A Vida de Johnson


Por Carlos Rezendea
cev.rezende@uol.com.br

. A vida de Johnson
Por James Boswell

Quem foi Samuel Johnson?

Samuel Johnson (1709-1784) foi o célebre lexicógrafo inglês,o "pai do dicionário" tal como o conhecemos hoje--exemplificado em nossa língua pelo Aurélio--,além de escritor,crítico literário e ensaísta.Segundo David Crystal,renomado lingüista britânico,o dicionário de Johnson foi mais importante que o de seu predecessor,Nathaniel Bailey,porque as 40 mil palavras que o compunham “tinham o seu uso ilustrado pelos melhores autores desde a Era Elizabetana,sua seleção cobre uma mais vasta área do conhecimento e o critério lexicográfico é bastante sofisticado”.A obra pode ser considerada,portanto,ajunta o mesmo lingüista,”aquela que conferiu estabilidade” à língua inglesa,”se não no todo,pelo menos no que diz respeito à pronúncia das palavras,que é a mesma ainda usada atualmente”.
Tão famoso quanto ele só a biografia que sobre ele escreveu seu amigo Boswell.Famosas também são as suas conversações no Literary Club (fundado em 1764),muitas das quais foram registradas.
Há dias li um jornalista deplorar quão pouca é a quantidade de livros clássicos do latim e grego traduzida para o português,em comparação com o número de títulos dessas mesmas línguas traduzidos e publicados em inglês e francês.Mas isso não é nada,quando sabemos de obras extraordinárias dos idiomas modernos que ainda não foram traduzidas para o nosso.
A vida de Johnson,de James Boswell,é um caso.De tanto esperar pela tradução,ainda que fosse da edição condensada,perdi a paciência e resolvi eu próprio traduzi-la,mesmo que de menos de 1% da obra.A completa comporta 6 volumes .Vali-me de uma edição condensada por Charles G.Osgood,também em domínio público,no site www.Gutenberg.net.
Se ele não prestar,serei duplamente culpado--da tradução e do resumo.
Vamos a ela.



Samuel Johnson nasceu em Lichfield,no Staffordshire,em 18 de setembro de 1709.Seu pai,Michael Johnson,era de Derbyshire,de origem obscura,estabelecido em Lichfield como dono de livraria e papelaria.Sua mãe,Sarah Ford,descendia da pequena burguesia rural de Warwickshire.

O sr.Michael Johnson era um homem grande e robusto,de mente forte e ativa.Entretanto,havia nele uma mistura de doença de cuja natureza os sinais mais evidentes eram um cansaço da vida,um descaso pelas coisas que formam quase toda condição humana, e uma sensação geral de lúgubre desolação.Dele,pois,seu filho herdou,a par com certas boas qualidades,essa "vil melancolia".

Quando um certo dr Sacheverel esteve em Lichfield,Johnson não teria bem os seus três anos de idade.Meu avô Hammond observou-o na catedral empoleirado nos ombros do pai,ouvindo de boca aberta como que em estado de estupefação o mui celebrado pregador.O sr Hammond indagou do sr Johnson para que ele trazia consigo uma criança que certamente não estaria entendendo patavina,no meio de toda aquela multidão.Recebeu por resposta que era impossível manter seu garoto em casa,pois ele deixara-se contagiar pelo espírito público e zelo exibidos por Sacheverel;e mais,que o pequeno ficaria para sempre na igreja,satisfeito na contemplação do grande homem,se sua vontade não fosse contrariada.

Nem bem deixou o camisolão de criança, aprendeu Johnson a ler e,certa manhã,tendo sua mãe lhe passado o livro de orações,com esta exortação:"Sam,você tem de aprender isto de cor e salteado",enquanto subia a escada para o segundo andar da casa,a boa senhora ouviu-o a seguir-lhe os passos,e perguntou-lhe:"Qual o problema?",ao que seu filho lhe respondeu:"Já sei tudo",e repetiu-lhe de memória a página do dia,embora não a pudesse haver lido nem ao menos duas vezes.

Os primeiros ensinamentos de inglês,ele os recebeu da Srª Oliver,uma viúva que mantinha uma escola para crianças.Disse-me ele que ela só conseguia ler livros que tivessem o tipo de letra em negrito e,assim,pediu a ele que intercedesse junto ao seu pai,livreiro,de modo que lhe fosse emprestada uma Bíblia editada do mesmo modo.Quando,mais tarde, deixou Lichfield por Oxford,esta senhora,na sua simplicidade de boa alma,deu-lhe de presente um pão de mel e lhe jurou que ele fora o melhor aluno que ela jamais tivera.Johnson sorria deliciado com esse reconhecimento e ajuntava:”Foi a mais elevada prova de meus méritos que já recebi”.Mas antes disso teve um outro instrutor de inglês, um certo Tom Brown,o qual publicara uma cartilha de soletrar com uma dedicatória ao Universo—“temo,porém,que nenhuma cópia dela possa ser obtida hoje.”

Sua superioridade intelectual sobre seus camaradas patenteou-se desde muito cedo.Parecia aprender tudo por mera intuição.Jamais um professor precisou corrigi-lo.Muito embora indolente e procrastinador,quando resolvia agir, ninguém lhe tomava a dianteira.Com mentalidade inquisitiva,tinha ainda a memória tão pronta que bastava que lhe lessem dezoito versos para ele logo os repetir tintim por tintim.

Nunca se juntava a seus colegas nas diversões habituais.Seu único divertimento era no inverno,quando deixava que lhe passassem uma tira ao redor da barriga e assim o arrastassem por sobre o gelo,de pés descalços.Tal operação não era nada fácil, visto possuir uma constituição física notavelmente avantajada.Talvez sua pobre visão o impedisse de praticar esportes.Por outro lado,o Dr.Percy,bispo de Dromore,lamenta seu prazer imoderado pelos romances de cavalaria—hábito extravagante que o acompanhou pela vida afora e ao qual ele atribuiu o fato de lhe haver tornado a mente tão esquisita ao ponto de lhe impedir de dedicar-se a qualquer profissão .

Que um homem nas circunstâncias do sr Michael Johnson mandasse seu filho estudar na cara Universidade de Oxford,eis um ponto que me parece bastante improvável.Mas nunca questionei o filho sobre assunto tão delicado.Asseguram-me que um cavalheiro de Shropshire,um dos colegas de Johnson,espontaneamente tomou a si a tarefa de lhe custear os estudos na condição de seu companheiro de alojamento.Assim foi ele para Oxford.

Distinguiu-se logo na primeira tarefa que lhe passaram,isto é,a tradução para o latim de O Messias,de Pope.Ele a executou com tanta rapidez e de modo tão perfeito,que tal façanha lhe granjeou a admiração de todos,tornando-se uma figura bastante conhecida em Oxford, desde então.

Mais ou menos pela mesma época,a "vil melancolia",que se escondia nos refolhos de sua constituição,o atacou.Enquanto esteve em Lichfield,a passar as férias,sentiu-se inteiramente arrasado pela hipocondria,que o assaltou juntamente com uma perpétua irritação,mau humor e impaciência,e ainda um lúgubre desespero,que fez de sua existência um fardo insuportável.Desta sinistra doença nunca mais conheceu alívio;e todos os seus labores,todos os seus prazeres nada mais foram do que interrupções desta maligna influência.Quão insondáveis são os caminhos do Senhor!Johnson,que foi bafejado com todas as potências do gênio,estava ao mesmo tempo sob o guante implacável desta desordem tão aflitiva.Tentou dominá-la de várias maneiras.Por exemplo,ia a pé até Birmingham e voltava,como um lunático furioso.Nada tendo lhe valido,consultou o dr Swinfen,médico em Lichfield e seu padrinho,antes lhe enviando uma carta,escrita em latim,onde expunha todas as particularidades da moléstia que o atormentava.O dr ficou verdadeiramente espantado com a extraordinária acuidade,pesquisa e eloqüência reveladas na tal carta--tanto,tanto ao ponto de a mostrar a várias pessoas.Johnson ficou sumamente ofendido com este comportamento do dr Swinfen e nunca mais se reconciliou com ele.

Não obstante,que fique declarado de uma vez por todas que o dr Johnson sofria do mal que o erudito,filosófico e pio dr Cheyne tão bem descreveu em livro com o título de "A enfermidade inglesa:hipocondria”.

Johnson,porém,afirmava de si próprio que sofria de loucura.Contudo,há que fazer uma distinção entre uma desordem que afeta a imaginação e o humor e outra que afeta a ambos e também o juízo,e este último sempre foi preservado,manteve-se intacto em Johnson.Aliás,uma vez tive uma conversa com o Prof.Gaubius,de Leyde,médico do príncipe de Orange,que se expressou assim:"Se um homem me diz estar intoleravelmente perturbado porque vê um patife vindo a seu encontro de espada desembainhada e ao mesmo tempo me diz estar cônscio de que tudo é ilusão,eu lhe digo que é portador de uma desordem da imaginação;porém,se outro me diz que vê a mesma cena do primeiro e muito consternado me implora para ajudá-lo a combater o inimigo,meu diagnóstico deste segundo homem é: loucura,nem mais nem menos."Mas para Johnson,cujo gozo supremo era o exercício da razão,qualquer distúrbio que ainda de leve a obscurecesse,era o pior inimigo a ser enfrentado,aquele que poderia lançá-lo na loucura completa e irreversível.

Em 1731, Johnson deixa Oxford,sem completar os estudos.O amigo que lhe pagava os estudos,deixou de fazê-lo.O sr Michael estava em estado de insolvência--e pouco depois veio a falecer.Nestas circunstâncias,Johnson aceitou vários empregos até se casar com a viúva Porter,a qual me informou que a aparência de Johnson,quando se conheceram,era bastante sombria: magro e alto,de imensa estrutura óssea,com marcas de escrófula bastante visíveis,cabelos espetados,duros e separados atrás,sacudido por estremecimentos convulsivos e gesticulações muito esquisitas--enfim,tudo combinando para excitar a surpresa,o ridículo.A srª Porter,entretanto,ao entabular conversa com ele,sentiu-se bem ao ponto de esquecer sua desvantagem física:"é o homem mais sensível que já vi em toda minha vida",disse ela.

Como já disse,casaram-se e Johnson abriu uma escola próxima de sua cidade natal,onde ensinava grego e latim.Os únicos jovens que apareceram foram o mais tarde célebre ator David Garrick,que depois se tornou seu amigo, e seu irmão George.Mas não demorou muito para Johnson se aborrecer de sua ocupação.E quanto aos pupilos,morriam de rir das maneiras absurdas do mestre,de sua gesticulação insólita,e da desajeitada efusão amorosa dos recém-casados.Garrick descrevia a srª Johnson como "muito gorda,de seios protuberantes além do normal,bochechas algo inchadas e de um flórido vermelho, provocados por pesada maquiagem,vestidos farfalhantes e fantásticos,e afetada tanto no falar quanto no modo de comportar-se."

Johnson acabou com a escola perto de Lichfield e mudou-se para Londres,em 1737,para tentar a vida como escritor ou jornalista.A srª Johnson ficou em Lichfield,aguardando que seu marido a chamasse mais tarde.

Uma circunstância memorável é que seu discípulo Garrick resolve juntar-se a ele,com a intenção de estudar Direito, mas logo mudando de idéia e decidindo-se pelo palco,como ator.

Nada conseguindo em Londres,Johnson volta a Lichfield,onde termina a tragédia Irene,após o que,retorna a Londres,desta vez com a esposa.


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Em fevereiro de 1764 é criado o The Literary Club.Sir Joshua Reynolds teve o mérito de ser o primeiro a propor a sua fundação.Nele se reuniam alguns dos mais eminentes ingleses da época.

O ano de 1747 é notável,pois foi quando Johnson anunciou ao mundo a sua intenção de publicar o Dicionário da Língua Inglesa.Certo dia o dr Adams encontrou-o ocupado com seu Dicionário,e entabularam uma conversa:ADAMS:Esta é uma grande obra,caro sr.Como fará para conseguir todasasetimologias?JOHNSON: Ora,sr.,tenho aqui uma prateleira com o Junius e Skinner, e um cavalheiro galês manda-me provérbios. Para as etimologias teutônicas,tenho um grande débito com os dois.Junius é sempre cheio de erudição e Skinner de retidão de conhecimento. ADAMS: Mas,sr,como o fará em três anos,se a Academia da França,composta de 40 membros,levou 40 anos para compilar o dicionário deles?JOHNSON:Sr,não tenho a menor dúvida que o terminarei em 3 anos.Veja a proporção: 40 vezes 40 são 1600.Ou seja,é de 3 para 1600 o valor dos ingleses para os franceses.

Para a parte meramente mecânica do empreendimento empregara 6 copistas.E sempre os tratou com bondade,socorrendo-os quando necessitavam.Por exemplo,o mais velho deles,sr Macbean,teve a honra de ser o bibliotecário do Duque de Argyle por vários anos,mas terminou sem um vintém.Johnson então escreveu o prefácio de uma obra intitulada Sistema de Geografia Antiga,e lhe remetia os rendimentos dele;depois,conseguiu,através de Lord Thurlow,que fosse admitido em um asilo para pobres.

Perguntei-lhe uma vez por que meios e caminhos tinha ele conseguido reunir tão assombrosos conhecimentos de nossa língua.Disse-me: "Nada mais foi do que o efeito de um estudo particular, autodidata; ele se desenvolveu insensivelmente dentro de mim."

O Dicionário,com uma Gramática e História da Língua Inglesa,em dois grossos fólios,era o objeto da admiração de todos,que se perguntavam como tal maravilha pôde ser feita.Tudo nele assombra.Acredito,por exemplo,que poucas são as composições em inglês que se lêem com mais deleite que o seu Discurso Preliminar.Uma de suas excelências é a clareza com que ele expressava noções científicas abstratas.A leitura extensiva era absolutamente necessária para a acumulação de várias opiniões autorizadas--o que requeria uma mente altamente dotada de capacidade de julgar o que era o melhor,o que devia ficar na retentiva para depois ir para o papel,uma mente que se enriquecia com uma vastíssima provisão de conhecimento e os meios de expressá-lo da forma mais agradável, sem perda da exatidão.Sir Joshua Reynolds ouviu-ou dizer:"Há duas coisas que confio poder fazer muito bem: uma é a introdução para qualquer obra literária,declarando o que pode ser encontrado nela,e como ela devia ter sido executada da maneira mais perfeita;a outra coisa é a conclusão,mostrando através de várias causas por que a execução não foi igual ao que o autor prometera a si e a seu público."

Em 1779,Johnson deu ao mundo uma prova luminosa de que o vigor de sua mente,com todas as suas faculdades--memória,julgamento,ou imaginação--não sofrera nenhum decréscimo;pois este ano apareceu o primeiro dos quatro volumes de seus prefácios biográficos e críticos dos mais eminentes poetas ingleses.Os outros vieram em 1780.

No mês de janeiro de 1759,morreu sua mãe aos 90 anos,um evento que o afetou profundamente:"Meu reverente afeto por ela não se abateu com os anos.Quisera ter podido visitá-la mais vezes,mas estive tão engajado em trabalhos literários em Londres..."

O sr.Levet hoje me mostrou a biblioteca de Johnson.Encontrei muitos livros bastante empoeirados e em grande confusão.O assoalho estava cheio de folhas manuscritas,com caligrafia do dicionarista, que examinei com cuidado e veneração, pensando que talvez pudesse por as mãos em alguns pedaços do The Rambler ou do Rasselas.Observei um aparato para experimentos de química,da qual Johnson fora um aficionado.O local parecia bem favorável para um retiro de meditação.

Meus pais não foram felizes em seu casamento. Eles raramente conversavam.; pois,meu pai não podia suportar falar de seus negócios e minha mãe,não tendo familiaridade com os livros,nada sabia a respeito deles. Fosse minha mãe mais dada a literatura,e eles teriam muito de que falar.
No dia em que Johnson morreu,a filha de um amigo pediu a seu criado Francis que consultasse seu patrão para saber se ela poderia ser admitida em sua presença e receber sua benção.Foi admitida no quarto do enfermo.Johnson,ao saber de quem se tratava,virou-se lentamente na cama e lhe disse: ”Que Deus a abençoe,minha cara”. Estas foram suas últimas palavras.Sua dificuldade de respirar agravou-se no decorrer da noite e,por volta das sete horas, os que estavam no quarto observaram que o ruído que ele fazia ao respirar tinha cessado.Aproximaram-se mais de sua cama e constataram que havia morrido.

Seu funeral foi testemunhado por um respeitável número de amigos, particularmente pelos membros do Clube Literário que se encontravam na cidade.

The Project Gutenberg EBook of Life of Johnson, by James Boswell

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Title: Life of Johnson
Abridged and Edited, with an Introduction by Charles Grosvenor Osgood
Author: James Boswell


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Resumo e tradução de Carlos Rezende





 

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