ENTREVISTA COM ALACIR ARAÚJO SILVA




A nossa entrevistada é a professora  Alacir de Araújo Silva,  professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo e atualmente Diretora e proprietária da Faculdade Sabares. A professora Alacir  defendeu recentemente na USP a sua Tese de Doutorado intitulada: Memória e identidade: o Colégio de Calçado 1939-1958: da fundação à encampação. Nesta entrevista a professora Alacir fala sobre o seu trabalho, sobre o Colégio de Calçado   e um pouco de sua vida em Calçado.

 

O Broinha: Professora fale um pouco de sua trajetória de vida: da infância e Juventude em Calçado a sua vinda para Vitória, para que os nossos leitores possam conhecê-la um pouco melhor.

Professora Alacir: Minha infância foi em São Benedito, onde nasci e cursei o primário.  Meu pai, Alcebíades Gonçalves de Araújo Silva, homem de visão e autodidata, proporcionou aos filhos oportunidades educacionais às quais ele, por circunstâncias da vida, não teve muito acesso.  Conhecedor das qualidades e necessidades do município, lutou muito junto aos poderes municipais para proporcionar, principalmente, para São Benedito melhores condições de vida, em termos de infra-estrutura, educação e saúde.

Após o primário em São Benedito, fiz exame de admissão para ingressar no Ginásio de Calçado e, tendo alcançado êxito, iniciei o curso ginasial. Como minha família não morava na sede do município, fiquei no internato até o final desse curso.

O primeiro ano do Curso Científico foi feito em Mimoso do Sul. Mas as saudades de casa e do ambiente do Colégio de Calçado me levaram a fazer o caminho de volta. Retornei, pois, ao Colégio de Calçado onde terminei o científico. À essa época minha família já se mudara para a sede do município, a fim de que todos os filhos pudessem estudar.
Terminado o Científico, fui para o Rio de Janeiro, onde cursei Letras, na Universidade Santa Úrsula. Retornei a Calçado e ao Colégio, na condição de professora, onde tive oportunidade de compartilhar saberes com a comunidade e vivenciar experiências docentes muito gratificantes. Dois anos depois, voltei ao Rio de Janeiro e de lá fui residir em Vitória, em 1971, após meu casamento.

Na capital, fui professora em escolas estaduais assim que cheguei. Depois, fiz concurso e ingressei na Universidade Federal do Espírito Santo, espaço de muito crescimento profissional, em termos de sala de aula, pesquisa e extensão. Como professora da UFES, ministrei, também, cursos em cidades do interior do estado, o que me permitiu  aprimorar conhecimentos com as professoras e alunos do interior.
 
 Em 1991, com as ameaças do governo Collor, houve esvaziamento nas universidades federais, levando muitos professores à aposentadoria.  E, seguindo essa corrente, aposentei-me na UFES com grande pesar. O magistério sempre foi para mim uma paixão. Mas, como estava muito ligada às questões educacionais, percebi que ainda poderia contribuir com a educação nesse país. Continuei trabalhando, ministrando palestras, cursos de extensão, de pós-graduação e de atualização.

Sentindo a necessidade de ampliar o espaço de aprendizagem/ensinagem, vislumbrei, então, a Faculdade Saberes, fruto de meu ideal como educadora.

O Broinha: Professora, como surgiu a idéia de fazer uma tese de doutorado sobre o Colégio de Calçado?

Professora Alacir:Como a educação sempre fez parte de minha vida, o Colégio de Calçado constituía referência em minhas memórias. Lembrava-me muito dos anos dourados ali vividos e do encantamento que o educandário proporcionava.  Porém, me instigava o fato de esse colégio ter sido tão marcante para os alunos que estudaram no período 1939-1958, administrado pela D. Mercês.
A partir disso, nasceu o interesse pela pesquisa. Eu queria compreender o que levou o colégio a ser uma referência de qualidade, padrão Pedro II, naquela época.  Para isso, busquei respostas para as seguintes questões:

  1. as imagens construídas sobre o Colégio de Calçado por ex-alunos, ex-professores e ex-funcionários estão relacionadas à proposta educacional do período compreendido entre 1939-1958?
  2. que elementos podem ser observados na gestão da escola que possibilitaram ao colégio ser considerado uma instituição de referência de qualidade, equiparada aos parâmetros educacionais exigidos à época, cujo modelo era o Colégio Pedro II?
  3. Os elementos, referidos em b, se presentificam no imaginário dos sujeitos que vivenciaram a escola no período estudado?

Para responder a essas questões, o estudo sobre o Colégio de Calçado, período 1939-1958, gestão Mercês Garcia Vieira, analisou a legislação educacional vigente no período estudado, as práticas educativas da instituição, a imagem formada pelos atores, bem como os postulados teóricos sobre narrativa, autobiografia, história oral, educação, memória e história, os documentos da instituição pertinentes ao tema, e outras fontes relativas ao colégio, tais como livros, jornais, fotos, memórias.
Para alcançar parte desses objetivos, foram realizadas 20 (vinte) entrevistas, semi-estruturadas, que visavam ao registro de memórias de ex-alunos, ex-professores e ex-funcionários, no período compreendido entre 1939-1958, gestão Mercês Garcia Vieira. Também uma (auto) biografia faz parte das memórias sobre o colégio.
A intenção de registrar a voz desses atores da instituição se deveu ao interesse de buscar a memória pessoal sobre o Colégio de Calçado, símbolo da cidade e, a partir daí, alcançar a memória social, familiar e grupal, de outras fontes, em virtude do pouco material que se tem sobre esse educandário. Os registros, em sua maioria, sobre o colégio foram escritos pela diretora Mercês Garcia Vieira.
Assim sendo, os entrevistados, selecionados entre os que estudaram no colégio, no período compreendido entre 1939-1958, preferencialmente nas 1ªs turmas, verdadeiros protagonistas dessa história, nos permitiram ir além das versões oficiais dos fatos, o que possibilitou compreender como eles viam o mundo que os circundava e, dentro desse, a educação da qual participaram e o como agiam a partir dessa compreensão.

 

O Broinha: Como era  o Colégio de Calçado no corte de tempo em  que fez a sua pesquisa?


Professora Alacir: Tomando por base as memórias, documentos oficiais, fotos, crônicas e reportagens de jornais, o Colégio de Calçado foi o centro educacional, cultural e social do município, referência de qualidade.  Encantou a todos que por ali passaram. Apesar da disciplina rígida, registrada por muitos dos entrevistados, as aulas, os professores, a organização do colégio, os bailes de formatura, o grêmio onde os alunos aprendiam outros saberes, as competições esportivas, os trabalhos manuais, o coro orfeônico, a banda de música, os desfiles cívicos e a diretora Mercês Garcia Vieira ficaram no imaginário de todos os estudantes, como algo mágico. Símbolo do saber, o Colégio de Calçado foi responsável por muitos profissionais de renome no cenário nacional.   

 

O Broinha: Recentemente, em uma entrevista sua no Jornal a Gazeta, a senhora disse que o Colégio de Calçado está muito ruim, e me parece que estas suas palavras não foram bem recebidas em Calçado. É verdadeira essa informação?


Professora Alacir:Minha pesquisa se refere, apenas, ao período 1939-1958, administração Mercês Garcia Vieira. Todo o estudo foca as práticas educacionais ali vividas/construídas. Os períodos subseqüentes não foram por mim investigados. 
No entanto, quando se estuda o passado, inevitavelmente o presente vem à tona. Como o Ministério da Educação (MEC/INEP) vem fazendo avaliações sucessivas de todas as escolas do país, a EEEFM Mercês Garcia Vieira também foi avaliada e os resultados não foram bons.  Tal fato apareceu na fala de muitos dos entrevistados que lamentaram os resultados apontados pelos órgãos governamentais.
O jornalista de A Gazeta, também, me perguntou sobre o desempenho atual do Colégio e eu me reportei aos indicadores oficiais para responder a pergunta formulada.

O Broinha: professora, será que as autoridades não estão querendo esconder  debaixo do tapete  a realidade atual do Colégio de Calçado, quando não concordam com as críticas?


Professora Alacir:Avaliação é algo complexo e muitos fatores estão envolvidos nessa questão: desvalorização do magistério, despreparo de alguns professores, gestão pouco dedicada, família pouco participativa, alunos não muito interessados, violência na escola, disciplina sem controle, desrespeito de toda espécie na sala de aula, etc. Tais aspectos perpassam as escolas brasileiras como um todo. Mas há, também, contrapontos: professores dedicados, responsáveis e competentes, gestores comprometidos com a qualidade da educação.

Diante desse quadro, as autoridades responsáveis precisam redirecionar as metas e os objetivos educacionais se desejam transformar o Brasil num país de cidadãos.

 

O Broinha: Na sua opinião o que está faltando ao nosso Colégio para que realmente atenda às necessidades da juventude calçadense?


Professora: Alacir:Bem, como não fiz pesquisa sobre o Colégio de Calçado no período pós Mercês Garcia Vieira, vou-me ater, apenas, às informações do MEC para uma contribuição.
Penso que o colégio precisa fazer da sala de aula um lugar mais prazeroso, desafiador, inclusivo, no qual circulem saberes diversificados, multiculturais. E que responsáveis pela educação nesse espaço procurem resgatar muitos dos valores/ações que fizeram parte das práticas educativas  responsáveis pela escola que se tornou um símbolo do saber calçadense.

O Broinha: Professora Alacir, obrigado pela sua entrevista. Para encerrar gostaríamos que deixasse  uma mensagem de educadora aos  jovens calçadenses que têm hoje o Colégio de Calçado como a  única oportunidade para estudar.


Professora Alacir:Na sociedade de conhecimento em que vivemos, saber faz toda a diferença. E dotados de saberes, vocês, jovens calçadenses, poderão se transformar no estímulo para o resgate da qualidade de educação que fez outrora do Colégio de Calçado uma referência para além do município.
Para finalizar, o pensamento de Jorge Luis Borges: Porque, se não o sabem, disto é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora




 

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