo, suas descrições, a pureza da análise psicológica, a profundidade do pensamento e as reflexões que avultam por toda obra. Costuma-se dizer que a civilização moderna desenvolve-se mais livremente nas Américas do que na Europa, pois naquelas, ela não tem que vencer o obstáculo de uma sociedade mais velha, mais firmemente estabelecida, como se dá no caso da última.
Consideremos outro escritor como Joaquim Maria Machado de Assis. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, de pais pobres e conheceu muitas dificuldades no início de sua carreira. Cedo travou contato com os ambientes onde seus romances e contos se passariam.Relacionava-se com os maiores espíritos de sua época.Sílvio Romero e João Ribeiro,em seu “Compêndio de História da Literatura Brasileira”,consideram os escritos de seu primeiro período como de pouco valor.E Romero foi mais longe.Na polêmica que travou com Lafayette Rodrigues Pereira,Romero se torna duro com Machado de Assis:” 0 estilo de Machado de Assis não se distingue pelo colorido, pela força imaginativa da representação sensível, pela movimentação, pela abundância, ou pela variedade do vocabulário. Suas qualidades mais eminentes são a correção gramatical, a propriedade dos termos, a singeleza da forma. 0 período não lhe sai amplo, forte, vibrante, como em Alexandre Herculano; variegado, longo, cheio, como em Latino Coelho; imaginoso, fluente, cantante, como em Alencar; seguro, articulado, movimentado,como em Sales Torres Homem; terso e transparente, como em João Francisco Lisboa; abundante, corrente, colorido, marchetado, como em Rui Barbosa. Machado de Assis, como já ficou acidentalmente dito, não tem grande fantasia representativa, ou antes não possui quase essa faculdade.Em seus livros de prosa, como nos de versos, falta completamente a paisagem, falham as descrições, as cenas da natureza, tão abundantes em Alencar, e as da história e da vida humana, tão notáveis em Herculano e no próprio Eça de Queirós...O notável autor fluminense não tem personalidade,individualidade poderosa...Repisa,repete,torce,retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem,que deixa-nos a impressão dum perpétuo tartamudear...’Ele gagueja no estilo,na palavra escrita,como fazem outros na palavra falada’.
Já o julgamento de Veríssimo sobre Machado de Assis difere completamente do de Romero. Tanto pela importância de Machado de Assis para a literatura brasileira quanto pelo delicioso estilo crítico de Veríssimo, citarei suas palavras sobre o grande escritor:
“Com 'Várias Histórias’, o Sr. Machado de Assis publicou seus quinze volumes e sua quinta coleção de contos... Dizer que em nossa literatura Machado de Assis é uma figura destacada das demais, dizer que ele se situa com boa razão como primeiro entre os nossos escritores de ficção, que ele possui uma rara faculdade de assimilação e evolução que o coloca como escritor do segundo período da geração dos Românticos, sempre um contemporâneo, um moderno, sem com isto haver feito qualquer sacrifício à última moda literária ou copiado qualquer novíssima estética, acima de tudo conservando sua singular personalidade... não é nada senão repetir o que já se tem dito inúmeras vezes. Todos esses julgamentos são confirmados por seu último livro, no qual se notam a mesma impecável correção de linguagem, o mesmo firme domínio da forma, a mesma abundância, força e originalidade de pensamento que faz dele o único pensador entre nossos escritores de ficção, a mesma triste, amarga ironia...
“Neste autor mais de uma vez se justifica o conceito crítico de unidade da obra exibida pelos grandes escritores. Tudo que vemos neste seu último livro é praticamente o que já havíamos visto em suas primeiras produções; de fato, ele não mudou, quase não precisou desenvolver-se. Ele é o mais individual, o mais pessoal, o mais “ele próprio” de nossos escritores; todos os germens desta individualidade que atingiu o seu máximo de virtuosidade em “Braz Cubas”, em “Quincas Borbas”, nos “Papéis Avulsos” e em “Várias Histórias” já podem ser descobertos em seus primeiros poemas e em seus primeiros contos. Sua segunda fase, da qual estes livros são o melhor exemplo, é tão somente o desenvolvimento espontâneo, natural, lógico de sua primeira fase, ou por outra, é a primeira fase com menos do romantismo e mais de suas tendências críticas... A notável peculiaridade de Machado de Assis é ele ser, em nossa literatura, um artista e um filósofo. Até muito recentemente ele foi o único a responder por essa descrição. Os que vieram após ele procederam, consciente ou inconscientemente, à sua maneira, chegando alguns a imitá-lo mesmo. Em seu gênero, e creio não estar empregando termos indevidos, ele permanece sem par.
“’Iaiá Garcia’, como ‘Ressurreição’ e ‘Helena’, possui uma temática romântica, talvez o mais romântico escrito pelo autor. Não somente o mais romântico, mas talvez o mais emocional. Nos livros que se seguiram a ele, é fácil ver como a emoção é, pode dizer-se, sistematicamente reprimida pela triste ironia, pelo realismo de um homem desiludido”. Veríssimo vai ao ponto de assinalar que tais obras merecem ser comparadas com alguns livros mais humanos de Tolstoi. Mas isto só na superfície. ”Pois no fundo está a misantropia do autor. Uma misantropia amável, curiosa a respeito de tudo, interessada em tudo—o que é, em última análise, uma maneira de amar a humanidade sem estimá-la...
“A excelência com a qual o autor de ‘Iaiá Garcia’ escreve nossa língua é proverbial... A mais alta distinção do gênio de Machado de Assis na literatura brasileira é ele ser o único escritor verdadeiramente universal que possuímos”.

 

 

 

ISAAC GOLDBERG.
_Roxbury, Mass.


Resumo e Tradução de Carlos Rezende, extraído do seguinte livro em domínio público:
1) The Project Gutenberg EBook of Brazilian Tales, by Isaac Goldberg
18/01/2008
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