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Plínio o Velho, o expositor
Caius
Plinius Secundus é geralmente conhecido por Plínio
o Velho, para diferenciar seu nome do de seu sobrinho, Plínio
o Moço, também famoso escritor em outro campo
do conhecimento.
Há
um episódio interessante sobre um grande historiador
romano chamado Tito Lívio. Está ele no anfiteatro
em Roma quando, próximo a ele, um desconhecido que,ao
que tudo indicava,era proveniente das periferias das províncias
imperiais de Espanha fez uma saudação. Plínio
replicou-lhe: ”Então, você sem dúvida
já ouviu falar de meus escritos por lá”.
Ao que o estranho respondeu: ”Sem dúvida, você
deve ser ou o Tito Lívio ou o Plínio”.
A anedota ilustra a larga fama que o naturalista romano
conquistara já no seu tempo. E os registros históricos
da Idade Média atestam que sua popularidade não
diminuira naqueles tempos. De fato, a História Natural,
de Plínio, é um dos poucos escritos volumosos
da antiguidade que os copistas preservaram em sua integridade.
Ela é uma obra notável e eminentemente típica
de seu tempo e seu autor foi antes um industrioso compilador
do que gênio criativo. Nesse
seu aspecto particular, ela foi raramente igualada, tanto
mais que Plínio era um homem prático que ocupou
sua vida a lutar como soldado nas batalhas do império
romano. Ele compilou seu livro nas horas de ócio
roubadas ao sono, freqüentemente escrevendo à
luz das fogueiras de acampamento. Contudo, ele cita cerca
de quatro mil obras, as quais só conhecemos por suas
referências a elas. Sem qualquer dúvida, Plínio
adicionou muito pensamento próprio ao que escreveu.
Sabemos quão agudo era seu desejo de saber e investigar
uma vez que perdeu a vida na tentativa de aproximar-se da
cratera do Vesúvio, justamente na ocasião
em que uma memorável erupção sepultou
sob pedras e cinzas as cidades de Herculano e Pompéia.
A
vida errante de soldado, sem dúvida, ofereceu a Plínio
abundantes oportunidades para observações
pessoais em seus campos favoritos de estudo—botânica
e zoologia. Mas os registros de suas observações
estão de tal maneira misturados com os conhecimentos
obtidos de outros livros, que se torna difícil distinguir
uns dos outros. Mas nem isto importa muito, pois, quer como
estudioso de livros quer como naturalista de campo, a peculiaridade
mental de Plínio é essencialmente a do compilador.
Ele não foi pensador filosófico, generalizador,
abridor de novas sendas na ciência. Ele viveu no fim
de uma época de progressivo conhecimento; num daqueles
períodos estáticos em que incontáveis
observadores amontoam uma imensa quantidade de detalhes
que podem ser vantajosamente classificados em uma espécie
de enciclopédia. E essa enciclopédia é
a chamada História Natural, de Plínio. Trata-se
de uma vasta confusão de declarações
mais ou menos críticas em relação a
quase todo campo de conhecimento de sua época. As
descrições de plantas e animais predominam,
mas a obra como um todo teria sido bastante melhor se o
compilador fosse dotado de um maior espírito crítico.
Mas Plínio não conseguia furtar-se a qualquer
citação interessante com a qual se deparasse
em suas onívoras leituras, escudando-se um tanto
em equívocas expressões como: ”Diz-se
que”, ou “fulano e sicrano alegam que”.
Uma única ilustração será suficiente
para mostrar aquilo que ele considerava digno de ser repetido.
“Afirmam”, ele diz, ”que se o peixe chamado
estrela-do-mar for untado com o sangue da raposa e então
preso à parte superior de uma porta,ou à própria
porta,com uma tira de cobre,nenhuma magia nociva conseguirá
passar através dessa mesma porta”.
É facilmente compreensível que uma obra fortificada
com tais detalhes práticos tenha ganhado larga popularidade.
Sem dúvida, as nossas histórias naturais atuais
achariam mais facilmente leitores se tivessem que recorrer
a várias superstições não inteiramente
diferentes da mencionada. O homem, por exemplo, que acreditasse
que encontrar um gato preto em seu caminho o fizesse um
homem de sorte, seria naturalmente atraído por um
livro que dá abrigo a tais absurdidades. Como quer
que seja, o mais famoso cientista de Roma deve ser antes
lembrado como um escritor popular do que um trabalhador
experimental. Na história da difusão científica
sua história é importante; na história
dos princípios científicos, ela pode ser virtualmente
desprezada.
Cláudio Ptolomeu, o maior astrônomo
da antiguidade
Quase
a mesma coisa pode ser dita de Ptolomeu, um escritor ainda
mais celebrado, que nasceu não muito depois da morte
de Plínio. As datas exatas da vida de Ptolomeu não
são conhecidas, mas os registros de suas observações
estendem-se ao ano de 151 d.C. e, portanto, seu nascimento
se deu seguramente no século II da era cristã.
Ele foi matemático, astrólogo, geógrafo
e um astrônomo ativo, e fez ao menos uma descoberta
original significante—a saber, a observação
até então não registrada de um movimento
irregular da Lua, que veio a ser chamado de evecção.
Este consiste de periódicas aberrações
do movimento regular da Lua em sua órbita, devidas
à atração gravitacional do Sol, mas
que permaneceram inexplicadas até o aparecimento
de Newton. Também sobre os movimentos dos planetas
Ptolomeu fez observações originais. Ele tem,
portanto, um lugar respeitável como observador astronômico;
mas sua fama repousa principalmente em seus escritos.
Suas grandes obras estão relacionadas com a geografia
e astronomia. No primeiro campo, ele faz medições
de latitudes de não menos que cinco mil lugares,
assim pondo-se à frente de Estrabão. No campo
da astronomia seu grande mérito foi tornar conhecidos
os trabalhos de Hiparco. Ptolomeu tem sido acusado de apropriar-se
dos mapas estelares de seu grande predecessor sem o devido
crédito e, de fato, parece-nos difícil retirar-lhe
essa acusação. Na verdade, sua obra quase
que poderia ser chamada de uma exposição das
doutrinas astronômicas de Hiparco. Ninguém
pode fingir sequer que Ptolomeu foi um investigador tão
original quanto o observador de Rodes, mas como expositor
popular sua superioridade pode ser evidenciada pelo fato
de seus escritos se tornarem praticamente o único
compêndio astronômico da Idade Média,seja
no ocidente,seja no oriente, enquanto que os escritos de
Hiparco foram relegados ao olvido.
O mais notável dos escritos de Ptolomeu é
aquele que se tornou famoso sob o título arábico
de Almagesto. Esta obra é curiosamente derivada do
título em grego <gr h megisth suntazis>,”a
construção maior”,literalmente traduzido,um
nome dado ao livro para distingui-lo de uma obra de astrologia,em
quatro volumes,do mesmo autor.Por mera conveniência
de referência ele veio a ser chamado simplesmente
de <gr h megisth>,do qual os árabes derivaram
o título Tabair al Magisthi,sob o qual foi publicado
no ano de 827.Daqui vem a palavra Almagesto,que se tornou
comum entre os estudiosos árabes e,subsequentemente,entre
os europeus,quando o livro novamente se tornou conhecido
no mundo ocidental.O livro de Ptolomeu,como já foi
dito,é virtualmente uma reformulação
das doutrinas de Hiparco.Nele se afirma que a Terra está
fixa no centro do sistema solar,e que as estrelas e planetas
giram em torno dela a cada 24 horas.A Terra é esférica.
Ptolomeu não adotou a idéia heliocêntrica
de Aristarco, lamentavelmente. Na mesma obra, ele explica
também a construção do astrolábio,
instrumento inventado por ele para calcular a altura de
um corpo celeste acima da linha do horizonte.
O
Almagesto trata de todos os problemas da astronomia, mas
a característica que lhe deu maior fama tem a ver
com as questões das excentricidades e epiciclos;
a primeira, relacionada com a distância entre o centro
do mundo, a Terra, e do excêntrico, tudo menos a Terra;
e a segunda, relacionada com a pequena órbita circular
que cada planeta descreveria, o centro da qual se deslocaria
ao longo de uma outra órbita circular, com movimento
uniforme em torno da Terra.Ptolomeu e Hiparco provavelmente
não consideravam os epiciclos,ou esferas menores,como
reais e sim objetos ou caminhos imaginários que tentavam
explicar questões verdadeiramente complexas relativas
aos movimentos dos corpos celestes.Deve-se ter em mente
que ambas as questões foram expostas como hipóteses
de trabalho e nunca como certezas,e que foram as gerações
posteriores de estudiosos,que interpretaram suas teorias,
que conceberam as ditas esferas como corpos reais e cristalinos.É
difícil imaginar como os vários epiciclos
podiam se movimentar sem que suas órbitas interferissem
com as órbitas das esferas maiores.
Seja como for, os teólogos medievais acolheram as
doutrinas de Ptolomeu, que punham a Terra numa posição
privilegiada.
De acordo com os árabes, Ptolomeu morreu aos 78 anos
de idade.
X
O Sonho de Santa Úrsula, de Vittore Carpaccio
Por JOHN RUSKIN
Pelo
ano de 1869, pouco antes de deixar Veneza, estava eu a observar
um quadro de Vittore Carpaccio, que representa o sonho de
uma jovem princesa. O pintor esforça-se para nos
explicar a espécie de vida da princesa, ao pintá-la
em seu pequenino quarto à luz da alvorada, de modo
que possamos ver tudo nele. O quarto é iluminado
através de uma janela de arcos duplos, cujas beiradas
são de um vermelho carmesim.
A cama da princesa é um largo baldaquino, as colunas
são de um dourado belamente trabalhado, o brasão
está-lhe próximo à cabeça, e
os pés erguidos inteiramente acima do assoalho do
quarto, sobre uma plataforma que se projeta para o lado
inferior de modo a formar um assento, onde a moça
deixou sua coroa. Seus chinelinhos azuis estão ao
lado da cama—com o cãozinho branco a lhes servir
de guarda. A princesa tem 17 ou 18 anos, sua cabeça
está virada para nós sobre o travesseiro,
a face repousando numa das mãos, como se ela estivesse
a meditar, entretanto perfeitamente calma em seu sono.
À porta do quarto um anjo entra; (o cachorrinho,
embora deitado, mas desperto, nada vê.) Trata-se de
um anjo pequenino, a altura de sua cabeça elevando-se
apenas o suficiente para pô-lo ligeiramente acima
da cantoneira em torno do quarto, e alcançaria o
queixo da princesa, caso ela estivesse de pé.Tem
as asas suavemente acinzentadas, esbatidas; e sua vestimenta
de um azul esmaecido, de mangas cor de violeta, abertas
pouco acima dos cotovelos. Ele entra sem pressa, seu corpo
como o de um mortal, lança uma sombra produzida pela
luz que atravessa a porta por detrás; tem a face
perfeitamente tranqüila; um ramo de palmeira na mão
direita e um pergaminho na esquerda.
Resumos
e Tradução de Carlos Rezende, extraídos
dos seguintes livros em Domínio Público:
1)
Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 1, Henry
Smith Williams
2) The Project Gutenberg eBook, Great Pictures, As Seen
and Described by
Famous Writers, Edited by Esther Singleton
10/10/2007
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