Galileu e a Nova Física - 1ª parte.

Por Carlos Rezende
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Início de Carreira


Enquanto Kepler estava resolvendo os enigmas do movimento planetário, havia um homem ainda mais famoso na Itália, o qual estava destinado a dar a maior publicidade possível ao sistema copernicano e às novas idéias derivadas dele. Este homem chamava-se Galileu Galilei, um dos mais extraordinários observadores científicos de qualquer época. Galileu nasceu em Pisa, Itália, aos 18 dias de fevereiro, pelo antigo calendário, e a 15 de fevereiro de 1564, pelo novo, o gregoriano. O dia de seu nascimento é duplamente memorável, uma vez que no mesmo dia o maior italiano da época precedente, Michelangelo, deu seu último suspiro. Indivíduos para quem é caro o simbolismo viram na coincidência um prenúncio do trânsito de uma época artística para outra científica. Galileu veio de uma família nobre empobrecida. Foi educado para seguir a profissão de médico. Entretanto, não foi adiante, já que suas tendências o impulsionavam para as ciências físicas. Encontrando oposição em Pisa, aceitou a cadeira de filosofia natural na Universidade de Pádua, e mais tarde fez de Florença seu domicílio.

Contribuições para a Astronomia

O próprio Galileu registra numa carta a Kepler que ele se tornara um converso de sua teoria desde o primeiro momento. Ele não foi capaz, porém, de fazer qualquer contribuição marcante no ramo até o ano de 1610. As suas notáveis contribuições foram devidas, em grande parte, à descoberta do telescópio. Antes dele, as observações astronômicas tinham sido feitas a olho nu. As lentes já eram conhecidas desde o século 13, mas, até então, ninguém havia pensado no possível uso delas como auxiliares para a visão de objetos distantes. A questão de prioridade da descoberta nunca ficou bem estabelecida. Admite-se, contudo, que as honras maiores pertencem aos ópticos da Holanda.
Já em 1590 o óptico holandês Zacharias Jensen colocou lentes côncava e convexa respectivamente nas extremidades de um tubo de cerca de 50 centímetros, e usou este instrumento para o propósito de aumentar objetos pequenos—produzindo, em resumo, um microscópio grosseiro. Alguns anos mais tarde, Johannes Lippershey, de quem pouco se sabe a não ser que morreu em 1619, fez experiências com uma combinação similar de lentes, e obteve a impressionante observação de um cata-vento na torre de uma distante igreja, o qual ele o viu bem próximo de seus olhos. A combinação de lentes empregada por ele é a mesma usada ainda hoje nos hipódromos. Sem dúvida, um grande número de experimentadores o adotaram e a fama do instrumento espalhou-se rapidamente por muitos países. Galileu, na Itália, ouviu rumores desta notável invenção, através de cujo uso, dizia-se, ”os objetos distantes poderiam ser vistos tão claramente como se os tivéssemos em nossas mãos”. Imediatamente, Galileu pôs-se a trabalhar e construiu para si mesmo um instrumento similar, aperfeiçoando-o tanto ao ponto de aumentar mil vezes os objetos. Naturalmente que ele o direcionou para os céus e foi quase imediatamente recompensado com a visão de várias e impressionantes descobertas. Seu instrumento devassou um vasto número de estrelas que eram invisíveis a olho nu e permitiu-lhe ainda concluir que a luz nebulosa da Via Láctea era devida à agregação de um número prodigioso de minúsculas estrelas.

Observações sobre a Lua

Voltando seu telescópio para a Lua, Galileu viu que esse corpo celeste era áspero e de contornos semelhantes aos da Terra. Tinha a superfície coberta de montanhas, as quais pôde o astrônomo medir aproximadamente pelo estudo das sombras que elas projetavam. Isso era desconcertante porque a doutrina aristotélica então corrente dava a Lua, em comum com os planetas, como sendo perfeitamente esférica e sua superfície lisa. A idéia metafísica de um universo perfeito seria destruída por essa aparentemente grosseira imagem da Lua. Mas até aqui, nada havia nas observações de Galileu que se apoiasse na teoria copernicana; porém, quando ele inspecionou os planetas tudo se tornou diferente. Com a ajuda de seu telescópio viu que Vênus, por exemplo, passa por fases precisamente similares às da Lua, devidas, é claro, à mesma causa. Aqui, então, estava uma evidência demonstrativa de que os planetas são corpos mais escuros que refletem a luz do Sol, de que os planetas interiores não são mais brilhantes quando mais próximos da Terra e menos brilhantes quando em suas posições orbitais mais afastadas dela. E a explicação de tudo vinha quando eles estavam entre a Terra e o Sol, ocasião em que apenas uma pequena porção de sua superfície iluminada era visível da Terra. Portanto, essa iluminação só podia vir do Sol e não da Terra, o que também demonstrava que o Sol só podia estar na posição em que Copérnico o pusera, isto é, central em relação a todos os planetas.

Observações sobre Júpiter

Ao inspecionar Júpiter uma revelação ainda mais surpreendente foi feita: quatro minúsculas estrelas eram visíveis na altura da posição equatorial mais próxima ao planeta, e eram vistas, noite após noite, a girar em torno dele precisamente como a Lua órbita a Terra. Aqui, obviamente, estava uma miniatura do sistema solar—uma “tangível” lição prática da teoria copernicana. Em honra à família de banqueiros que governava os destinos de Florença, Galileu chamou as luas de Júpiter de estrelas de Médicis.

 

 

Observações sobre o Sol

Voltando sua atenção para o próprio Sol, Galileu observou sobre a superfície dele uma mancha ou cicatriz que gradualmente mudava sua forma, sugerindo que mudanças ocorriam na substância que formava a estrela—mudanças obviamente incompatíveis com a condição de perfeição exigida pela metafísica dos teóricos. Inquietantes embora para as mentes conservadoras, essas manchas solares serviram para um propósito muito mais útil, qual seja, permitiram que Galileu demonstrasse que mesmo o Sol girava em seu eixo, uma vez que uma determinada mancha era vista passar através do seu disco, desaparecer e tornar a aparecer em seu devido curso. O período de rotação do Sol foi assim calculado como sendo de mais ou menos 24 horas.

Devemos mencionar que vários observadores disputaram a prioridade da descoberta das manchas solares com Galileu. Sem dúvida que essas manchas tinham sido vistas por observadores independentes, mas esses as tomavam como o trânsito de um planeta interior. Kepler havia cometido esse engano. Antes do advento do telescópio, ele via a imagem do Sol lançada sobre a tela de uma câmara escura, e tinha observado uma mancha no disco, a qual ele interpretava como representando a trajetória do planeta Mercúrio. Sabemos agora que só podia ser uma mancha solar, já que o disco planetário era demasiado pequeno para ser revelado por este método. Entretanto, não se pode fechar a questão de precedência da descoberta, sendo mesmo possível que um jesuíta chamado Scheiner, roído de inveja, haja contribuído para a perseguição sofrida por Galileu.

Resumo e Tradução de Carlos Rezende, do seguinte livro em domínio público:

1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 2, by Williams #2 in our series by Henry Smith Williams.
04/05/2008.
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