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Por
Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br
Natureza e Ciência
Durante
todo o tempo em que estamos acordados, estamos aprendendo por
intermédio de nossos sentidos algo sobre o mundo em que
vivemos e do qual fazemos parte; estamos constantemente informados
do que sentimos, do que ouvimos, do que cheiramos e, a menos que
nos encontremos no escuro, do que vemos; a intervalos, do que
saboreamos.Chamamos a informação assim obtida de
sensação.
Um certo cheiro nos faz dizer que cheiramos cebola;um certo sabor,que
provamos maçã;um certo som,que ouvimos um carro
passar;uma certa aparência diante de nossos olhos,que vemos
uma árvore;e chamamos a tudo isso que percebemos com o
auxílio de nossos sentidos,uma coisa ou um objeto.
Causa e Efeito
Além disso, dizemos de todas essas coisas, ou objetos,
que eles são a causa das sensações em questão,
e que as sensações são os efeitos dessas
causas. Por exemplo, se ouvimos um determinado som, dizemos que
ele é causado por um carro que está passando por
uma rua próxima, ou que o som é o efeito, ou a conseqüência,
de o carro estar passando. Se há um forte cheiro de queimado
no ar, acreditamos ser ele o efeito de algo a queimar, e olhamos
ansiosamente a redor procurando pela causa do cheiro. Se vemos
uma árvore, acreditamos que exista uma coisa, ou um objeto,
que seja a causa da aparência que temos em nosso campo visual.
A Razão do Por Que. Explicação.
No caso do cheiro de queimado,quando olhamos em torno à
procura de algo que esteja queimando,dizemos indiferentemente
que encontramos a causa do cheiro, ou que sabemos a razão
por que percebemos esse cheiro, ou que sabemos qual é a
explicação para isso. De modo que, conhecer a razão
do por que de qualquer coisa, ou explicá-la, é conhecer
a causa dela. Mas aquilo que é a causa de uma coisa é
o efeito de outra. Assim, ao supormos que uma palha a arder é
a causa do cheiro de queimado, imediatamente nos perguntamos o
que a fez queimar, ou qual é a causa de ela estar queimando.
Talvez encontremos um palito de fósforo por entre a palha,
e então dizemos que foi ele a causa do fogo. Mas um palito
de fósforo não poderia estar nesse lugar a não
ser que alguma pessoa o tivesse jogado ali. Agora a presença
do fósforo é um efeito e a pessoa que o lançou
fora, a causa. Prosseguindo, poderíamos nos perguntar por
que alguém o lançou ali. Ele o fez por descuido?Ele
tinha a intenção de fazer isso?Se tinha, qual era
seu motivo, ou qual foi a causa que o levou a fazer isso?E qual
era a razão que o levou a ter esse motivo?Está claro
que não há um fim para todas as nossas perguntas,
uma originando-se de outra.
De fato, acreditamos que tudo é o efeito de alguma coisa
que a precedeu como causa, e que essa causa é o efeito
de alguma outra, e assim por diante, através de uma cadeia
de causas e efeitos que pode ser levada até onde o desejarmos
ou nos for suficiente. Diz-se que explicamos algo tão logo
descobrimos sua causa, ou a razão dela existir; a explicação
é mais completa se acharmos a causa dessa causa; e mais:
Quanto mais causas e efeitos, tanto mais satisfatória será
a explicação. Contudo, nenhuma explicação,
seja do que for, será completa, uma vez que o conhecimento
humano, na melhor das hipóteses, só conseguirá
caminhar um pouquinho em direção ao começo
das coisas.
Propriedade e Força.
Quando verificamos que uma coisa sempre ocasiona um efeito particular,
chamamos esse efeito, algumas vezes, de propriedade. Assim, o
cheiro de cebola é uma propriedade da cebola, porque a
cebola sempre ocasiona aquela específica sensação
de cheiro quando está próxima de nosso nariz; diz-se
que o chumbo tem a propriedade de pesar, porque ele sempre nos
causa uma sensação de peso quando colocado em nossa
mão; diz-se de um rio que ele tem a força de fazer
girar uma roda d’água porque ele é a causa
de a roda d’água girar; diz-se de uma cobra venenosa
que ela tem a força de matar um homem porque sua mordida
pode ocasionar a morte de um homem. Propriedade e força,
portanto, são certos efeitos causados por coisas que as
possuem.
Objetos Artificiais e Naturais. Natureza.
Muitas das coisas trazidas até nós pelos nossos
sentidos, tais como casas e mobílias, automóveis
e máquinas, são designadas por coisas artificiais
ou objetos, porque foram moldadas pela arte do homem.Mas uma quantidade
ainda maior de coisas que existem não são o produto
de mãos humanas,e existiriam exatamente como são
ainda que a humanidade não existisse,tais como o céu
e as nuvens;o sol,a lua e as estrelas;o oceano com suas rochas
e os seixos e a areia das praias;as montanhas e os vales da terra;e
todas as plantas e animais selvagens.Coisas dessa espécie
são designadas objetos naturais,e ao todo que as contém,damos
o nome de Natureza.
A Ordem da Natureza.
A primeira coisa que os homens aprenderam tão logo começaram
a estudar a natureza cuidadosamente foi que alguns eventos acontecem
numa ordem regular e que algumas causas sempre ocasionam os mesmos
efeitos. O sol sempre se levanta de um lado e se põe de
outro, no céu; as mudanças da lua seguem-se umas
às outras na mesma ordem e em intervalos similares; a água
flui montanha abaixo; as plantas brotam da semente e dão
sementes, das quais plantas semelhantes crescem novamente; os
animais nascem,crescem,alcançam a maturidade, reproduzem-se,
e morrem, do mesmo modo. Assim, a noção de uma ordem
na natureza e de uma fixidez na relação de causa
e efeito entre as coisas gradualmente entraram na mente do homem.
Leis da Natureza; Leis não são Causas.
Quando percebemos por observações cuidadosas e repetidas
que algo é sempre a causa de um certo efeito,ou que certos
eventos sempre se sucedem numa mesma ordem,falamos da verdade
assim descoberta como sendo uma lei da natureza.Deste modo,é
uma lei da natureza que tudo que é pesado caia ao chão,se
nada o detiver;é uma lei da natureza que,sob condições
normais,o chumbo seja flexível e pesado,enquanto que o
sílex seja duro e quebradiço.
As leis da natureza são, de fato, similares às leis
que os homens promulgam para guiar sua conduta com relação
aos outros. Há leis sobre o pagamento de impostos, há
leis contra o roubo ou o assassinato. Mas a lei não é
a causa do homem pagar seus impostos, nem é a causa de
ele abster-se de roubar ou assassinar. A lei é uma simples
declaração do que acontecerá ao homem que
não pagar seus impostos ou que roubar ou matar; e a causa
de ele pagar seus impostos, ou de abster-se do crime, é
o medo das conseqüências que lhe advirão por
efeito de sua crença na declaração da lei.
A lei humana proclama o que podemos esperar que a sociedade faça,
dadas certas circunstâncias; e a lei da natureza nos diz
o que podemos esperar dos objetos naturais sob determinadas circunstâncias.
Embora existam muitas analogias entre as leis humanas e as naturais,
não podemos esquecer que também existem diferenças
essenciais. As leis humanas consistem de ordens dirigidas a pessoas
dotadas de vontade, as quais podem acatá-las ou não;
e a lei não deixará de existir pelo fato de haver
sido violada. As leis naturais, por outro lado, não são
ordens e sim afirmações com respeito à ordem
invariável da natureza; e elas só permanecem leis
na medida em que se possa mostrar que elas exprimem ordem. Falar
de violação, ou suspensão, de uma lei da
natureza é um absurdo. Tudo que a frase pode significar
é que, sob certas circunstâncias, a afirmação
contida na lei não é verdadeira; e a conclusão
honesta é, não que a ordem da natureza foi interrompida,
mas sim que cometemos um erro ao declará-la naquela ordem
ou forma.A lei natural verdadeira é uma regra universal,e,como
tal,não admite exceção.
O Conhecimento da Natureza é um Guia para a
Conduta Prática.
Se nada acontece por acaso, mas tudo na natureza segue uma ordem
definida, e se as leis da natureza incluem aquelas que temos sido
capazes de aprender sobre a ordem da natureza em linguagem precisa,
então torna-se muito importante para nós conhecer
tanto quanto for possível dessas leis naturais a fim de
podermos guiar nossa conduta por elas.
Qualquer homem que tentasse viver em um país sem conhecer
as leis que nele vigoram, meter-se-ia logo em encrenca. Do mesmo
jeito, qualquer um que tentasse viver sobre a face desta terra
sem dar atenção às leis da natureza, teria
uma existência bem curta, ou passaria grande parte de seus
dias numa situação de extremo desconforto. Uma peculiaridade
das leis naturais, em contraposição às humanas,
é que elas agem sem intimações ou execução
processual. Com efeito, ninguém poderia viver nem a metade
de um dia sem se preocupar com as leis da natureza; e milhares
de nós estão a morrer diariamente, ou vivendo miseravelmente,
porque os homens não têm sido suficientemente zelosos
para aprender o código da natureza.
A prática de todas as artes e indústrias depende
de nosso conhecimento sobre as propriedades dos objetos naturais;
e, embora não possamos exercer um controle direto sobre
os maiores objetos naturais e a sucessão geral de causas
e efeitos da natureza, se conhecermos, porém,as propriedades
e forças desses objetos,e a ordem costumeira dos eventos,poderemos
evitar muitos males e tirar partido daquilo que nos pode ser favorável.
Assim, embora o homem não possa alterar as estações
do ano ou mudar o processo de crescimento das plantas, tendo aprendido
a ordem da natureza com respeito a eles, prepara-se convenientemente
para a semeadura e colheita; não podendo evitar o raio,
torna-o inofensivo por meio de condutores, os quais são
construídos segundo os conhecimentos sobre a eletricidade
que conseguiu adquirir. ”Quem prevê, arma-se de antemão”,
diz o provérbio.
Observação, Experimento e Raciocínio.
Não há linha demarcatória entre conhecimento
comum das coisas e o pensamento científico, assim como
não há entre raciocínio comum e raciocínio
científico. A rigor, todo conhecimento preciso é
ciência. O método de observação e experimento
pelos quais tão grandes benefícios têm sido
obtidos da ciência é idêntico ao empregado
por todos no dia-a-dia—só que mais refinado e preciso.
Se dermos um novo brinquedo a uma criança, ela logo procederá
ao exame atento dele e o porá em ação para
conhecer suas propriedades. Do mesmo modo, estamos constantemente
a fazer observações e experimentos sobre uma coisa
ou outra.
Mas aqueles que nunca tentaram observar com precisão ficarão
surpreendidos com a dificuldade da empreitada. Não há
uma pessoa em cem que saiba descrever com exatidão a ocorrência
mais comum. Ou ela omitirá algo que de fato ocorreu e que
tem importância, ou tentará sugerir a ocorrência
de algo que ela não observou mas que,inconscientemente,inferiu
como tendo ocorrido.Quando dois indivíduos acareados numa
corte de justiça contradizem-se mutuamente,verifica-se
usualmente que um ou outro,ou algumas vezes ambos,estão
confundindo suas inferências do que pensam ter visto com
o que de fato viram.A jura que B lhe bateu a carteira.Ora,pode
dar-se que A apenas sentiu uma mão em seu bolso quando
B estava próximo a ele,e que este não seja de fato
o ladrão,e sim C,que não foi visto por A.Observadores
não treinados misturam suas inferências da maneira
mais inverossímil.
A observação científica, por sua vez, é
precisa, completa e isenta de qualquer inferência inconsciente.
Experimentar é observar o que acontece quando intencionalmente
juntamos ou separamos objetos naturais, ou de algum modo alteramos
as condições sob as quais eles foram colocados.
O experimento científico, portanto, é a observação
científica executada sob condições artificiais
conhecidas e de modo preciso. É fato corriqueiro, por exemplo,
que a água algumas vezes congela. A observação
torna-se científica quando nos certificamos sob quais condições
exatas a mudança da água em gelo acontece. A experiência
nos diz que a madeira flutua na água. O experimento científico
nos mostra que, ao flutuar, ela desloca o seu próprio peso
num volume da água.
O raciocínio científico difere do raciocínio
comum da mesma maneira que a observação comum difere
da observação experimental, isto é, pelo
fato desta última esforçar-se ao máximo para
ser exata. No raciocínio científico regras gerais
são coletadas da observação de numerosos
casos particulares; e,quando essas regras gerais estão
bem estabelecidas,as conclusões são deduzidas delas,
exatamente como em nossa vida cotidiana. Se um garoto afirma que
“o mármore é duro” é porque ele
extraiu a conclusão do mármore em geral, depois
de haver visto e sentido um sem número de pedras mármores
em particular; e a este raciocínio chamamos tecnicamente
de indução. Se ele declinasse da tentativa de quebrar
o mármore com os dentes, ele assim o faria por ter consciente
ou inconscientemente executado a operação inversa
da dedução, em virtude da regra geral: “os
mármores são demasiadamente duros para se quebrar
com os dentes”.
Pode-se aprender muito mais sobre o processo do raciocínio
quando se estuda Lógica—ciência que trata do
assunto em profundidade. Mas aqui é suficiente saber que
as leis são regras gerais a respeito do comportamento dos
objetos naturais, que foram coletadas de uma inumerável
série de observações e experimentos; ou,
em outras palavras, que elas são induções
dessas observações e experimentos. Os resultados
práticos e teóricos da ciência são
o produto do raciocínio dedutivo a partir dessas regras
gerais. Portanto, ciência e bom senso não se opõem
como as pessoas algumas vezes imaginam. O raciocínio científico
é tão somente mais cuidadoso que o raciocínio
comum, e o conhecimento comum transforma-se em conhecimento científico
à medida que ele se torna mais e mais exato e completo.Se
aprendermos como raciocinar com precisão baseados nessas
regras,chegaremos sempre a explicações racionais
sobre os fenômenos da natureza,os quais podem ser suficientes
para nos servir de guia nesta vida.
Resumo
e Tradução de Carlos Rezende, do seguinte livro
em domínio público:
(1) The Project Gutenberg EBook of Collected Essays, Volume V,
by T. H. Huxley
24/05/2008
This ebook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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