A Última Ceia, por Goethe


Por Carlos Rezendea
cev.rezende@uol.com.br

Os meios de que o artista se utilizou para despertar os sentimentos, para agitar a tranqüila e sagrada mesa da Ceia foram as palavras do Mestre: ”Há um entre vós que Me trairá”.Ditas as palavras e todos à mesa caem em profunda consternação;mas Ele inclina Sua cabeça,abatido;toda Sua postura,o movimento dos braços,das mãos e tudo o mais repete com celestial resignação aquilo que o próprio silêncio confirma:”Em verdade existe um entre vós que Me trairá”.
Queremos assinalar um grande recurso pelo qual Leonardo deu enorme vida ao quadro: o movimento das mãos; somente um italiano o faria. Na Itália, todo o corpo humano ganha expressão, todos os membros tomam parte no descrever uma emoção, não somente uma paixão,mas também o pensamento.Por vários gestos o italiano pode expressar:”Que tenho eu com isso?”—“Venha cá!”—“Este aqui é um patife!Tenha cuidado com ele!”,etc.A essa característica de toda uma nação,Leonardo,que tudo observava em seus mínimos detalhes,mais do que nunca pôs em exercício o seu olhar pesquisador;nisto essa pintura é única e nunca será demasiado observá-la.A expressão de cada face e de cada gesto está em perfeita harmonia.
As figuras em ambos os lados do Senhor podem ser consideradas em grupos de três, e cada grupo pode ser considerado uma unidade, embora sem perder jamais a relação com o todo. Imediatamente à direita de Cristo estão João, Judas e Pedro.
Pedro, o mais afastado, ao ouvir as palavras do Senhor, levanta-se subitamente atrás de Judas, em conformidade com a veemência de seu temperamento. Judas, ao erguer os olhos e torcer o corpo, com o semblante estarrecido, apóia-se na mesa, agarrando com firmeza o saco de dinheiro com a mão direita, enquanto que, com a esquerda, faz um nervoso movimento involuntário tal como se quisesse dizer: ”Que significa isto? O que está para acontecer?”
Pedro, entrementes, com sua mão esquerda já agarrou o ombro direito de João, o qual se dobra em direção a ele, Pedro, que aponta o dedo para Cristo e ao mesmo tempo incita o discípulo amado a perguntar: ”Quem é o traidor?”. Pedro acidentalmente toca o lado direito de Judas com o cabo de uma faca mantida em sua mão direita, o que ocasiona o movimento aterrorizado de Judas para frente, derrubando o saleiro da mesa, posto em cena de modo tão feliz e apropriado. Este grupo de três pode ser considerado como o primeiro a surgir no pensamento do artista, e é também o mais perfeito.
Enquanto que do lado direito do Senhor se nota certo grau de emoção que parece desejar uma vingança imediata, do seu lado esquerdo o mais vivo horror e abominação da traição se manifestam nos outros discípulos.Tiago,filho de Zebedeu, recua em sobressalto,braços estendidos e cabeça inclinada,olhar transfixado de quem tenta imaginar o que seus ouvidos há pouco captaram.Tomé,aparecendo por trás de seus ombros,levanta o indicador quase até a testa,com sua mão direita aproximando-se de seu Salvador.Filipe,o terceiro deste grupo,executa um movimento de rotação da maneira mais cativante;levanta-se,inclina-se para frente em direção ao Mestre,mantém suas mãos contra o peito,e fala com clareza:”Não sou eu,Senhor,sabeis bem disso.Conheceis a pureza de meu coração,não sou eu.”
E agora as três últimas figuras desse lado dão-nos material novo para reflexões. Eles estão a discutir as terríveis novas. Mateus volta sua face com ansiedade para os seus dois companheiros à sua esquerda, rapidamente estendendo suas mãos para o Mestre, e assim, por um admirável artifício de consumado artista, Mateus se torna o ponto de ligação de seu grupo com o grupo precedente.
Tadeu exibe a máxima surpresa, a dúvida, a suspeição; sua mão esquerda descansa sobre a mesa enquanto ele ergue a direita como quem fosse bater o dorso desta última contra o côncavo da outra, uma ação bastante comum entre a gente simples do povo quando diante de alguma ocorrência não esperada: ”Não disse a vocês?! Eu sempre tive as minhas suspeitas!”—Simão senta-se em uma das extremidades da mesa, com grande dignidade, e vemos toda a sua pessoa; é o mais velho de todos e usa uma vestimenta de ricos refolhos, sua face e gesto mostram que está aborrecido e pensativo, mas não agitado, de fato, nem muito comovido.
Vejamos agora a outra extremidade da mesa.
Vemos Bartolomeu, que descansa o corpo no pé direito, tendo o esquerdo cruzado sobre ele, suportando seu corpo inclinado ao firmar ambas as mãos na mesa. Provavelmente está tentando ouvir o que João irá perguntar ao Mestre: aliás, todas as figuras desse lado parecem estar incitando o discípulo favorito. Tiago, filho de Alfeu, estando próximo e atrás de Bartolomeu, põe sua mão esquerda no ombro de Pedro, assim como Pedro põe a sua no ombro de João,mas Tiago pede explicação de modo suave, ao passo que Pedro já ameaça vingar-se.
E,assim como Pedro está atrás de Judas,assim Tiago estende sua mão por trás de André, o qual, sendo uma das figuras mais expressivas do quadro, com seus braços meio erguidos e as mãos ambas para frente, bem visíveis, parece estar petrificado de horror.

Resumo e Tradução de Carlos Rezende, extraído do seguinte livro em domínio público:
1) The Project Gutenberg eBook, Great Pictures, As Seen and Described by Famous Writers, Edited by Esther Singleton.
12/01/2008.
This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or on-line at www.gutenberg.org

 

 



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados