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Por
Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br
Johann
Kepler nasceu em 27 de dezembro de 1571 na pequena cidade alemã
de Weil. Foi uma criança frágil, doentia, que um
posterior ataque de severa varíola enfraqueceu ainda mais.
Poderia parecer um tanto paradoxal a afirmativa de que os pais
de um tal gênio eram incompatíveis,mas a verdade
é que o lar onde viveu Kepler não era um lugar feliz.Sua
mãe era de temperamento nervoso,o que talvez explique de
algum modo o próprio caráter da criança.Já
o pai levava uma vida de soldado,tendo morrido em uma campanha
contra os turcos.
Kepler tinha em mira a clerezia, mas recuou dessa idéia
posteriormente. Freqüentou a Universidade de Tubingen, onde
esteve sob a influência do famoso Michael Maestlin, de quem
se tornou amigo para toda a vida.
Registra-se curiosamente que a principio Kepler não tinha
qualquer gosto que fosse pela astronomia ou pela matemática.
No entanto, estando fechadas para ele as portas do ministério
eclesiástico, dirigiu sua atenção para o
estudo da astronomia, pela qual logo se tomou de entusiasmo, tornando-se
um ardoroso defensor do sistema de Copérnico. Seu professor
Maestlin aceitava a mesma doutrina, embora fosse obrigado, por
razões teológicas, a ensinar o sistema ptolomaico,
assim como devia opor-se à reforma gregoriana do calendário.
Tal calendário,é preciso que se explique,é
assim chamado por ter sido instituído pelo papa Gregório
XIII, o qual o pôs em prática no ano de 1582. Até
então prevalecia o chamado calendário Juliano, introduzido
por Júlio César, e aceito em toda cristandade. Era
um grande aperfeiçoamento dos calendários anteriores,
mas era ainda falho na medida em que seu dia teórico diferia
grandemente do dia atual. Desde os tempos de César, os
erros tinham se acumulado ao ponto de representarem um montante
igual a 11 dias.O papa Gregório propôs uma correção
pela qual seriam omitidos 10 dias desse calendário—o
que foi feito em setembro de 1582.Mas é bom termos em mente
que mesmo esse calendário está longe de ser absolutamente
exato.Sua retificação é obviamente desejável.
Mas
como dizíamos acima, a aposição ao novo calendário
não tinha por base o desejo de exatidão, mas era
devido principalmente ao fato de a Alemanha da época estar
sob a forte influência da Reforma Luterana contra o papado.
Era de tal ordem a oposição na Alemanha que este
país só veio aceitar o novo calendário em
1699 e a Inglaterra em 1751.
Assim como os líderes protestantes se opunham à
atitude papal numa questão que envolvia a adoção
de um calendário sem dúvida muito mais racional,
seria de se esperar que esses mesmos líderes luteranos
demonstrassem uma inclinação a favor da teoria copernicana,
uma vez que esta entrava em conflito com a doutrina católica.
Contudo, assim não acontecia. O próprio Lutero assinalava
com grande ardor, em seu argumento demonstrativo e final, que
Josué comandara o sol e não a Terra a conservar-se
imóvel; e seus seguidores eram tão intolerantes
ao novo ensinamento quanto os seus opositores católicos
radicais ultramontanos. Kepler sentiu por várias vezes
algum constrangimento da parte do meio eclesiástico, sem
chegar, porém, a ser diretamente perseguido, como se deu
com seu amigo e contemporâneo Galileu. Já no início
de sua carreira, Kepler, de fato, fora questionado quando da publicação
de uma obra que havia escrito, na qual tomava por verdade admitida
a doutrina copernicana. Esta obra veio à luz no ano de
1596. Tinha por título Prodomus dissertationum mathematicarum
continens mysterium cosmographicum (Primeiras dissertações
matemáticas sobre o mistério do cosmo), e era uma
tentativa de explicação das posições
dos vários corpos planetários.
Copérnico
devotara muito de seu tempo à observação
dos planetas de modo a poder medir suas distâncias, e seus
esforços tinham obtido considerável sucesso. Ele
não sabia, realmente, qual era a distância do sol
e,portanto,era incapaz de estabelecer a distância de qualquer
planeta;contudo,por outro lado,ele determinara a distância
relativa de todos os planetas então conhecidos,em termos
da distância do sol,com notável exatidão.
Tendo essas medidas por guia, Kepler foi levado a uma bem estranha
teoria segundo a qual as órbitas dos 5 principais planetas
mantêm uma relação peculiar aos 5 sólidos
regulares da geometria. Embora esse arranjo fosse fantástico,
e ninguém hoje daria importância a ele, Kepler era
um estupendo teórico e subsequentemente obteve fama apresentando
fatos mais substanciais, que evidenciavam seu espírito
de filósofo e astrônomo.
Ticho
Brahe, o famoso astrônomo dinamarquês a quem ele enviou
uma cópia de sua obra, teve a perspicácia de reconhecer
nela o toque do gênio. Chamou o jovem astrônomo para
ser seu assistente em Praga. Sem dúvida, a associação
desse modo iniciada foi importante para o futuro de Kepler. Foi
precisamente o treinamento na observação minuciosa
e exata que recebeu de Brahe que afastou ou contrabalançou
a tendência mental de Kepler para a excessiva teorização.
Com a morte de seu instrutor em 1601, tornou-se seu sucessor.
No devido tempo, utilizou-se de todos os dados ainda não
publicados do mestre, os quais foram de inestimável valia
para o progresso de seus próprios estudos.
Kepler
não foi somente um trabalhador ardoroso e um teórico
entusiasmado, foi também um escritor incansável
que gostava de manter seu público bem informado acerca
de seus sucessos e de seus fracassos. Assim, suas obras contêm
tanto teorias falsas quanto teorias verdadeiras. Para nosso propósito
será suficiente que assinalemos três dessas teorias,
justamente aquelas que ele pode demonstrar a todos seus pares
e que se ajustavam perfeitamente à realidade dos fatos.
Expressas em poucas palavras essas teorias ficaram conhecidas
como as Leis de Kepler, e são as seguintes:
1ª.
Os planetas descrevem órbitas elípticas em torno
do Sol, ocupando este um dos focos da elipse.
2ª.
As áreas varridas pelo segmento imaginário que une
o centro do Sol ao centro do planeta são proporcionais
aos tempos gastos em varrê-las.
3ª.
Os quadrados dos períodos de revolução dos
planetas são proporcionais aos cubos das distâncias
médias do Sol.
Todas
essas leis supõem que o Sol é o centro das órbitas
planetárias. Deve-se entender também que a Terra
é constantemente considerada um planeta como os outros
e sujeita às mesmas leis—e que tudo está de
acordo com o sistema copernicano. A longa familiaridade com estas
maravilhosas leis de Kepler aplicadas aos fatos não impede
que ainda hoje aqueles que as estudam fiquem encantados com sua
beleza. Foi a partir delas que Newton formulou a teoria da gravitação.
E ainda: a primeira lei de Kepler ataca uma idéia metafísica
de longo curso, isto é, a concepção aristotélica
de que o círculo é a figura perfeita e que, portanto,
as órbitas dos planetas teriam que ser necessariamente
circulares. Nem mesmo Copérnico pôs em dúvida
a validade dessa afirmação. Que Kepler tenha ousado
por abaixo tal crença demonstra a natureza iconoclasta
de seu gênio.
Resumo e Tradução de Carlos Rezende, do seguinte
livro em domínio público:
1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 2, by Williams
#2 in our series by Henry Smith Williams.
20/04/2008.
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