Livros em 3 X 4


Por Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br


Elementos de Geologia, de Charles Lyell.


A obra de Lyell foi bastante lida e compulsada por Darwin, de quem o célebre geólogo foi grande amigo. Darwin sempre fazia questão em seus livros de reconhecer sua dívida para com ele.


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De que elementos a Terra é composta, e de que modos estes materiais estão arranjados?Estas são as questões com as quais a geologia se ocupa. Esta ciência deriva seu nome do grego "ge",a terra,e logos,discurso.Antes de toda experiência sobre o assunto,é bem possível que imaginássemos que devêssemos nos ocupar exclusivamente com o reino mineral,e com as várias rochas,solos e metais que ocorrem na superfície da Terra,ou nas profundezas dela.Mas,ao nos enfronharmos nessas pesquisas,logo somos levados a considerar as sucessivas mudanças que tiveram lugar, nos mais remotos períodos, na superfície e interior da Terra,e as causas que originaram tais mudanças;e,o que é ainda mais singular e inesperado,também nos vimos engajados na busca da história da criação animada,ou das várias espécies de animais e plantas que,em diferentes períodos do passado,animaram o globo.

Todos conhecemos que as partes sólidas da Terra consistem de substâncias distintas, tais como argila,giz,areia,calcáreo,hulha,granito,etc.,e previamente à qualquer observação,imagina-se que tudo isso apresenta-se como está desde os primeiros dias.Contudo,o geólogo chega a conclusões diferentes,descobrindo que as partes externas da Terra não foram produzidas desde o começo das coisas no estado em que as vemos na atualidade.Pelo contrário,ele pode demonstrar que elas adquiriram a atual configuração e condições gradualmente,sob uma grande variedade de circunstâncias,e em períodos sucessivos,durante os quais distintas raças de seres viventes floresceram sobre a Terra e nas águas,e os remanescentes,os restos deixados por essas criaturas que jazem enterrados na crosta da Terra.

Por "crosta terrestre" queremos dizer a pequena porção do exterior de nosso planeta que é acessível à observação humana. Ela compreende não somente os penhascos que se projetam sobre um rio ou sobre o oceano,ou qualquer outra estrutura com que o mineiro pode se deparar em suas escavações.E é sobre ela que nossos raciocínios podem ser feitos,penetrando vários quilômetros de profundidade;tal número,porém,é pequeno,se admitirmos que sua espessura é da ordem de 1/400 da distância da superfície ao centro da Terra.Entretanto,embora essas dimensões da crosta sejam,em verdade,insignificantes quando comparadas com a de todo o globo terrestre,elas constituem uma considerável vastidão quando comparadas com a pequenez do homem e mesmo com a de todas as formas orgânicas que a povoam..

Os materiais desta crosta não estão embaralhados confusamente, como o leigo poderia pensar, e sim dispostos em distintas massas minerais, denominadas rochas; as quais ocupam espaços definidos e exibem certa ordem em seu arranjo. O termo ROCHA é aplicado indiferentemente pelos geólogos a todas essas substâncias, quer sejam macias, quer sejam duras, pois a argila e a areia estão incluídas no termo. Nossos antigos escritores fizeram o possível para evitar essa violência de linguagem, ao se referirem a esses materiais componentes da Terra como rochas e SOLOS. Mas, frequentemente, é tão insensível a passagem do material macio e incoerente para aquele pedregoso, que os geólogos de todos os países sentiram a necessidade de um termo técnico que incluísse ambos, e assim encontramos ROCHE em francês, ROCCA em italiano, e FELSART em alemão. Mas a maneira mais natural e conveniente de classificar as várias rochas que compõem a crosta terrestre é nos referirmos a elas, em primeiro lugar, às suas origens, e, em segundo lugar, às suas relativas idades.


Teoria da Terra, de James Hutton

O atualismo, isto é, a explicação de como se formou a crosta terrestre por processos ocorridos ao longo do tempo geológico e não por cataclismos eventuais, foi o grande legado do geólogo e naturalista escocês James Hutton (1726-1797) à ciência. E o seu livro "Teoria da Terra" é um dos pilares da geologia moderna, nos seus esforços para compreender o complexo funcionamento de nosso planeta.

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Quando delineamos as partes de que o sistema terrestre é composto, e quando observamos as conexões gerais dessas partes, o todo se apresenta como uma máquina peculiar adaptada a certa finalidade.

Sabemos pouco das partes internas da terra, ou sobre os materiais que a compõem. Mas sobre a superfície do globo, a matéria mais inerte está repleta de plantas, de animais e de seres inteligentes.

Onde tantas criaturas vivas seguem seus caminhos, perseguindo os objetivos para os quais foram criadas, não veremos a natureza num estado quiescente; a matéria estará em movimento, e as cenas da vida--uma contínua e repetida série de agitações e eventos.

Este globo da terra é um mundo habitado; e na adequação a este propósito deve nossa sabedoria aprender a conformar-se. Para julgar este ponto, devemos manter em mente não só a finalidade como também os meios pelos quais ela é obtida. Estes são: a forma do todo, os materiais que o compõem,e os vários poderes que concorrem,equilibrando-se uns aos outros na procura do objetivo final.

A terra compõe-se de partes maleáveis e duras, adaptadas ao uso das plantas e animais; de partes molhadas e secas são as misturas que nutrem os corpos vivos que nela habitam; o quente e o frio produzem a temperatura ou clima.

Para se entender o mecanismo do globo é necessário dividi-lo em três partes: o corpo sólido da terra, o corpo aquoso dos oceanos e o corpo fluido do ar.

Há um corpo central no globo, que suporta aquelas partes que comumente vemos. Nós o supomos sólido e inerte, mas tal conclusão baseia-se em princípios científicos e experiências que pudemos fazer com aquilo que foi expulso de dentro dele para a superfície.

Considere o corpo aquoso. Este, pela gravitação, é reduzido a uma forma esférica e, pela força centrífuga da rotação da terra, tornou-se globoso. Este fluido é essencial na constituição do mundo, pois, além de ser o meio de vida de muitas espécies, é o receptáculo dos rios, a fonte dos vapores que se transformam em chuva e um regulador do clima.

Considere a atmosfera que envolve o globo. Este fluido é não menos necessário que as outras partes, pois não há nada na superfície da terra que não tivesse nela a sua origem e manutenção. Sem ela não existiria o fogo, é o sopro de vida dos animais e vegetais e,enquanto contribui para dar fertilidade e saúde para as coisas que crescem,impede ao mesmo tempo que elas se corrompam.

Pela força gravitacional as partes do globo não alternadamente expostas à luz e às trevas, em sua rotação. Desta maneira são produzidas as vicissitudes do dia e da noite, tão variáveis nas diferentes latitudes a partir do equador aos pólos.

Tal o cenário de nossas investigações.

 

Extraído de “I, Asimov”, autobiografia, com o apêndice” Morte de Isaac Asimov”, de Janet Asimov

Um dos desejos mais profundos do ser humano é ser conhecido e entendido. Hamlet instrui Horácio para contar sua história.

Isaac diz em sua autobiografia que foi minha a idéia de que ele a escrevesse, mas o fato que permanece é que ele desejou escrevê-la para compartilhar sua vida com seus leitores de um modo que ele não fizera nas duas versões mais antigas dela, que são mais detalhistas e cronológicas, mas muito menos introspectivas que esta última.

Em maio de 1990, Isaac terminou esta autobiografia.

Depois da morte de Isaac, tomei a iniciativa de editar o manuscrito. O editor a queria bastante abreviada, mas fiz valer minha vontade e consegui publicá-la tal como foi escrita.

Isaac registra em seu diário de 30 de maio de 1990 como o dia em que deu à sua autobiografia a redação definitiva. Ele anotou: ’Está agora pronta, 125 dias depois de tê-la iniciado. Não são muitos aqueles que podem escrever 235.000 palavras nesse tempo, enquanto estivessem a fazer muitas outras coisas’.

No dia seguinte fomos a Washington para um almoço na Embaixada Soviética. A viagem deu a Isaac a sensação de que vencera a moléstia e que retornara em parte à sua antiga vida. Estava particularmente feliz de encontrar-se com Gorbatchev porque o final da Guerra Fria trazia novas esperanças para a humanidade. Isaac acreditava fervorosamente que todas as pessoas deviam se juntar para realizar o bem comum da humanidade.
A despeito de sua crescente fraqueza, escrevia todo dia. Aborrecia-se com os vários problemas médicos—os seus próprios e os de sua filha e de seu irmão. Pela primeira vez mencionou a sua depressão em seu diário, com imensa amargura. Para os outros que o rodeavam, tentava passar outra imagem sua, sempre fazendo piadas, sempre com aquela amabilidade que só ele possuía.

No dia 2 de janeiro de 1991, escreveu: ’Consegui!Fiz 71 anos. Ganhei um presente de Natal: Saí nas tiras dos desenhos do Garfield... O que, provavelmente, me pôs à luz das ribaltas como nunca antes. Minha filha Robyn veio e juntos fomos ao restaurante Shun Lee atrás de Pato à Pequim e carne de cervo. Foi ótimo!

Também em janeiro de 1991 ele começou a trabalhar no ‘Asimov Laughs Again’, que levantou seu moral. Em 5 de abril ele terminou o livro declarando que estivemos apaixonados um pelo outro nesses últimos 32 anos.

A página termina assim: ’Acho que minha vida chegou a seu curso final e não espero viver muito mais. Entretanto, nosso amor permanece e nada tenho de que me queixar. Em minha vida, tive minha esposa Janet e tive minha filha Robyn, e meu filho David; tive um enorme número de bons amigos; tive meus livros e minha fama e a riqueza que proporcionaram; portanto, não me importa o que me aconteça—foi uma boa vida e estou satisfeito com ela. Assim, por favor, não se preocupe comigo. Gostaria apenas que este livro o fizesse dar umas boas gargalhadas’.

Ao remeter o livro para a editora, tornou-se mais distante. A caligrafia em seu diário piorou e houve poucas anotações. Mas ele continuou a escrever tanto quanto lhe foi possível.

Não entrarei em detalhes sobre seus últimos dias, que foram marcados por freqüentes hospitalizações e severa decadência física. Nem darei detalhes de seu leito de morte, exceto para dizer que ele não sentiu dor—rim em estado terminal arrasta a pessoa para uma espécie de apatia, e eventualmente à paz.

Robyn e eu estávamos lá quando ele morreu. Seguramos suas mãos e lhe dissemos que o amávamos. Suas últimas sentenças completas foram: ’Eu também as amo’.

Disse a Harlan Ellison sobre um incidente que se deu em sua última semana em casa. Isaac já não podia falar muito e passava a maior parte do tempo a dormir, mas certa vez ele acordou parecendo terrivelmente assustado e ansioso.

Ele disse para mim: ’Eu quero... Eu quero... ’
‘O que você quer Isaac?’, eu perguntava.
‘Eu quero... Eu quero... ’
‘O que você quer meu querido?’
Então, pareceu rebentar do mais íntimo dele: ’Eu quero—Isaac Asimov!’
‘Claro!’, eu disse, Isaac Asimov é você’.
Então ele disse admiravelmente e em triunfo: ’EU SOU Isaac Asimov!’
Eu lhe retornei: ’E Isaac Asimov pode descansar agora. ’
Isaac sorriu feliz e disse: ’Ok’, e dormiu novamente.

Mesmo próximo do fim seu senso de humor nunca desapareceu. Quando todos nos reunimos, disse-lhe: ’Isaac, você é o melhor homem que poderia existir’.

Isaac sorriu e deu de ombros. Então, com um travesso erguer de sobrancelhas, ele balançou o rosto em sinal afirmativo, e nós todos caímos na gargalhada.

Escrever o que ele desejava escrever era um ato de alegria para ele, durante o qual relaxava e esquecia seus problemas. Resmungava, é claro, por ter tido que escrever tantas obras em poucos dias, mas elas sempre o ajudaram. ’Forward the Foundation’ o machucou, porque ao matar Hari Seldon ele estava também matando a si mesmo; contudo, ele superou toda a angústia.

Ele me disse certa vez como seria o final de ‘Forward the Foundation’—que Hari Seldon morreria,que as equações do futuro lhe apareceriam como a girar em torno dele, que ele saberia estar olhando para um futuro que ele próprio descobrira e ajudara a concretizar.

Isaac dizia: ’Não sinto autopiedade pelo fato de não poder estar aqui para ver alguns dos possíveis futuros. Como Hari Seldon, posso olhar toda a minha obra em torno de mim e me sinto confortado com isso. Estudei, imaginei e escrevi sobre muitos futuros possíveis—é como se tivesse vivido cada um deles’.

Quando uma vez nos pusemos a conversar sobre a velhice, a doença e a morte, ele disse que não era tão terrível assim ficar doente, velho e morrer, desde que sentíssemos ser parte de uma vida que se completava segundo um padrão. E que, embora não pudéssemos atingir a velhice, ainda valeria a pena, ainda haveria prazer na visão de ser parte da vida, especialmente se esse padrão de vida pudesse ser expresso e compartilhado em criatividade e amor.

Resumos e Tradução de Carlos Rezende, extraídos dos seguintes livros em Domínio Público,nenhum dos quais foi até hoje traduzido para o português.
1) The Project Gutenberg Etext of The Student's Elements of Geology by Sir Charles Lyell.
2) The Project Gutenberg eBook, Theory of the Earth, Volume 1 (of 4), by James Hutton.
04/11/2007
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