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Por
Carlos Rezendea
cev.rezende@uol.com.br
Demonstra-se
a relativa infertilidade do pensamento de Bacon pelo fato de não
haver ele fundado escola alguma, nem feito discípulos.
No século inteiro após sua morte não apareceu
um único nome que chamasse a atenção do historiador
de ciência. No final do século 15, contudo, já
existe certa evidência de um renascimento da ciência
e da arte. O alemão Muller, que se tornou conhecido com
o nome latinizado de Régio Montanus (1437-1472), só
alcança notoriedade científica quando o comparamos
com a crassa ignorância de seus contemporâneos. O
mais ilustre trabalhador da nova era, porém, foi indiscutivelmente
o famoso italiano chamado Leonardo Da Vinci—o maior gênio
universal de todos os tempos. A posição de destaque
de Da Vinci na arte é por todos conhecida. Não cabe
aqui discuti-la; para os nossos propósitos é a sua
faceta de cientista que mais nos interessa.
De uma passagem das obras de Leonardo, trazida à luz por
Venturi, parece que o grande pintor antecipou Copérnico
na determinação do movimento da Terra. Ele fez cálculos
matemáticos para provar isto, e parece haver alcançado
a definitiva conclusão de que a Terra se move—ou
que o Sol não se move, o que vem a dar no mesmo.
Entre suas invenções está um dinamômetro
para determinar a potência de tração de máquinas
e animais. Seus experimentos com o vapor levaram alguns de seus
estudiosos a reivindicarem a prioridade da invenção
da máquina a vapor para ele e não para James Watt.
Nesses experimentos, entretanto, é mais provável
que Leonardo não tenha avançado muito além
de Heron, de Alexandria e seu brinquedo a vapor. A  máquina
de Heron não fazia outra coisa senão girar em virtude
dos jatos de vapor forçados a escapar por tubos opostos
torcidos, enquanto que a de Leonardo carregava uma bola de ferro
por uma distância considerável. Em um manuscrito
agora na livraria do Institut de France, Da Vinci descreve a máquina
minuciosamente. A ação dela era devida à
súbita conversão de pequenas quantidades de água
em vapor. O liquido entrava em contato com uma superfície
quente, dentro de um receptáculo, e rapidamente se formava
o vapor, o qual atuava como uma força propulsiva à
maneira de uma explosão. Era antes uma máquina a
explosão do que a vapor, e não é desarrazoado
pensar que o seu estudo da ação da pólvora
lhe tenha sugerido esse dispositivo.
Acredita-se que inventou a câmara escura, embora o filósofo
napolitano Giambattista Porta, que nasceu uns vinte anos após
a morte de Leonardo, haja ficado com o crédito de o primeiro
a descrever o dispositivo. Pouca dúvida há, porém,
de que Da Vinci entendeu o princípio deste mecanismo, pois
relata como tal câmara poderia ser arranjada fazendo-se
um furo redondo numa veneziana de um quarto escuro, com isso aparecendo
numa parede oposta a imagem invertida dos objetos exteriores ao
quarto.
Tal
como outros filósofos em várias épocas, Da
Vinci observou um grande número de fatos para os quais
os quais ele não encontrou explicações. Mas
essas acumulações de observações científicas
são sempre interessantes, ao fazer-nos entender quantos
séculos de observações frequentemente precedem
as corretas explicações delas. Leonardo registrou
em seus célebres cadernos de apontamentos muitos fatos
acerca dos sons, entre outros, que ao se bater em um sino produz-se
uma série semelhante de sons em outro sino igual ao primeiro.
Ele sabia também que se podiam ouvir os sons do fundo dos
oceanos desde que um dos orifícios de um grande tubo fosse
mergulhado no mar e a outra extremidade estivesse ao alcance de
nosso ouvido; e que o mesmo acontecia em terra, procedendo-se
de igual modo.
 No
campo da geologia, Leonardo foi objeto da admiração
dos cientistas modernos ao chamar a atenção para
os vários estratos de conchas fósseis depositadas,
mesmo no alto de montanhas, e ao rejeitar de uma vez por todas
a teoria segundo a qual elas tinham sido postas ali pelo Dilúvio.
Ele corretamente interpretou sua presença nesses lugares
como uma evidência de que elas tinham ficado acamadas, primeiro,
no fundo do mar. Este processo,ele raciocinou,consumiu centenas
de milhares de séculos--deste modo tacitamente rejeitando
a tradição bíblica que datava tudo pelo dia,
ou dias, da Criação.
Conheçamos agora alguma coisa de sua vida.
Filho ilegítimo de Ser Piero, um notário florentino,
Leonardo nasceu em 15 de abril de 1452, nas propriedades de seu
pai, que foi quem o criou. Sua mãe, uma jovem camponesa,
casou-se pouco depois de Leonardo vir ao mundo com um artesão.
Assim, Leonardo cresceu na casa paterna, onde foi tratado como
filho legítimo, tendo recebido a usual educação
elementar da época: ler, escrever e contar. Quanto ao latim,
a língua chave do saber tradicional, Leonardo só
veio a estudá-la seriamente muito mais tarde, por conta
própria. Só aos 30 anos de idade aplicou-se ao estudo
da matemática superior e da geometria avançada—ciências
que estudou com diligente tenacidade.
Suas
inclinações artísticas apareceram muito cedo.
Quando fez 15 anos, seu pai, que gozava de grande reputação
na comunidade de Florença, empregou-o na oficina de Andrea
Del Verrocchio, onde recebeu treinamento em muitas artes como
a pintura e escultura, assim como técnicas em artes mecânicas.
Também trabalhou numa oficina próxima, de Antonio
Pollaiuolo, onde provavelmente sentiu uma forte atração
para o estudo de anatomia. Em 1472 Leonardo foi aceito na corporação
dos pintores de Florença, mas permaneceu ainda 5 anos na
oficina de seu professor. Depois, passou a trabalhar independentemente
em Florença até 1481. Nas poucas obras desse seu
período inicial já se podia ver claramente o desenvolvimento
de um talento de artista excepcional. Agudeza de observação
e imaginação criadora salienta-se de modo a não
deixar em dúvida nem mesmo no mais exigente crítico
de arte quanto a seus méritos. Sua primeira obra de mestre
é revelada em um anjo e em um segmento de paisagem executada
por ele na pintura de Verrocchio
chamada o “Batismo de Cristo”. Seguiram-se outras
obras e Leonardo adicionou a elas novos estudos, seus primeiros
esboços de desenhos técnicos, como, por exemplo,
bombas, armas militares, dispositivos mecânicos de todas
as formas imagináveis—evidenciando o seu interesse
na aquisição de conhecimento técnico a despontar
logo no início de sua carreira.
Em 1482 Leonardo passou a servir ao Duque de Milão—um
passo surpreendente quando se sabe que o artista de 30 anos havia
recebido sua primeira substancial comissão de sua nativa
cidade de Florença: o painel inacabado de “A adoração
dos magos” para o monastério de S.Donato Scopeto
e a pintura de um altar para a Capela São Bernardo, no
Palazzo della Signoria, que nunca foi terminado. Que ele tenha
desistido desses projetos a despeito de sua promessa parece indicar
razões mais profundas de sua parte, talvez o clima fosse
hostil ao seu temperamento de homem orientado para a experiência
e, assim, eis aí a causa para se ter posto ao serviço
da atmosfera mais realista da Milão de Ludovico Sforza,
homem de personalidade fascinante.
Leonardo ficou em Milão durante 17 anos, até Sforza
perder o poder em 1499. Gozou da mais alta estima na corte desse
duque, que o manteve constantemente ocupado como pintor, escultor
e engenheiro, além de lhe confiar a direção
técnica dos grandes festejos anuais da cidade. Era sempre
consultado como conselheiro técnico nos campos de arquitetura,
fortificações e assuntos militares.
Foi nessa fase que seu gênio desabrochou em toda a sua magnífica
glória, exibindo toda a sua versatilidade, toda a sua poderosa
criatividade artística e seu pendor incomum para os cometimentos
científicos, tornando-se objeto da admiração
de todos os seus contemporâneos.
Em 1513 eventos políticos fizeram Leonardo mudar-se novamente,
aos 60 anos. Foi a Roma esperando conseguir emprego com Giuliano
de Medici, irmão do novo papa Leão X.Giuliano deu-lhe
uma suíte em sua residência, o Belvedere, no Vaticano.
Também lhe deu um estipêndio mensal considerável.
Durante três anos ficou na Cidade Eterna. Na mesma época,
Rafael pintava os últimos aposentos do papa, Michelangelo
completava a tumba do papa Júlio.
Rascunhos
de amargas cartas traem o desapontamento do artista que envelhece
trabalhando no seu estúdio sobre problemas matemáticos
e experimentos técnicos ou, passeando pela cidade, examina
monumentos antigos. Em uma vida assim solitária, é
fácil entender porque Leonardo, aos 65 anos, decide aceitar
o convite do jovem rei Francisco I da França.
Em 1516 ele deixa a Itália para sempre. Passa os últimos
dias de sua vida numa pequena residência de Cloux, próxima
ao palácio de verão do rei, que lhe dá completa
liberdade e o título de “Primeiro pintor, arquiteto
e mecânico do Rei”. Décadas mais tarde, Francisco
I contaria ao escultor Benvenuto Cellini o quanto respeitava o
genial Leonardo, que foi deixado em sossego para editar seus estudos
científicos, os retoques finais em tratados de pintura
e anatomia. A morte o alcançou em 2 de maio de 1519.
Foi cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista,
pintor, escultor, arquiteto, botânico, músico e escritor.
Como engenheiro, Leonardo concebeu idéias séculos
à frente de seu tempo, estabelecendo os princípios
do helicóptero, do tanque de guerra, de um concentrador
de raios solares, do odômetro, do avião, do submarino,
da bicicleta, da prensa automática, do automóvel,
da calculadora e deu as linhas gerais das placas tectônicas.
Poucos de seus desenhos e plantas podiam ser construídos
com a tecnologia de seu tempo. Como cientista, fez progredir o
conhecimento em vários campos tais como a anatomia, a engenharia
civil, a óptica e a hidrodinâmica.
Era benévolo, pacífico e calmo, evitando discussões
e brigas. Não comia carne, por considerar ilícito
tirar a vida dos animais, e sentia um gosto particular em comprar
pássaros no mercado, para soltá-los quando chegasse
a casa.
Dos
seus Cadernos pinçamos reflexões e observações
variadas, muitas das vezes anotações, roteiros para
o que precisava ser mais bem investigado—uma fome de saber
ilimitada:
Volume I
Introdução Geral sobre o Livro de Pintura; Perspectiva
Linear; Seis Livros sobre Luz e Sombra; Teoria das Cores; Sobre
as Proporções e sobre os Movimentos da Figura Humana;
Botânica para Pintores e Elementos de Pintura Paisagística;
A Prática da Pintura; etc.
Volume II
Notas sobre Escultura, Escritos sobre Arquitetura, Anatomia, Sobre
a Terra e os Planetas, Sobre o Olho, Sobre a Lua, Sobre as Estrelas,
Geografia Física, Tratado sobre a Água, Sobre a
Atmosfera, Do Movimento, Notas sobre Topografia, Sobre o Amor
da Virtude, Sobre os Animais, Sobre a Música, etc.
949.
Que
o oceano não penetra a terra é o que aprendemos
ao constatar as muitas e variadas fontes de água doce que
em diversas partes das profundezas desses oceanos escavam o seu
caminho do fundo até a superfície da terra. A mesma
coisa está adicionalmente provada pelos poços cavados
a uma distância de 1 milha do dito oceano, e que se enchem
de água doce; e isto acontece porque a água doce
é mais leve que a água salgada e conseqüentemente
mais penetrante.
970.
Sobre a origem dos rios.
O
corpo da terra, como o corpo dos animais, está trespassado
de ramificações de líquidos, os quais estão
todos em conexão, e são constituídos para
dar nutrimento e vida à terra e suas criaturas.Tais líquidos
vêm das profundezas do mar e,após muitas revoluções,retornam
a ele através dos rios criados pelas fontes;se disserem
que as chuvas do inverno e o derretimento das neves do verão
são as causas do nascimento dos rios,eu poderia retrucar
mencionando os rios que se originam nos tórridos países
da África,onde nunca chove e muito menos neva,etc.
(485) Nossa vida é feita da morte de outros. Na matéria
inerte e insensível a vida permanece, reuni-se nos estômagos
dos seres vivos, dá continuidade à vida sensual
e intelectual. Aqui a natureza parece antes uma madrasta que uma
mãe plena de ternura.
929.
O início do tratado sobre a água.
Os antigos chamavam o homem de mundo em miniatura; e certamente
este nome foi bem empregado, porque, na medida em que o homem
é composto de terra, água, ar e fogo, seu corpo
assemelha-se ao da terra; e assim como o homem possui ossos que
suportam sua estrutura de carne, o mundo tem rochas que suportam
sua terra; assim como o homem possui uma rede de sangue que dilata
seu tórax a cada respiração, do mesmo modo
a terra tem suas marés que igualmente a levantam e baixam
a cada seis horas, como se o mundo respirasse; e ainda,assim como
essa rede de sangue se ramifica por todo corpo humano,assim o
oceano enche o corpo da terra com infinitas fontes de água;
etc.
Homem e animais são em verdade passagens e condutos de
comida, sepulturas de animais.
(1040) Os olhos de todos os animais têm pupilas adaptadas
para dilatar e diminuir sozinhas, em proporção à
maior ou menor luminosidade do sol ou de outra luminária
qualquer. Mas nos pássaros a variação é
muito maior; e particularmente nos pássaros noturnos, tais
a coruja de chifres e espécies semelhantes; nelas a pupila
dilata-se ao ponto de quase ocupar o olho inteiro ou diminuir
até o tamanho de um grão minúsculo, mas sempre
preservando a forma circular. Entretanto, nos felinos em geral
e naqueles que se lhe assemelham, a pupila diminui do círculo
perfeito para o ovalado. O homem, por ter visão mais fraca
do que outros animais, sofre menos por efeito da luz mais intensa
e sua pupila aumenta muito pouco nos lugares escuros; mas os olhos
dos animais noturnos têm o seu poder visual tão aumentado,
que na mais diminuta luz vêem mais e com mais distinção
do que nós o fazemos em pleno esplendor do meio-dia,quando
então esses pássaros permanecem escondidos em suas
escuras tocas;ou,se são compelidos a sair em céu
aberto,iluminado pelo sol,eles contraem tanto as pupilas,que seu
poder de visão diminui junto com a quantidade de luz admitida,etc.
Estudar a anatomia dos vários olhos e investigar quais
são os músculos que abrem e fecham as pupilas desses
olhos.
1144.
Por que o olho vê uma coisa mais claramente em sonhos do
que acordado a imaginar?
1156.
A mecânica é o paraíso da ciência matemática,
porque aqui chegamos direto aos frutos da matemática.
372
Um homem correndo lança menos peso sobre suas pernas do
que se estivesse parado.Do mesmo modo, um cavalo a correr sente
menos o peso do homem que ele carrega.Deste fato sucede que as
pessoas se maravilhem que o cavalo não caia quando se sustenta
sobre um único pé, em movimento.Daí se pode
concluir que quando um
peso está em movimento transverso,quanto mais rápido
ele for, menor será o peso em direção ao
centro da Terra.
496
Eu próprio tenho provado em mim a utilidade de uma prática.
Quando, à noite, vou para minha cama, tento lembrar-me
de todos os detalhes daquilo que estudei, ou sobre outras coisas
dignas de nota que concebi; é certamente um exercício
admirável para imprimir as coisas seguramente em nossa
memória.
498.
É um pobre discípulo aquele que não excede
seu mestre.
798.
Esta minha descrição do corpo humano pretendo seja
tão clara para você como se tivéssemos o homem
à nossa frente; e a razão é que se você
deseja conhecer por completo todas as partes do homem, anatomicamente
falando, você—ou o seu olho—terá que
vê-lo a partir de diferentes aspectos, vendo-o de baixo
e de cima e ainda dos lados, virando-o para lá e para cá
e buscando a origem de cada membro. Mas entenda que este conhecimento
não lhe será suficiente se você não
seguir em frente; pois há uma grande confusão na
combinação de tecidos com veias, artérias,
nervos, tendões, músculos, ossos e sangue; sendo
que este último tinge todas as outras partes da mesma cor.
E as veias, que descarregam este sangue, não são
facilmente discerníveis em virtude de sua pequenez. Além
do mais, a integridade dos tecidos,no processo de investigar as
partes que os compõem ,é inevitavelmente destruída,
e aquelas suas partes transparentes, estando tingidas de sangue,
dificultam o reconhecimento das partes cobertas por estes mesmos
tecidos. Por conseguinte,
desenhos anatômicos se tornam indispensáveis. Dos
quais você necessitará de um conjunto de três
que lhe dêem pleno conhecimento das veias artérias.
Três outros desenhos lhe devem mostrar os tecidos; e mais
três para os tendões e músculos e ligamentos;
e três para os ossos e cartilagens; e três para a
anatomia dos ossos, os quais devem ser serrados para que mostrem
quais são vazios e quais não o são; estes
últimos contendo a medula. Estes ossos são um tanto
esponjosos, mais espessos uns e menos espessos outros, havendo
ainda aqueles que são extremamente finos em certas partes
e mais espessos em outras, certas partes achando-se vazias, certas
outras cheias de medula. E outro conjunto de três desenhos
será necessário quando for estudar o corpo da mulher,
a anatomia da qual é mais complexa em virtude dos misteriosos
útero e feto,quando existe,etc.
Resumo e Tradução de Carlos Rezende, dos seguintes
livros em domínio público:
(1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 2, by Williams
#2 in our series by Henry Smith Williams.
(2) The Project Gutenberg EBook of Encyclopaedia Britannica, 11th
Edition,by Various.
(3) The Project Gutenberg EBook of The Notebooks of Leonardo Da
Vinci, Complete, by Leonardo Da Vinci. 09/03/2008
This ebook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away
or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License
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