Galileu e a Nova Física - Final.

Por Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br



Antecedentes da Inquisição

Dificilmente haverá incidente mais famoso na história da ciência do que o julgamento por heresia, no qual Galileu foi levado a nominalmente renunciar às suas mais caras doutrinas. Talvez não haja outro que tenha sido comentado de tantas maneiras diversas. Cada geração que sucede apresenta sua própria interpretação do caso. Parece que foi pelo ano de 1616 que a Igreja finalmente acordou para as implicações da doutrina heliocêntrica do universo. Aparentemente, pareceu claro para as autoridades da Igreja que os autores da Bíblia acreditavam que o mundo estava inquestionavelmente fixo no centro do universo. Tal, de fato, parecia ser a inferência natural quando eram examinadas várias passagens familiares do texto em hebraico, e o que conhecemos agora do status da ciência oriental na antiguidade nos dá plena garantia para essa interpretação. Não há razão para supor que a concepção de um lugar subordinado para nosso mundo no sistema solar tivesse, ainda que remotamente, mesmo como vaga especulação, ocorrido aos autores do livro do Gênesis. Acreditava-se que a Terra fosse o que de mais importante havia no universo, e o Sol constituísse nada mais que uma luminária acesa nos céus com o único propósito de iluminá-la. O que é estranho e anômalo é o fato de os sonhos orientais deste modo expressados pudessem representar o acme do conhecimento científico. Contudo, tal era o vigor que estes escritos tinham sobre o mundo ocidental, que nem mesmo Galileu ousou contradizê-los abertamente;e quando os Padres da Igreja declararam que a teoria heliocêntrica era necessariamente falsa porque estava em contradição com as Sagradas Escrituras,houve poucos indivíduos na cristandade cuja atitude mental lhes permitisse apreciar o estado de espírito por trás de tal pronunciamento.O filósofo,astrônomo e matemático Giordano Bruno,cujo temperamento era mais radical do que o de Galileu,foi um verdadeiro mártir da liberdade de pensamento,tenaz,rebelde e ardoroso na defesa de suas crenças,preferiu ser queimado em fogueira pública erigida no Campo di Fiori,em Roma, no dia 17 de fevereiro do ano de 1600.Em sua agonia,”virou o rosto de um crucifixo que lhe apresentavam,sem dizer uma única palavra”,serviu para refrear o entusiasmo de outros mestres menos timoratos.As teorias de Bruno anteciparam a ciência moderna.Postulava ele um universo infinito,a multiplicidade de mundos iguais ao nosso,e intuitivamente afirmava o heliocentrismo antes mesmo de Copérnico.

Tais considerações explicam, sem dúvida, o relativo silêncio dos defensores da teoria copernicana, justificando o de outro modo bizarro fato de cerca de oitenta anos se passarem após a morte de Copérnico e nenhum texto ter sido publicado expondo sua teoria, com exceção, é claro, do de Kepler. Mas este cientista estava, por assim dizer, protegido do papa, uma vez que vivia em um país protestante. Não que os protestantes da época favorecessem a teoria heliocêntrica, mas, de qualquer modo, era uma característica do temperamento reformista opor-se a qualquer pronunciamento papal. Seja como for, a obra de Kepler não o pôs em conflito direto com as autoridades. Já o resultado foi bem diferente quando,em 1632,Galileu por fim quebrou seu silêncio e deu ao mundo, um tanto disfarçado na forma de diálogo, uma elaborada exposição da teoria copernicana. Galileu, é preciso que se explique,fora previamente avisado para manter-se em silêncio;por conseguinte,quando a publicou em livro,ofendeu duplamente as autoridades.

Para sermos exatos, ele poderia replicar que seu diálogo introduzia um defensor do sistema de Ptolomeu a disputar com um opositor o novo ponto de vista, e assim, ambos apresentando suas opiniões com igual exibição de riqueza argumentativa, ao leitor seria deixado o veredito da questão; e o autor, em momento algum, formalmente expressaria sua opinião. Mas tal não se deu. Quem lesse o diálogo, não teria qualquer dúvida sobre qual era o partido do autor. Além do mais, o personagem que defendia a doutrina ptolomáica tinha por nome Simplicio, era vencido em toda linha de argumentação e ainda por cima parecia estar representando o próprio papa. Já o personagem Salviati, o campeão da nova teoria, era vigoroso em suas investidas argumentativas.

Comparece ao tribunal da Inquisição

A obra teve ampla aceitação, e foi recebida com um interesse que evidencia a força latente da crença nas idéias de Copérnico. Naturalmente também atraiu a imediata atenção das autoridades da Igreja. Galileu foi intimado a comparecer em Roma para defender sua conduta, e o teor de uma carta sua endereçada a um aluno de nome Benedetto Castelli, e que fora interceptada. Nela ele discorria sobre o problema de conciliar certas passagens bíblicas com a teoria copernicana. O cientista, que estava já na casa dos setenta, alegou estar doente e velho. Não tinha o menor desejo de encarar a Inquisição. Entretanto, a ordem partida da Igreja foi repetida, e Galileu teve, assim, que viajar até Roma. Nesta cidade, como é sabido, ele repudiou qualquer intenção de contrariar os ensinamentos bíblicos, e formalmente renunciou a ensinar a doutrina herética dos movimentos da Terra. De acordo com uma lenda, ele teria sussurado, logo depois de abjurar suas crenças: “Mas ela {a Terra} se move”.
Aceita pela Igreja sua retratação, Galileu deixa Roma com a imposição de se abster no futuro de qualquer ensinamento herético.

Retoma os estudos de Mecânica

Galileu ocupou-se principalmente com a mecânica--ciência na qual suas experiências,quando muito,poderiam contrariar as idéias de Aristóteles, mas dificilmente os ensinamentos bíblicos.
Suas descobertas eram o produto de seu próprio gênio inventivo. Em retrospectiva, vamos observá-lo no início de sua carreira. Quando jovem, embora professor de matemática em Pisa, já começara seus ataques às velhas idéias aristotélicas. Na famosa Torre Inclinada de Pisa, o cientista, no ano de 1590, fêz a mais dramática demonstração na história da ciência. Reunindo um grupo de partidários das idéias antigas, propusera-se demonstrar a falsidade da doutrina de Aristóteles, o qual afirmava que a velocidade dos corpos em queda livre é proporcional ao peso dos objetos. Não há talvez fato mais ilustrativo do temperamento geral predominante na Idade Média do que a doutrina do filósofo grego nunca haver encontrado oposição. Agora, contudo, ela vai ser testada. Pois então Galileu deixou cair ao mesmo tempo, de um mesmo ponto, e em queda livre, um peso de meia libra e outro de 100 libras quase do topo da torre, e os dois atingiram o chão juntos, comprovando que a aceleração de ambos era a mesma. Os espectadores evidentemente não gostaram do que viram, muito embora não pudessem duvidar da evidência de seus sentidos; mesmo assim, alguns declararam que a experiência violava as leis da natureza através da prática da magia. Assim, o jovem Galileu, ao invés de ser aplaudido, foi vaiado, tendo que abandonar Pisa. Mas seu experimento levou um cientista deste século a dizer: ”Seu impacto soou como o toque de finados da autoridade pela fama, em Física”.

Contudo, afortunadamente, o novo espírito de progresso tinha vingado em certas partes da Itália. Deste modo, o cientista estabeleceu-se em Florença.

Certos experimentos seus já lhe tinham granjeado autoridade entre seus contemporâneos, os quais transmitiram seu nome para a posteridade como um dos maiores experimentadores e o virtual fundador da moderna mecânica. Os experimentos em questão cobriam um largo campo; a maioria versava sobre os corpos em movimento e sobre a força, ou, como diríamos hoje, sobre energia. O experimento na Torre Inclinada, por exemplo, mostrou que a velocidade dos corpos em queda livre é independente do peso dos corpos, desde que o peso seja suficiente para superar a resistência da atmosfera. Posteriormente, Galileu veio a descobrir as leis a respeito da aceleração da velocidade de queda. Tais velocidades guardavam uma relação simples com o período de tempo do começo ao fim da queda. Galileu observou que uma esfera rolando por um plano inclinado percorria uma distância 4 vêzes maior em 2 segundos do que em 1 segundo. Ele assim provou que a distância percorrida a partir do repouso variava com o quadrado do tempo. Ele mostrou ainda que a velocidade da bola ao fim de 2 segundos era o dobro da velocidade ao fim de 1 segundo, de modo que a velocidade variava proporcionalmente com o tempo. Em outros termos, a aceleração da bola era constante. Quando aumentou cada vez mais a inclinação do plano, a aceleração da bola se tornou cada vez maior. Ele raciocinou que se a bola caísse verticalmente, sua aceleração seria de 9,8 metros por segundo por segundo.

Outras observações foram feitas tomando-se as balas disparadas de canhões. A idéia corrente dizia que o projétil movia-se em uma linha horizontal reta até que sua força propulsiva se exaurisse e então caía ao chão numa linha perpendicular. Galileu ensinou que o projétil começa a cair logo que deixa a boca do canhão e descreve em seu curso uma parábola, mas a resistência oferecida pelo ar era um fator que impedia Galileu de executar um cálculo exato. De qualquer maneira, a grande importância de sua idéia consistia na compreensão de que a força gravitacional atua precisamente e do mesmo modo em todos os corpos que caem.

Desses estudos dos corpos em movimento gradualmente desenvolveu-se a correta noção de várias e importantes leis da mecânica—leis absolutamente essenciais para o progresso da ciência física.

Vida após a Inquisição e Morte

Na verdade Galileu teve que comparecer duas vezes perante o tribunal da Inquisição. A primeira, em sua juventude, a segunda, quando velho.

Talvez devido a problemas financeiros, nunca se casou, mas manteve relações com uma certa Marina Gamba, veneziana de origem, que lhe deu duas filhas e um filho.Após a última intimação por parte da Inquisição,passou seis meses no palácio de Ascanio Piccolomini,o arcebisbo de Siena e seu amigo.Daí foi para a vila de Arcetri,nas montanhas acima de Florença.Viveu aí o resto de sua vida.Uma de suas filhas, Irmã Maria Celeste,que vivia num convento próximo,ofereceu-lhe conforto até ela própria morrer,em 1634.Galileu tinha então 70 anos.Continuou a trabalhar.Começou a escrever um outro livro sobre as ciências do movimento e sobre a resistência de materiais.Aí também atualizou seus estudos não publicados e que tinham sido interrompidos pelo seu interesse por telescópio,em 1609.O livro foi contrabandeado da Itália e publicado em Leiden,na Holanda,com o título de Diálogos sobre duas Novas Ciências.Nele,entre outros estudos,faz um sumário de suas investigações matemáticas e experimentais sobre o movimento,incluindo a lei dos corpos em queda e a trajetória parabólica dos projéteis como uma resultante de dois movimentos combinados,a velocidade constante e a aceleração uniforme.Ao terminá-lo,Galileu ficou cego,mas mesmo assim ainda continuou a trabalhar com a ajuda de um discípulo,Vincenzo Viviani,o qual estava com o mestre quando ele morreu em 8 de janeiro de 1642.

Palavras de Galileu em seu livro O Ensaiador, de 1623, no qual discute o método para duas novas ciências: A Filosofia é escrita neste grande livro, o Universo, o qual mantem-se sempre aberto à nossa contemplação. Mas o livro não pode ser entendido a não ser que aprendamos a linguagem e possamos ler as letras em que foi escrito. E foi escrito na linguagem da Matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível entender sequer uma única palavra dele.

Resumo e Tradução de Carlos Rezende, dos seguintes livros em domínio público:
(1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 2, by Williams #2 in our series by Henry Smith Williams.
(2) The Project Gutenberg EBook of Encyclopaedia Britannica, 11th Edition,by Various.
16/05/2008
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