Por Carlos Rezendea
cev.rezende@uol.com.br
A
oportunidade oferecida a uma parte do mundo ocidental--particularmente,
Espanha e Sicília--de tomar conhecimento das idéias
científicas da antiguidade através das traduções
dos árabes é algo que deve ser assinalado. De semelhante
caráter, e talvez mesmo um pouco mais pronunciado em grau
foi a influência dos refugiados bizantinos que, ao ser Constantinopla
ameaçada pelos turcos, migraram para o ocidente em considerável
número, trazendo com eles o conhecimento da literatura
grega e uma considerável quantidade de obras preciosas
que por séculos estiveram esquecidas ou absolutamente ignoradas
na Itália. Com isso, os eruditos ocidentais passaram a
tomar gosto da língua grega, que fora inteiramente negligenciada
desde o início da Idade Média. Histórias
interessantes são contadas acerca dos esforços feitos
por homens como Cosmo de Medici para obter domínio e posse
dos manuscritos clássicos. O renascimento do saber assim
obtido influenciou primeiramente os campos da literatura e da
arte, mas seus efeitos logo foram sentidos sobre a ciência.
Independentemente da influência bizantina, contudo, esforços
já se tinham efetuado para o melhoramento intelectual antes
do final do século 13. Um exemplo disso pode ser encontrado
num quase simultâneo desenvolvimento de centros de ensino
em universidades da Itália, França, Inglaterra e,
um pouco mais tarde, da Alemanha.
Da lista de estudos regulares que vieram a ser adotados em toda
parte, cinco eram os ramos, divididos em dois grupos--o chamado
quadrivium, compreendendo a música, a geometria, a aritmética
e a astronomia; e o trivium, que compreendia gramática,
retórica e lógica. A imprecisão de alguns
desses ramos deu margem a que professores ensinassem quase qualquer
outro conhecimento de que tinham a posse, mas, de qualquer maneira,
não se pode duvidar que, em geral, o quinhão de
ciência na grade curricular era bastante magro: quase que
só a astronomia de Ptolomeu. A completa falta do pensamento
científico e do método científico podem ser
ilustrados tomando-se as obras dos maiores pensadores desse período:
Alberto Magno, Tomás de Aquino, Boaventura, e outros luminares
menores do escolasticismo. Mas havia ao menos um homem contemporâneo
desses escolásticos cuja mente estava fortemente direcionada
para as questões científicas e cujos escritos estavam
estranhamente em desacordo, tanto no tom quanto no conteúdo,
com os dos outros acima mencionados. Este pensador era o monge
Roger Bacon.
Diz-se que Roger Bacon, o Doctor Mirabilis (Admirável doutor),
nascido aprox.em 1220, perto de Ilchester, Inglaterra, e morto
em 1292, possivelmente em Oxford, não foi apreciado em
seu tempo porque foi um cientista moderno vivendo numa época
obscurantista. Tal estimativa,no entanto,constitui uma manifesta
exageração dos fatos, embora possa haver um grão
de verdade nela. Seus conhecimentos certamente o puseram em contato
com os grandes pensadores de seu tempo e seus escritos o levaram
à prisão um sem número de vezes, pois era
de fato um pensador avançado para seu tempo, mas não
um cientista moderno.
Esteve várias vezes sob severa vigilância e proibido
de escrever pelo ministro geral dos franciscanos, ordem a que
pertencia--o que não o impediu de ser um escritor prolífico,
como pode ser demonstrado pelos numerosos livros publicados e
pelos manuscritos não publicados. Sua obra-prima é
o Opus Majus (Obra Maior). Na Parte IV desse livro ele tenta provar
que todas as ciências se apóiam na matemática;
e na Parte V, que trata da perspectiva, é de particular
interesse para os cientistas modernos, porquanto nela se discute
a reflexão e a refração, e as propriedades
dos espelhos e lentes. Escreveu uma gramática do grego
e começou outra do hebraico. Provou ainda que vários
textos da Bíblia estavam adulterados e muitas traduções
de Aristóteles erradas.
É fato que Bacon conhecia os escritos árabes de
Alkindi e Alhazen. Seus detratores o acusaram de falta de originalidade,
afirmando que suas invenções e descobertas eram
na verdade adaptações dos cientistas árabes.
É difícil dizer até onde essas críticas
são justificadas. O que é certo, contudo, é
que ele descreve a anatomia do olho com grande precisão.
A afirmativa de que Bacon pôs em uso o poder das lentes
na forma de óculos não pode ser provada.
O conhecimento sobre as lentes parece ser bem antigo, se considerarmos
as lentes convexas de cristal de rocha encontradas por Layard
em suas escavações em Nimrud. Entretanto, nada existe
que prove que os antigos as usavam para corrigir defeitos de visão.
Outra descoberta mecânica acerca da qual tem havido muita
controvérsia é a suposta invenção
da pólvora por esse sábio inglês. Em uma de
suas obras há uma passagem em que ele descreve todo o processo
de preparo de uma substância que,ao que tudo indica,trata-se
da pólvora. No entanto, é questão bem estabelecida
que por esse tempo os árabes já a conheciam, de
modo que não nos surpreende encontrar referencias a ela
em Bacon, porquanto é sabido que ele consultava com freqüência
os escritos dos cientistas árabes, como já dissemos.
Em resumo, o grande mérito de Bacon repousa nos princípios
por ele ensinados quanto aos modos de realizar experimentos científicos
e no aconselhar a atenta observação da natureza,
mais do que em invenções mecânicas. Outro
grande mérito seu era o firme propósito em desatar
todos os laços que nos prendiam à tradição.
Podemos dizer que pavimentou todas as estradas que conduzem a
todos os campos da inquirição científica.
Tinha o instinto do trabalhador científico, uma rara qualidade
em sua época.
Sobre a matemática disse: ”É a porta e chave
das ciências. Negligenciá-la é abastardar
todas as ciências”.
Resumo
e Tradução de Carlos Rezende, extraído do
seguinte livro em domínio público:
1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 2, by Williams
#2 in our series by Henry Smith Williams
10/02/2008
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