Por Carlos Rezendea
cev.rezende@uol.com.br
Para
as gerações de humanos que lentamente se erguiam
do negro abismo do tempo ao crepúsculo da Idade Média,
a satisfação do instinto sexual oferecia menos dificuldades
do que a de qualquer outra necessidade ou desejo. Para cada espontânea
e rápida indulgência em relação ao
desejo, ele desaparecia da consciência e deixava o indivíduo
livre para orientar sua mente na consecução de necessidades
vitais muito mais difíceis. O homem primitivo, o homem
pré-histórico vivia no fugaz presente.
Quando havia plenitude de comida, ele se empanturrava, esquecendo-se
da fome que o poderia matar dias depois. Seu pensamento carecia
de amplidão e continuidade. Nunca lhe ocorria que pudesse
existir alguma conexão entre uma abrupta e rapidamente
esquecida união sexual e o parto de uma criança
por uma mulher da tribo, depois de um imensurável lapso
de tempo. Suspeitava bruxaria por trás do fenômeno
da gravidez. Via de regra lembrava-se que certa mulher tinha parido
certa criança pelo fato de ela carregá-la para onde
quer que fosse e alimentá-la em seu peito. Ocasionalmente
esquecia a que mãe pertencia uma criança; talvez
a mãe tivesse morrido; talvez a criança tivesse
se desgarrado dos limites da comunidade e a mãe não
a reconhecesse mais quando de seu retorno. No entanto, estava
claro para além de qualquer dúvida que toda criança
tinha uma “mãe”, mas o conceito de “pai”
não tinha ainda se formado. A experiência ensinara
a nossos ancestrais dois fatos irrecusáveis, a saber, ”que
mulheres pariam crianças” e “que toda criança
tinha uma mãe”.
Forçoso
é admitir que todo coito era irregular e ocasional até
o alvorecer da nossa história.Toda mulher—dentro
dos limites de sua tribo, provavelmente—pertencia a qualquer
homem.Quer essa suposição seja universalmente aplicável
ou não, permanecerá duvidoso; etnologistas a negam
porque ela não se aplica a toda tribo selvagem contemporânea.Heródoto
nos diz que a promiscuidade sexual existiu nos tempos históricos
em países tão afastados uns dos outros como a Etiópia
o estava das bordas do Mar Cáspio.Não pode haver
qualquer dúvida razoável de que as relações
sexuais tomaram a forma de casamentos grupais, a troca ou empréstimo
de esposas e outros arranjos similares sendo a norma.
A relação entre mãe e filho estando estabelecida
pela própria natureza, as primeiras famílias humanas
congregavam-se em torno da mãe, reconhecendo nela uma chefe
natural, e assim foi mesmo depois que a conexão causal
entre geração e nascimento deixou de ser um mistério.Em
todos os países do mediterrâneo, mais especialmente
na Lícia, em Creta e no Egito, a predominância do
elemento feminino no Estado e na família está bem
documentada, e reflete-se nas religiões naturais das raças
do Oriente—tanto semíticas quanto arianas—e
encontramos inumeráveis traços dela na mitologia
grega.O mérito da descoberta deste importante estágio
na relação entre os sexos deve-se a Bachofen.”Baseada
na maternidade que confere vida”, diz ele, “a ginecocracia
estava completamente dominada pelos princípios e fenômenos
naturais que regem o interior e o exterior da vida; ela vividamente
compreendia a unidade da natureza, a harmonia do universo que
ainda não fora superada... Em cada aspecto obedecendo às
leis da existência física,seu olhar intenso estava
fixado sobre a terra”.Os filhos dos homens que tinham florescido
de dentro de suas mães tal como as flores rebentam do solo
na primavera, ergueram altares para Gaia, Deméter e Ísis,
as deidades das inexauríveis fertilidade e abundância.Essas
primeiras raças de homens consideravam a si próprias
tão somente partes da natureza.
Nos
países mediterrâneos (assim como na Índia
e Babilônia), o primeiro estágio do ato sexual, irresponsável
e promíscuo, foi sistematizado pela religião. Os
festivais anuais da primavera em honra de Adônis, Dioniso,
Astartéia e Afrodite celebravam a licenciosidade irrefreável.
A comunidade inteira saudava o reviver da vitalidade da terra
por um abandono incontido à paixão. O homem aspirava
tornar-se nada mais que a flor que espalha suas sementes ao vento.
A completa união das qualidades masculina e feminina foi
solenizada nas Orgias, e não por quaisquer meios de relação
entre o indivíduo masculino com o indivíduo feminino.
Diante da majestade do culto ao sexo nas vagas, indecisas mães
da humanidade, Réa, Deméter, Cibele, e seus filhos
humanos, o fálico Dioniso e a deusa de cem seios, Efesus—o
indivíduo, com suas lastimáveis limitações,
encolhia-se à sua insignificância. O sexo era imortal,
o sexo e a matéria primária, o grego ulê,
contrastado por Aristóteles com o eisos, a forma. ”O
princípio feminino é a mãe do corpo, mas
a mãe do espírito é o princípio masculino”.
A substância daqueles antigos cultos era o nascimento e
a morte, o que não tinha sentido, o que não tinha
propósito, aparentemente sem razão; o seu sacramento,
a perpétua união dos sexos. Entre as sucessivas
gerações não havia senão um único
laço que as prendia, o vínculo natural da maternidade.
Foi a primeira ligação compreendida pela humanidade,
uma ligação que não era sentida como uma
relação concreta entre dois indivíduos,mas
como uma força geral,maternal,uma força natural.As
divindades que representavam as “mães”,deidades
incorpóreas e eternas,entronizadas fora do tempo e espaço,e
portanto doadoras imortais da vida e preservadoras da humanidade.Diante
de sua silente grandeza, o desejo do homem de saber a sua origem
e destino, de ganhar forma e individualidade, tornou-se blasfêmia.Elas
tinham dado imortalidade ao sexo, mas sobre a individualidade
tinham posto a maldição da morte.
Desse modo, temos primeiro um estágio do ilegítimo,
do sem pai, da concepção natural, correspondendo
às teorias filosóficas que sustentavam que todas
as coisas criadas tinham emanado dos elementos. Eras posteriores
descobriram o princípio espiritual, e finalmente o conflito
entre espírito e matéria.
Mas a atitude geral em relação ao ato sexual conheceu
uma mudança tão logo apareceram aqui e ali indivíduos
que estavam cônscios de sua individualidade. A seleção
natural não poderia exercer-se numa comunidade cujos membros
se assemelhavam tanto uns aos outros que todas as características
pessoais estavam apagadas numa monotonia geral. Uma mulher era
tão boa quanto outra, embora, com toda a probabilidade,
uma que fosse saudável, jovem e forte fosse preferível
a uma doente, franzina.Obviamente o sentimento de preferência
não poderia nascer senão quando os indivíduos
começassem a exibir traços diferenciais bastante
salientes.Portanto, com a crescente diferenciação,
um novo fator, o fator da escolha, passou a fazer parte da vida
sexual.O lento desenvolvimento da personalidade deu nascimento
ao sentimento de rebelião contra os atos sexuais promíscuos,
universais e a ginecocracia geral.Os homens desejavam dar forma
a seu mundo.
Os semideuses, os filhos dos deuses da luz e das mães mortais,
estavam destinados a salvar o homem da existência confusa,
caótica, com a introdução de novas condições
de vida, não mais baseadas nos ditames da natureza e sim
no poder moldador do homem. ”Hércules, Teseu e Perseu
destronaram os antigos poderes das trevas. Assentaram as fundações
das grandes conquistas do homem, espelhadas na nascente civilização,
e foram os primeiros a venerar os deuses da luz. Resgataram a
humanidade do vil materialismo; eles a despertaram para a vida
espiritual, que é uma vida mais elevada que a dos sentidos”.
(Bachofen)
Uma longa estrada, marcada por numerosos compromissos e limitações,
foi aquela que nos conduziu do sexo casual para o estabelecimento
final do sistema monogâmico.
Com o desenvolvimento da civilização e o alvorecer
da personalidade, lentamente imiscuiu-se na mente dos homens um
desgosto por essa sexualidade irregular, e nasceu o desejo por
um menos caótico estado de coisas. Essa aspiração
e o desejo de herdeiros legítimos sobrepujaram a promiscuidade
e, na Grécia, levou ao estabelecimento do sistema monogâmico.
Não se deve pensar, entretanto, que o ideal grego de casamento
tivesse alguma semelhança com o nosso conceito moderno.
Certamente a esposa ocupava nele uma posição honrosa
como guardiã do coração e das crianças
e era tratada pelo seu marido com afeto e respeito, mas ela não
era livre. Nem se esperava que o marido lhe fosse fiel. O casamento
de modo algum restringia a liberdade do homem, mas deixava-o livre
para buscar estímulo intelectual entre a sociedade das
heteras, as cortesãs da época, e mera satisfação
dos sentidos na companhia de escravas. O amor tal qual o conhecemos
hoje não existia entre os antigos, e embora haja um moderno
resquício dele na fidelidade de Penélope e no amor
que uniu Orfeu e Eurídice, no entanto, tais exemplos devem
antes ser considerados como intuições poéticas
de um sentimento do futuro estágio do amor do que fatos
que então se enquadrassem no contexto daquela época.
Mesmo Platão, no qual culminaram toda a sabedoria e cultura
pré-cristã, era ainda, a este respeito, um cidadão
do mundo antigo, pois ele, também, nada conhecia do amor
espiritual do homem pela mulher. O amor de um indivíduo
nada mais era que o começo, a estrada que conduzia ao amor
pela beleza perfeita e pelas idéias eternas.
No limiar do segundo estágio da vida erótica estava
o Cristianismo, o qual, em agudo contraste com a antiguidade e
com o período clássico, procurou o centro e clímax
da vida na alma. O fundador da “religião do amor”
descobriu o indivíduo, e, em assim fazendo, lançou
as bases do amor metafísico, que encontrou sua mais notável
expressão na deificação da mulher e no culto
da Virgem Maria.
A vivificante influência dos ensinamentos e da personalidade
do Cristo foi sufocada depois dos primeiros séculos da
era cristã pelo rígido dogma e o formalismo que
alterou sua doutrina a ponto de quase torná-la irreconhecível.
A Igreja estava construindo sua estrutura política e não
tolerava rival. Arte, literatura, música, todo entusiasmo
e profundo pensamento de que a mente humana era capaz foi compelido
a se por ao serviço da Igreja. Pensamento independente
era heresia, e a morte de cada herético se tornava mais
um grilhão que atava o intelecto do homem. Mas, por volta
do ano de 1100,quando o poderoso edifício ficou completo,e
os papas e seus bispos olhavam com desdém para reis e imperadores,
e os consideravam seus vassalos,quando os povos bárbaros
que formavam a população da Europa tinham já
se instruído o suficiente para poderem olhar em nova direção,uma
aspiração por algo de novo, uma ânsia por
arte, por poesia, por beleza, começou a alvoroçar
os corações de homens e mulheres. Isso encontrou
expressão no ideal da cavalaria, do Santo Sepulcro e do
Santo Graal, e de repente o amor explodiu em uma brilhante flama,
projetando sua radiância sobre a sórdida relação
até então existente entre os sexos, transfigurando-os.
A mulher, a desprezada, a quem o Concílio de Macon negava
uma alma, de repente se transformou em rainha, em deusa. A esposa
que mourejava nos labores caseiros, que pacientemente sofria,
passou a ser coisa do passado. Um novo ideal entrara na ordem
do dia e as mulheres eram veneradas pelos homens, de joelhos dobrados.
O poeta e cavaleiro Guinicelli cantava:
“Ela brilha para mim como Deus brilha para seus anjos”
Isto
se deu em uma pequena província do sul da França,
em Provence. Foi aí que o novo espírito nasceu.
Os trovadores, que perambulavam de um castelo para outro, entoavam
os seus louvores ao amor, ao genuíno amor, que não
se misturava com especulação ou metafísica.
O dogma desse puro amor era sua própria recompensa, na
medida em que tornava os homens perfeitos.
“Não posso pecar enquanto estiver na mente de minha
amada”,
Escrevia Guirot Riquier, e Dante, em sua “Vita Nuova”,
chama sua amada e senhora de “a destruidora de todo mal
e a rainha de todas as virtudes”. O monge Matfre Ermengau,
que escreveu um tratado sobre o amor, proclama:
O amor torna o homem bom melhor,
E ao pior torna bom.
Trovadores posteriores traçaram uma aguda distinção
entre o amor espiritual e o amor sensual. O último era
considerado uma forma degradada, vil (ao menos em princípio)
e ai daquele homem que o sustentasse, ou, por outra, confessasse
outra crença. Seu prêmio seria o desdém de
todo homem e mulher cultos. ”Nada mais rogo de minha amada
senão que ela me tolere em seu serviço”, exclamava
Bernart de Ventadour.
Não é preciso dizer que, a despeito de todo este
elevado ideal, a sensualidade florescia, e um trovador que em
altos brados entoasse elogios à castidade e rudemente professasse
seu completo desinteresse ao serviço de sua amada, não
via ao menos como inconseqüência estar ele ao mesmo
tempo conduzindo dezenas de casos amorosos com outras mulheres.
Sordello, um dos mais conhecidos poetas deste período,
foi acusado por um seu contemporâneo de trocar sua amada
para mais de uma centena de vezes, e ele próprio, gabava-se
impudentemente:
Nenhuma
pode me resistir; todos esses esposos de carantonhas franzidas,
Não me impedirão de abraçar suas esposas,
Caso eu assim o queira...
Outro poeta, o Conde Rambaut III, de Orange, recomendava a seus
pares, como sendo o melhor meio de conquistar os favores de uma
mulher, ”quebrar seu nariz com um golpe dos punhos”.
“Eu próprio”, continuava ele, ”trato
todas as mulheres com ternura e cortesia, mas assim fazendo—sou
considerado um tolo”.
Como era de se esperar, o amor metafísico sublimado tinha
os seus tipos caricatos e excêntricos. Uma das figuras mais
grotescas deste período dos trovadores era Ulrich Von Lichtenstein,
um cavaleiro germânico. Contam que, na condição
de acompanhante, bebia a água em que sua amada acabara
de lavar as mãos. Mais tarde mandou amputar seu lábio
superior porque ele não agradava à sua senhora,
e em outra ocasião decepou um de seus dedos, mandou que
o fixassem numa moldura de ouro, de modo a servir como uma espécie
de marcador de página de um de seus volumes de poemas,
que enviou como presente à sua amada.
Nas
famosas Cortes de Amor as questões mais extraordinárias
eram seriamente discutidas e decididas. O tópico favorito
dos debates era a relação entre amor e casamento,
e um dos veredictos que chegou até nós prova sem
nenhuma dúvida possível que aqueles dois fatores
da vida emocional eram tidos por mutuamente excludentes. Na Corte
da Viscondessa Ermengarde de Narbonne, a questão sobre
se o amor entre amantes era maior do que o amor entre marido e
esposa foi decidido da seguinte maneira: ”A natureza e a
tradição erigiram uma barreira intransponível
entre o afeto conjugal e o amor que une dois amantes. Seria, portanto,
absurdo extrair comparações entre coisas que não
tinham nem semelhança nem ligação”.
O contraste entre o novo amor espiritualizado e o mais antigo,
sexual e instintivo, originou aquele dualismo tão característico
de todo o período medieval. Sexualidade e amor eram sentidos
como duas forças inimigas, a fusão dos quais estando
além de todo domínio da possibilidade. Enquanto
que, por um lado, a mulher era venerada como um ser divino diante
do qual todo desejo devia ser silenciado, por outro, ela foi estigmatizada
como um instrumento do diabo, uma potência que afastava
os homens de sua alta missão e punha em risco a salvação
de suas almas. Wagner retratou este dualismo com perfeição
em sua ópera Tannhäuser. Um homem da Idade Média
reconheceria nesta magnífica obra a tragédia de
sua alma.
Daí, da adoração de sua amada senhora, para
o culto da Virgem Maria foi apenas um passo. A Igreja, hostil
a princípio, finalmente deu a sua aquiescência, e
“através de seu reconhecimento oficial de uma deidade
feminina, a franca inimizade entre a religião da Igreja
e a religião da mulher foi evitada”. Uma mulher,
a saber, a própria Virgem Maria, tinha se interposto entre
Deus e a Humanidade como mediadora, intercessora e salvadora.
Tanto Dante, o inspirado adorador da mulher na Idade Média,
quanto o mais moderno, Goethe, viram no amor metafísico
o triunfo sobre todas as coisas terrenas. E muito acima desses
dois heróis intelectuais agiganta-se a imponente figura
de Michelangelo, o escarnecedor, para quem o amor veio tarde na
vida; em sua extática adoração de Vittoria
Colonna, o entusiasmo de Platão e a paixão de Dante
se fundiam em uma chama transcendental.
Os
Místicos Sexuais e as Noivas de Cristo apresentam o aspecto
mais negro do amor metafísico. Todas as últimas,
incluindo Santa Catarina de Siena (a inteligente religiosa que
manteve correspondência com os estadistas líderes
de seu tempo), Maria de Oignies, e Santa Teresa, são estigmatizadas
como vítimas de histeria e consignadas ao domínio
do patológico.
Nos começos do século doze, uma nova emoção
sem precedentes—o amor espiritual do homem pela mulher,
baseado na personalidade—surgiu. E só na segunda
metade do século dezoito, esse amor ganhou mais força
e determinação, uma tendência em procurar
toda emoção erótica na personalidade do amante,
uma ânsia em não mais dissociar o impulso sexual
do amor espiritual, fundindo-os num todo harmonioso. A personalidade
tecia juntos corpo e alma numa síntese mais elevada; e
foram os românticos (encontramos já traços
dela nas obras de Rousseau e no Werther, de Goethe) que a desenvolveram,
e são eles os representantes e quase “inventores”
da forma típica do amor moderno, com todos os seus defeitos,
mas também com suas inexauríveis possibilidades.
Mas essa tão almejada unidade, essa vitória da personalidade
diante das limitações de corpo e alma, é
o ápice dos tempos modernos. O que virá além
deste ponto, não sabemos—tudo jaz no terreno da mera
especulação.
Resumo
e Tradução de Carlos Rezende, extraído do
seguinte livro em domínio público:
1) The Project Gutenberg Ebook of The Evolution of Love, by Emil
Lucka
10/12/2007.
This ebook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away
or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License
included with this eBook or on-line at www.gutenberg.org

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