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Por
Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br
Definição da Lógica
A Lógica é a ciência que explica quais devem
ser as condições a fim de que uma proposição
possa ser provada,quando
ela admite prova.As proposições que declaram a igualdade
e desigualdade de números e magnitudes pertencem à
matemática, bem como a prova de suas proposições,
que são de ordem quantitativa.Todas as outras, a saber,
todas as de ordem qualitativa, como aquelas com as quais nos deparamos
numa conversa, as encontradas na literatura, na política
e mesmo nas ciências, desde que não sejam tratadas
matematicamente; proposições que simplesmente nos
dizem que alguma coisa acontece (o sal dissolve-se na água),
ou que algo possui uma certa propriedade (o gelo é frio),
podem receber tratamento lógico e suas proposições
enquadradas como verdadeiras, falsas ou duvidosas.Quando as proposições
são expressas de modo universal e definido, tal como acontece
com as declarações científicas, que se chamam
leis, e não sejam quantitativas, elas podem ser testadas
pelos princípios da Lógica, se admitem prova.Mas
este processo deve admitir, de saída, (1) fatos passíveis
de observação, (2) leis gerais chamadas "axiomas"
ou "princípios”, dos quais podemos apenas dizer
que não conhecemos exceções a eles e que
não está em nosso poder acreditar ou não
acreditar neles, e, ainda, que são indispensáveis
à ciência e ao pensamento consistente.Assim, a Lógica
pode ser brevemente definida como a ciência da prova com
respeito a leis e proposições qualitativas.
Caráter Geral da Prova
As provas podem estar em diferentes graus ou estágios de
completude. A prova absoluta pediria que uma proposição
aventada estivesse de acordo com toda experiência e com
toda explicação sistemática da experiência,
para constituir-se numa filosofia ou teoria geral do universo
que fosse autoconsistente; porém, como até agora
ninguém foi tão longe, devemos por ora nos contentar
com algo menos que uma prova absoluta. A Lógica, admitindo
certos princípios como verdadeiros a partir da experiência,
ou ao menos serem eles uma condição para o discurso
consistente, distingue as espécies de proposições
que se mostram de acordo com tais princípios, e explica
por quais meios essa concordância se efetuou. Tais princípios
são aqueles da Contradição, do Silogismo,
da Causação e das Probabilidades. Mostrar que uma
proposição ou um argumento não contradiz
os tais princípios admitidos, eis, em resumo, uma prova
Lógica. Sua extensão dependerá do objetivo
presente. Se quisermos meramente esclarecer uma dúvida
que nos ocorreu ou que foi apresentada por alguém, quase
sempre bastará apelar para a evidência que foi despercebida.
Assim, se uma pessoa duvida que "alguns ácidos são
compostos de oxigênio”, mas admite que "alguns
compostos de oxigênio são ácidos”, não
será difícil mostrar-lhe que ele está implicitamente
concordando com a primeira proposição quando assinalarmos
ou destacarmos que a primeira tem o mesmo sentido da segunda,
que uma difere da outra apenas na ordem em que estão as
palavras. Esta prova é chamada de inferência imediata.
Ou considere ainda este exemplo: suponha que uma pessoa exiba
na palma de sua mão um pedaço de metal amarelo e
que ele afirme ser tal objeto feito de cobre e que, de nossa parte,
duvidemos de sua crença e lhe sugerimos que é ouro
o que ele tem na mão. Para provar que estamos certos basta
dizer-lhe que o mergulhe em vinagre. Se ele se tornar verde é
sinal que é cobre e não ouro. Mas ao executarmos
a experiência, o metal não se torna verde; deste
modo, podemos apresentar o argumento do homem da seguinte maneira:
qualquer metal amarelo torna-se verde no vinagre; este metal amarelo
torna-se verde no vinagre; portanto, este metal amarelo é
cobre.
Tal argumento é chamado de prova por inferência mediata,
porque não podemos ver diretamente que o metal amarelo
é cobre, mas admite-se que qualquer metal amarelo é
cobre quando se torna verde no vinagre, e nos é mostrado
que este metal amarelo tem essa propriedade.
Prosseguindo, contudo, pode nos ocorrer que o líquido no
qual o metal foi mergulhado não era vinagre, ou não
era vinagre puro, e que o verde nele surgido fora devido a essa
impureza. Nosso amigo necessita mostrar por algum meio que o vinagre
era puro; e, então, seu argumento será este: desde
que nada além do vinagre esteve em contato com o metal,
o verde foi devido ao vinagre; ou, em outras palavras, que o contato
com o vinagre foi a causa de o metal tornar-se verde.
Mas eis que, pensando melhor, poderíamos suspeitar que
tivéssemos feito concessões demasiadas ao nosso
oponente, pois, embora se tivesse mostrado pela experiência
que o cobre se tornava verde no vinagre, enquanto que o ouro não,
poderia dar-se que isso não sucedesse sempre no futuro.
A isso nosso homem provavelmente objetaria não ser razoável
esperar que a uniformidade na causação se rompesse.
Ele poderia ainda acrescentar que em toda nossa vida dávamos
como certa tal uniformidade e que eu talvez estivesse a brincar
com ele. Mais: ele não via como provar para mim essa uniformidade
na natureza visto que todo argumento, afinal de contas, a supunha
como evidente. Bem, nosso amigo chegou aos limites da Lógica.
Assim como Euclides não tenta provar que "duas quantidade
iguais a uma terceira são iguais entre si”, do mesmo
modo nenhum lógico tenta provar a uniformidade de causação
e outros princípios de sua ciência.
Tal argumento é chamado de prova por inferência mediata,
porque não podemos ver diretamente que o metal amarelo
é cobre, mas admite-se que qualquer metal amarelo é
cobre quando se torna verde no vinagre, e nos é mostrado
que este metal amarelo tem essa propriedade.
Mesmo quando nosso propósito visa a alguma verdade geral,
os resultados de uma sistemática busca podem ter apenas
graus de certeza. Se a Lógica estivesse confinada à
estrita demonstração, ela cobriria um campo bem
estreito. Grande parte de nossas conclusões são
mais ou menos prováveis. Diz-se que muitas das conclusões
científicas estabelecem médias e não certezas
absolutas. Muitos assuntos só podem ser tratados estatisticamente
e pelos métodos do cálculo probabilístico.
Nossas crenças habituais são adotadas sem qualquer
exame metódico. Mas é uma característica
da mente racional distinguir graus de certeza e sustentar cada
julgamento com a confiança que ele mereça, considerando
as evidências pro e contra. O progresso em direção
à racionalidade toma muito tempo, exige de nós muita
autodisciplina, uma vez que constatamos a existência de
muitas crenças sem boas evidências em seu apoio.
Evidência, aliás, consiste de (1) observação;
(2) raciocínios conferidos pela observação
e pelos princípios lógicos; (3) memória--nem
sempre acurada; (4) testemunho--freqüentemente não
confiável, mas indispensável, desde que tudo que
aprendemos dos livros ou dos homens é tomado sob confiança;
(5) a concordância de todos os dados. Por outro lado, a
crença se dá por influências que nem sempre
fornecem boas evidências: tais como (1) desejo, que nos
leva a crer em tudo quanto serve a nossos propósitos; medo
e suspeição, que (paradoxalmente) nos levam a acreditar
naquilo que nos amedronta; (2) hábito, que resiste a tudo
que ameace nossos preconceitos; (3) vaidade, que se delicia no
pensamento de sua certeza e consistência e rejeita a falibilidade;
(4) imitação, sugestão, moda, ou tudo mais
que nos faz caminhar com a multidão. Tudo isso, e mais
algumas outras coisas mais nobres tais como amor e fidelidade,
fixam nossa atenção naquilo que parece apoiar nossos
preconceitos e impedir que fatos e argumentos os lancem por terra.
Divisão da Lógica
Duas divisões da Lógica são usualmente reconhecidas,
a dedução e a indução; as quais, se
as quisermos descrever brevemente, diremos que a primeira trata
das provas a partir de princípios e a segunda, de provas
a partir de fatos. A classificação é, algumas
vezes, considerada uma terceira divisão; outras vezes seus
tópicos estão distribuídos entre as duas
primeiras. Na presente obra trataremos primeiro da dedução,
depois da indução e, por último, da classificação.
Mas tais divisões não apresentam aspectos fundamentalmente
distintos e opostos da ciência, pois, ao discutirmos qualquer
questão com um oponente que faz afirmativas, pode ser possível
combater suas assertivas com argumentos meramente dedutivos. Entretanto,
em qualquer questão que envolva a verdade em geral, a indução
e dedução são mutuamente dependentes e uma
pode implicar a outra.
Isto pode ser entendido com os exemplos acima. Discutiu-se que
certo metal deve ser verde porque todo metal é cobre quando,
mergulhado em vinagre, torna-se verde. Até aqui a prova
apelou para uma proposição geral e, deste modo,
para a dedução. Mas quando perguntamos como obtivemos
a verdade da proposição geral, teremos que alegar
que as coisas são assim porque certos experimentos e fatos
as demonstraram, e aqui estaremos invocando a evidência
indutiva. Então, a dedução depende da indução.
Mas se nos perguntarem quantas experiências passadas são
suficientes para provar uma proposição geral, a
qual deve ser tão boa no futuro quanto no passado, o princípio
da uniformidade de causação estará sendo
invocado, ou, por outra, faz-se um apelo a princípios e,
portanto, requer-se uma prova dedutiva. Então, a indução
depende da dedução, dado que um fato nunca pode
provar outro, exceto ao ponto de o que é verdadeiro para
um, também o for para outro e de qualquer outro da mesma
espécie; e porque, para exibir esta semelhança dos
fatos, uma proposição geral deve ser declarada.
Utilidade da Lógica
Há controvérsia quanto à utilidade da Lógica.
Aqueles que não a estudaram, frequentemente sentem-se confiantes
em suas habilidades, e acham que podem passar sem ela; os que
a estudaram, sentem frequentemente certo aborrecimento com aquilo
que consideram ser uma análise superficial dos fundamentos
da evidência, ou a desnecessária tecnicalidade na
discussão de detalhes. Os que não a estudaram e
mesmo assim a desprezam, deveriam conhecer as razões que
militam a favor de seu estudo; finalmente, quanto aos que a estudaram
e dela se afastaram com desprazer, cada qual que a estudar o suficiente
para adquirir desembaraço com seu uso, será naturalmente
impelido a justificar ou não a atitude dos primeiros. Nesse
meio tempo, alinharemos alguns pontos a favor de seu estudo.
A Lógica declara, e de certo modo explica e aplica princípios
abstratos definidos, os quais são usados pelas outras ciências
como princípios evidentes por si mesmos; a saber, os axiomas
mencionados acima—o princípio da Contradição,
do Silogismo e da Causação. Estudando-os, exercitando-se
na compreensão dessas verdades, e aplicando-as a proposições
particulares, o estudioso educa o poder do pensamento abstrato.
Cada ciência é um modelo de método, uma disciplina
de pensamento rigoroso e conseqüente; e este mérito,
a Lógica o possui em elevado grau.
Por gerações a Lógica serviu de introdução
para a Filosofia, ou seja, para a Metafísica e para a Ética
especulativa. Tem ela descendência antiga e honorável:
quem estuda Lógica o faz em boa companhia. É a viga
mestra sobre a qual toda a Filosofia moderna, medieval e antiga
se apóia. Dificilmente se entenderá a história
do pensamento se a excluirmos.
Como ciência da prova a Lógica nos dá uma
explicação da natureza geral das evidências
dedutiva e indutiva. Seria absurdo o lógico querer instruir
o químico, o economista e o comerciante sobre o caráter
especial da evidência requerida em suas respectivas esferas
de julgamento. Contudo, ao investigar as condições
gerais da prova, o lógico põe todo homem em guarda
contra a insuficiência da evidência oferecida.
Uma aplicação da ciência da prova merece atenção
especial: a saber, a divisão da Retórica—aquele
que tem tido o maior desenvolvimento e que se relaciona com a
persuasão por meio da oratória, editoriais de jornal,
etc. Diz-se usualmente que a Lógica é útil
para convencer o juízo, mas não persuadir a vontade.
Porém, uma maneira de persuadir a vontade é convencer
o juízo de que um determinado curso de ação
é mais vantajoso do que outro; e,embora a alternativa escolhida
nem sempre seja aquela mais rápida para o objetivo que
se pretende,é a que proporciona resultados mais duradouros
e eficazes.A Lógica é espinha dorsal da Retórica.
Disputa-se também se a Lógica é ciência
ou se é arte; e, de fato, ela pode ser ambas as coisas.Como
declaração de verdades gerais,da relação
entre uma e outras,e especialmente com respeito aos princípios
primeiros,ela é ciência.Mas é arte quando,ao
considerar a verdade como a meta desejada,ela assinala alguns
meios de atingi-la—a saber,como seguir em frente com método,como
testar cada juízo de acordo com os princípios da
Lógica,e como desconfiar de tudo aquilo que não
for consistente com esses princípios.A Lógica ,em
primeiro lugar,não nos ensina a raciocinar.Aprendemos a
raciocinar do mesmo modo como aprendemos a andar e falar—com
o natural crescimento de nossas faculdades,ajudados por amigos
e vizinhos.O modo de desenvolver nossa capacidade de raciocinar
consiste em propor a nós mesmos problemas e tentar resolvê-los.Uma
vez que a resolução de problemas depende de nossa
habilidade em comparar casos semelhantes,uma pessoa deve aprender
tantos fatos quanto for possível e continuar a aprendê-los
pelo resto de sua vida,pois ninguém conhecerá em
excesso.Conhecidos os fatos pertinentes ao problema em perspective,devemos
submeter todos os resultados aos princípios da Lógica.É
em virtude dessa constante verificação,correção
que a Lógica é chamada por certos autores de ciência
normativa.Ela não pode dar a ninguém originalidade
ou fertilidade de invenção;mas ela nos capacita
a conferir nossas inferências,revisar nossas conclusões
e disciplinar os caprichos de uma especulação ambiciosa.Ela
alerta nossos sentidos para o raciocínio falho tanto nos
outros quanto em relação aos nossos.Qualquer um
que raciocina com deliberação terá mais chance
de corrigir seus erros depois de estudar a Lógica do que
antes de haver começado a estudá-la,dado que ele
seja sincero e tenha bom senso.
A relação da Lógica com as outras
ciências
A Lógica é considerada por Spencer como ciência
da mesma categoria que a Matemática, sendo ambas ciências
abstratas, qual seja, ciências das relações.
A Matemática trata das relações de toda espécie
de coisas enquanto quantidades, a saber, como igual a, maior ou
menor que outra.Coisas podem ser quantitativamente iguais ou desiguais
em grau, quando comparamos a temperatura dos corpos; ou em duração;
ou como magnitude espacial, quando consideramos as linhas, superficies,
sólidos; ou em número.Supõe-se que a igualdade
ou desigualdade que não possa ser diretamente comparada
possa ser provada indiretamente supondo que ‘coisas iguais
a uma mesma coisa são iguais’,etc.
A Lógica também trata das relações
de toda espécie de coisas, mas não com respeito
às suas quantidades.Ela admite (i) que uma coisa pode ser
semelhante ou dessemelhante a outra em certos atributos, assim
como o ferro é, de muitos modos, semelhante ao alumínio
ou ao chumbo, e, de muitos modos, dessemelhante ao carvão
ou ao enxofre. (ii) Que atributos coexistem ou não no mesmo
sujeito, como o brilho metálico, a dureza, um certo peso
atômico e uma certa gravidade específica no ferro.E
(iii) que um evento segue-se a outro (ou é o efeito de
outro), como o fato de colocar o ferro em água causar a
sua ferrugem.As relações de similaridade são
o objeto da Classificação; pois é pela parecença
de atributos similares que as coisas formam classes:.O objeto
dos juízos concernentes à Substância e aos
Atributos,como o do ferro ser metal;e a relação
de sucessão,em seu aspecto de causa,é a matéria
principal do ramo da Indução.É costume agrupar
essas relações de atributos e de ordem no tempo
e chamá-las de qualitativas,de modo a contrastá-las
com as relações quantitativas que pertencem à
Matemática.E assume-se que as relações qualitativas
de coisas quando não podem ser diretamente percebidas possam
ser provadas indiretamente pela admissão do axioma do Silogismo
e da lei de Causação.
Até aqui, portanto, a Lógica e a Matemática
parecem ser ciências coordenadas e distintas.Mas veremos
mais adiante que o tratamento satisfatório da ordem especial
de eventos no tempo, que constitui a Causação, requer
a combinação da Lógica com a Matemática,
terreno adequado da Probabilidade.E, mais uma vez salientamos,
diz-se que a Lógica, de certo modo, é ‘anterior’
ou está ‘acima’ da Matemática,pois esta
última assume que uma magnitude deve necessariamente ser
ou igual ou desigual com relação a outra,e que não
pode acontecer de ambas serem iguais e desiguais ao mesmo tempo,o
que leva à admissão dos princípios da Contradição
e do Terceiro Excluído,e a declaração e elucidação
desses princípios são prioridade da Lógica.
Com relação às ciências concretas,
tais como a Astronomia, a Química, a Zoologia, a Sociologia—a
Lógica está inplícita em todas elas,pois
todas elas possuem proposições que envolvem causação,coexistência
e semelhança de classes.Diz,portanto,que a Lógica
é ‘anterior’ a todas elas ou acima delas:significando
por ‘anterior’ não que ela devesse ser estudada
antes,pois tal plano não seria bom;significando por ‘acima’,não
que a Lógica seja mais digna,uma vez que distinções
de dignidade entre estudos liberais é um absurdo.Ser ‘anterior
a’ ou ‘acima de’é um modo de dizer que
o abstrato relaciona-se assim com o concreto.
A Lógica não investiga a verdade ou validade de
seus próprios princípios; nem o faz a Matemática.Esta
questão pertence à Epistemologia, isto é,
a crítica do conhecimentos e das crenças.
Resumo
e Tradução de Carlos Rezende, do seguinte livro
em domínio público:
(1) The Project Gutenberg EBook of Logic Deductive and Inductive,
by Carveth Read.
02/06/2008.
This ebook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away
or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License
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