Conversações com Einstein - 1ª parte

Por Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br

Em 13 de outubro de 1910 um memorável evento tomou lugar na Berlin Scientific Association: Henri Poincare, o eminente físico e matemático francês, tinha sido anunciado que daria uma conferência nas acomodações do Urania Institut; uma audiência de escassas dimensões reuniu-se. Eu ainda o vejo em minha mente, um profundo estudioso no vigor de seu período criativo, um homem cuja aparência externa não sugeria a luz do gênio, e cujas barbas, cuidadosamente aparadas, lembravam antes as de um advogado praticante. Ele andava pela plataforma, acompanhando sua fala com gestos marcados por fácil elegância. Não havia qualquer sinal de tentativa de doutrinamento. Desenvolvia sua tese, apesar de fazê-lo em idioma estrangeiro, em termos prontos e fluentes.
Foi esta a conferência em que ouvi mencionarem o nome de Einstein pela primeira vez.
A conferência de Poincare era sobre a Nova Mecânica, e a intenção era nos tornar familiarizados com o início de uma tendência que,o próprio conferencista confessava,tinha violentamente perturbado o equilíbrio de seus pontos de vista fundamentais. Ele repetidamente quebrava o tom igual de sua voz de modo a indicar, com gestos enfáticos, que talvez tivéssemos chegado ao ponto crítico—melhor, a uma época que marcava uma nova era no pensamento.
“Talvez”, era a palavra que sempre usava para enfatizar. E ele persistentemente enfatizava suas dúvidas, diferenciava-as dos duros fatos e hipóteses, ainda atendo-se à esperança de que a nova doutrina que ele estava a nos expor admitisse uma larga avenida de volta às antigas idéias. Esta revolução,assim nos dizia,parecia ameaçar na ciência aquilo que há bem pouco se afigurava a todos como absolutamente certo, a saber, os teoremas fundamentais da mecânica clássica, para a qual tínhamos um débito com o gênio de Newton.
Einstein foi designado professor da Academia de Ciências com direito a uma conferência na Universidade de Berlim. Tal fato trouxe a meu desejo de conhecê-lo certa plausibilidade. Junto com um colega, escrevemos-lhe uma carta, solicitando-lhe nos honrasse com sua presença em uma noite informal instituída pela nossa Sociedade Literária no Hotel Bristol. Aceitou o convite, foi meu vizinho de mesa, e conversamos durante algumas horas. Nos dias que correm, sua figura é conhecida de todos através das inumeráveis fotos que têm aparecido nos jornais. Não lhe conhecia a fisionomia em época anterior a essa de que falo, e deixei-me absorver em lhe estudar as feições—as quais me impressionaram como sendo as de uma pessoa bondosa, artisticamente inclinada e não sendo, de modo algum, as de um professor. Numa conversa, parecia vivaz e não contido, ocasionando um efeito sobre nós da espécie mais deliciosa. Entretanto, havia momentos em que lembrava uma esfinge masculina, sugerida por sua testa altamente expressiva e enigmática. Mesmo agora, após um caloroso relacionamento que se distancia por tantos anos, não está em mim afastar essa impressão.Ela frequentemente me assalta em meio a uma conversa agradável intercalada de gracejos,enquanto se aprecia um cigarro após o chá;subitamente sinto uma misteriosa influência de um intelecto sutil que cativa e ainda desconcerta nossa mente.
A essa tempo,início de 1916,somente uns poucos membros da Sociedade Literária adivinhavam quem era aquele que gozava de sua hospitalidade.Aos olhos de Berlim,a estrela de Einstein estava a subir em seu curso,mas estava ainda demasiado próxima do horizonte para se tornar visível a todos.Minha visão,aguçada pela conferência do cientista francês e por um meu amigo que era físico,antecipara os eventos,e já vira a estrela de Einstein em seu zênite.Tinha o instintivo sentimento de que estava próximo a Galileu,quando finalmente nos encontramos.
Noite adentro, nós três sentávamos-nos em um Café enquanto Einstein gentilmente erguia o véu de sua mais recente descoberta a bem de meu amigo jornalista e de mim próprio.Compreendemos, a partir de suas observações, que a Teoria Especial da Relatividade formava o prelúdio de uma teoria geral que incluía o problema da gravitação em seu mais amplo sentido e também o da constituição do mundo.Interessava-me,é evidente,afora este tema,somente tocado por alto,pela questão em seu aspecto psicológico.
“Professor”, disse eu, ”tais investigações devem envolver enorme excitação mental. Imagino que por detrás de cada problema resolvido deve esconder-se outro, de aspecto ameaçador ou fascinante, para cada caso, cada qual dando nascimento a um tumulto de emoção em seu autor. Como o senhor procede para dominar tal dificuldade? O senhor não é continuamente atormentado por pensamentos que vêm e vão, que bulhentamente invadem seus sonhos?”
O próprio tom no qual a resposta foi dada mostrava claramente quão livre ele se sentia de tais problemas nervosos que usualmente oprimem mesmo o pensador mais medíocre. ”Eu me desligo quando o desejo”, disse ele, ”e afasto todas as dificuldades quando a hora do sono chega. Pensar durante os sonhos, como no caso de artistas como poetas e compositores, é-me totalmente estranho. Não obstante, devo confessar que no início,quando a teoria especial da relatividade começou a germinar dentro de mim,eu era visitado por toda sorte de conflitos nervosos. Quando jovem, costumava sentir-me durante semanas em um estado de confusão, como alguém que tinha de superar um estado de estupefação em seu primeiro encontro com questões que a mim se impuseram. As coisas mudaram desde então, e hoje posso lhe assegurar que não é necessário se preocupar com o meu descanso.”
“Entretanto”, eu disse, ”podem surgir casos em que certo resultado deve ser verificado pela observação e experimento. Isto poderia causar facilmente dissabores. Se, por exemplo, a teoria leva a um cálculo que não bate com a realidade, o seu proponente certamente irá se sentir aborrecido com essa mera possibilidade. Tomemos um evento particular. Ouvi que o senhor tinha feito um novo cálculo da trajetória do planeta Mercúrio com base em sua teoria. Soube que foi bastante laboriosa. Mas o senhor estava firmemente convencido da teoria, talvez só o senhor. E se um experimento invalidar sua teoria?”
“Tais questões”, disse Einstein, ”não estão em meu caminho. O resultado a que cheguei não pode estar senão correto. Preocupei-me tão somente em o por numa forma lúcida. Não duvidei sequer por um segundo de que meu cálculo estaria de acordo com a observação. Neste caso, nunca surgiu a questão de me por preocupado. Não havia razão para tal.

Nota do Autor: A gravação destas conversas começou no verão de 1919 e se completou no outono de 1920.

Resumo e Tradução de Carlos Rezende, do seguinte livro em domínio público:
http://www.archive.org/details/gutenberg: Einstein, the searcher: his work explained from dialogues with Einstein - Moszkowski, Alexander, 1851-1934.
23/07/2008


 

 



 

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