A ciência entre os romanos Plínio o Velho e Ptolomeu


Por Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br


Plínio o Velho, o expositor

Caius Plinius Secundus é geralmente conhecido por Plínio o Velho, para diferenciar seu nome do de seu sobrinho, Plínio o Moço, também famoso escritor em outro campo do conhecimento.
Há um episódio interessante sobre um grande historiador romano chamado Tito Lívio. Está ele no anfiteatro em Roma quando, próximo a ele, um desconhecido que,ao que tudo indicava,era proveniente das periferias das províncias imperiais de Espanha fez uma saudação. Plínio replicou-lhe: ”Então, você sem dúvida já ouviu falar de meus escritos por lá”. Ao que o estranho respondeu: ”Sem dúvida, você deve ser ou o Tito Lívio ou o Plínio”.

A anedota ilustra a larga fama que o naturalista romano conquistara já no seu tempo. E os registros históricos da Idade Média atestam que sua popularidade não diminuira naqueles tempos. De fato, a História Natural, de Plínio, é um dos poucos escritos volumosos da antiguidade que os copistas preservaram em sua integridade. Ela é uma obra notável e eminentemente típica de seu tempo e seu autor foi antes um industrioso compilador do que gênio criativo. Nesse seu aspecto particular, ela foi raramente igualada, tanto mais que Plínio era um homem prático que ocupou sua vida a lutar como soldado nas batalhas do império romano. Ele compilou seu livro nas horas de ócio roubadas ao sono, freqüentemente escrevendo à luz das fogueiras de acampamento. Contudo, ele cita cerca de quatro mil obras, as quais só conhecemos por suas referências a elas. Sem qualquer dúvida, Plínio adicionou muito pensamento próprio ao que escreveu. Sabemos quão agudo era seu desejo de saber e investigar uma vez que perdeu a vida na tentativa de aproximar-se da cratera do Vesúvio, justamente na ocasião em que uma memorável erupção sepultou sob pedras e cinzas as cidades de Herculano e Pompéia.

A vida errante de soldado, sem dúvida, ofereceu a Plínio abundantes oportunidades para observações pessoais em seus campos favoritos de estudo—botânica e zoologia. Mas os registros de suas observações estão de tal maneira misturados com os conhecimentos obtidos de outros livros, que se torna difícil distinguir uns dos outros. Mas nem isto importa muito, pois, quer como estudioso de livros quer como naturalista de campo, a peculiaridade mental de Plínio é essencialmente a do compilador. Ele não foi pensador filosófico, generalizador, abridor de novas sendas na ciência. Ele viveu no fim de uma época de progressivo conhecimento; num daqueles períodos estáticos em que incontáveis observadores amontoam uma imensa quantidade de detalhes que podem ser vantajosamente classificados em uma espécie de enciclopédia. E essa enciclopédia é a chamada História Natural, de Plínio. Trata-se de uma vasta confusão de declarações mais ou menos críticas em relação a quase todo campo de conhecimento de sua época. As descrições de plantas e animais predominam, mas a obra como um todo teria sido bastante melhor se o compilador fosse dotado de um maior espírito crítico. Mas Plínio não conseguia furtar-se a qualquer citação interessante com a qual se deparasse em suas onívoras leituras, escudando-se um tanto em equívocas expressões como: ”Diz-se que”, ou “fulano e sicrano alegam que”. Uma única ilustração será suficiente para mostrar aquilo que ele considerava digno de ser repetido.

“Afirmam”, ele diz, ”que se o peixe chamado estrela-do-mar for untado com o sangue da raposa e então preso à parte superior de uma porta,ou à própria porta,com uma tira de cobre,nenhuma magia nociva conseguirá passar através dessa mesma porta”.

É facilmente compreensível que uma obra fortificada com tais detalhes práticos tenha ganhado larga popularidade.

Sem dúvida, as nossas histórias naturais atuais achariam mais facilmente leitores se tivessem que recorrer a várias superstições não inteiramente diferentes da mencionada. O homem, por exemplo, que acreditasse que encontrar um gato preto em seu caminho o fizesse um homem de sorte, seria naturalmente atraído por um livro que dá abrigo a tais absurdidades. Como quer que seja, o mais famoso cientista de Roma deve ser antes lembrado como um escritor popular do que um trabalhador experimental. Na história da difusão científica sua história é importante; na história dos princípios científicos, ela pode ser virtualmente desprezada.

Cláudio Ptolomeu, o maior astrônomo da antiguidade


Quase a mesma coisa pode ser dita de Ptolomeu, um escritor ainda mais celebrado, que nasceu não muito depois da morte de Plínio. As datas exatas da vida de Ptolomeu não são conhecidas, mas os registros de suas observações estendem-se ao ano de 151 d.C. e, portanto, seu nascimento se deu seguramente no século II da era cristã. Ele foi matemático, astrólogo, geógrafo e um astrônomo ativo, e fez ao menos uma descoberta original significante—a saber, a observação até então não registrada de um movimento irregular da Lua, que veio a ser chamado de evecção. Este consiste de periódicas aberrações do movimento regular da Lua em sua órbita, devidas à atração gravitacional do Sol, mas que permaneceram inexplicadas até o aparecimento de Newton. Também sobre os movimentos dos planetas Ptolomeu fez observações originais. Ele tem, portanto, um lugar respeitável como observador astronômico; mas sua fama repousa principalmente em seus escritos.

Suas grandes obras estão relacionadas com a geografia e astronomia. No primeiro campo, ele faz medições de latitudes de não menos que cinco mil lugares, assim pondo-se à frente de Estrabão. No campo da astronomia seu grande mérito foi tornar conhecidos os trabalhos de Hiparco. Ptolomeu tem sido acusado de apropriar-se dos mapas estelares de seu grande predecessor sem o devido crédito e, de fato, parece-nos difícil retirar-lhe essa acusação. Na verdade, sua obra quase que poderia ser chamada de uma exposição das doutrinas astronômicas de Hiparco. Ninguém pode fingir sequer que Ptolomeu foi um investigador tão original quanto o observador de Rodes, mas como expositor popular sua superioridade pode ser evidenciada pelo fato de seus escritos se tornarem praticamente o único compêndio astronômico da Idade Média,seja no ocidente,seja no oriente, enquanto que os escritos de Hiparco foram relegados ao olvido.

O mais notável dos escritos de Ptolomeu é aquele que se tornou famoso sob o título arábico de Almagesto. Esta obra é curiosamente derivada do título em grego <gr h megisth suntazis>,”a construção maior”,literalmente traduzido,um nome dado ao livro para distingui-lo de uma obra de astrologia,em quatro volumes,do mesmo autor.Por mera conveniência de referência ele veio a ser chamado simplesmente de <gr h megisth>,do qual os árabes derivaram o título Tabair al Magisthi,sob o qual foi publicado no ano de 827.Daqui vem a palavra Almagesto,que se tornou comum entre os estudiosos árabes e,subsequentemente,entre os europeus,quando o livro novamente se tornou conhecido no mundo ocidental.O livro de Ptolomeu,como já foi dito,é virtualmente uma reformulação das doutrinas de Hiparco.Nele se afirma que a Terra está fixa no centro do sistema solar,e que as estrelas e planetas giram em torno dela a cada 24 horas.A Terra é esférica. Ptolomeu não adotou a idéia heliocêntrica de Aristarco, lamentavelmente. Na mesma obra, ele explica também a construção do astrolábio, instrumento inventado por ele para calcular a altura de um corpo celeste acima da linha do horizonte.

O Almagesto trata de todos os problemas da astronomia, mas a característica que lhe deu maior fama tem a ver com as questões das excentricidades e epiciclos; a primeira, relacionada com a distância entre o centro do mundo, a Terra, e do excêntrico, tudo menos a Terra; e a segunda, relacionada com a pequena órbita circular que cada planeta descreveria, o centro da qual se deslocaria ao longo de uma outra órbita circular, com movimento uniforme em torno da Terra.Ptolomeu e Hiparco provavelmente não consideravam os epiciclos,ou esferas menores,como reais e sim objetos ou caminhos imaginários que tentavam explicar questões verdadeiramente complexas relativas aos movimentos dos corpos celestes.Deve-se ter em mente que ambas as questões foram expostas como hipóteses de trabalho e nunca como certezas,e que foram as gerações posteriores de estudiosos,que interpretaram suas teorias, que conceberam as ditas esferas como corpos reais e cristalinos.É difícil imaginar como os vários epiciclos podiam se movimentar sem que suas órbitas interferissem com as órbitas das esferas maiores.

Seja como for, os teólogos medievais acolheram as doutrinas de Ptolomeu, que punham a Terra numa posição privilegiada.
De acordo com os árabes, Ptolomeu morreu aos 78 anos de idade.

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O Sonho de Santa Úrsula, de Vittore Carpaccio
Por JOHN RUSKIN

Pelo ano de 1869, pouco antes de deixar Veneza, estava eu a observar um quadro de Vittore Carpaccio, que representa o sonho de uma jovem princesa. O pintor esforça-se para nos explicar a espécie de vida da princesa, ao pintá-la em seu pequenino quarto à luz da alvorada, de modo que possamos ver tudo nele. O quarto é iluminado através de uma janela de arcos duplos, cujas beiradas são de um vermelho carmesim.
A cama da princesa é um largo baldaquino, as colunas são de um dourado belamente trabalhado, o brasão está-lhe próximo à cabeça, e os pés erguidos inteiramente acima do assoalho do quarto, sobre uma plataforma que se projeta para o lado inferior de modo a formar um assento, onde a moça deixou sua coroa. Seus chinelinhos azuis estão ao lado da cama—com o cãozinho branco a lhes servir de guarda. A princesa tem 17 ou 18 anos, sua cabeça está virada para nós sobre o travesseiro, a face repousando numa das mãos, como se ela estivesse a meditar, entretanto perfeitamente calma em seu sono.

À porta do quarto um anjo entra; (o cachorrinho, embora deitado, mas desperto, nada vê.) Trata-se de um anjo pequenino, a altura de sua cabeça elevando-se apenas o suficiente para pô-lo ligeiramente acima da cantoneira em torno do quarto, e alcançaria o queixo da princesa, caso ela estivesse de pé.Tem as asas suavemente acinzentadas, esbatidas; e sua vestimenta de um azul esmaecido, de mangas cor de violeta, abertas pouco acima dos cotovelos. Ele entra sem pressa, seu corpo como o de um mortal, lança uma sombra produzida pela luz que atravessa a porta por detrás; tem a face perfeitamente tranqüila; um ramo de palmeira na mão direita e um pergaminho na esquerda.

Resumos e Tradução de Carlos Rezende, extraídos dos seguintes livros em Domínio Público:

1) Project Gutenberg Etext of A History of Science, V 1, Henry Smith Williams
2) The Project Gutenberg eBook, Great Pictures, As Seen and Described by
Famous Writers, Edited by Esther Singleton

10/10/2007
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