Entrevista com Eléia Abreu

 


A nossa entrevistada é Eléia Abreu, uma das primeiras broinhas a descobrir o site " O broinha". A partir de então tem sido uma das nossas maiores incentivadoras. Eléia é uma pessoa que cativa a todos pela simpatia e inteligência. Nesta entrevista Ela nos fala das suas saudades de Calçado e como vê as atuais perspectivas para a cidade .

O broinha: Eléia, sempre que começamos uma entrevista, pedimos ao entrevistado que fale um pouco sobre ele. Fale sobre de você, sua família e de sua trajetória desde que saiu de Calçado.
Eléia Abreu: Sou "broinha" da gema. Nasci em Calçado há muitos anos e fiz toda a base de minha vida em Calçado. Meus pais Elpídio Teixeira da Costa (agricultor) e minha mãe Ely Abreu da Costa (do lar) moravam no Jacá ( Grande Jacá! ), na fazenda do meu querido avô Dunga Abreu. Tenho três irmãos: Regina Maria, Eusa e Evandro José e cinco sobrinhos maravilhosos, Paula, Cristina, Thiago, Daniel e Max William. Assim, pela genealogia, todos os Teixeira, Costa, Almeida ( por parte do meu pai) e Abreu, de Calçado são meus parentes. Na verdade, Calçado é uma grande família, pois os casamentos vão acontecendo e entrelaçando as mais diversas origens. No final, todo mundo é parente!

Estudei no G.E. Manoel Franco e no Colégio de Calçado. Fiz o Curso Normal e em seguida, fui para Colatina fazer o Curso de Supervisão de Ensino. Em 1970 fui para Bom Jesus do Norte para atuar como Supervisora de Ensino, onde continuei os meus estudos em Contabilidade no Colégio Antonio Honório. Desisti da Contabilidade e fiz vestibular para Pedagogia na FAFITA - Faculdade de Filosofia de Itaperuna. Em 1972 prestei dois concursos públicos: CEF e BANCO DO BRASIL. Passei nos dois, mas optei pelo BB, onde desenvolvi toda a minha carreira profissional, iniciando em São Paulo - Capital como Auxiliar de Escritório e finalizando ali a minha jornada como Gerente Geral.

Desde 1998 trabalho na Praendex Brasil / Arquitetura Humana como Consultora Estratégica, usando uma ferramenta americana - PI - Sistema Predictive Index - que define o Perfil Comportamental do Profissional.Graduei-me em Direito pela PUC - SP, Pós-graduação em Hotelaria no SENAC- SP, Extensão em MKT na ESPM - SP e Francês na Aliança Francesa.

O broinha: Quando você fala sobre Calçado sentimos certa nostalgia em suas manifestações, o que é Calçado para você? Quais são suas saudades?
Eléia Abreu: Essa saudade que retrato nos meus escritos surge da busca constante pela valorização das coisas simples, da compreensão do ser humano puro, que não se deixa iludir ou se contaminar pelas desgraças que assolam o nosso país: desrespeito às pessoas, corrupção em tudo que é lugar, filosofia implantada de "levar vantagem em tudo", hipocrisia e a divulgação errônea em ser "politicamente correto", situações onde perdemos toda a nossa autenticidade. Basta ter educação para viver em sociedade.

Calçado para mim ainda é um lugar bucólico, onde as pessoas vivem tranqüilamente, com uma qualidade de vida invejável (principalmente para nós que vivemos em grandes cidades), pessoas acomodadas no seu dia-a-dia. Talvez essa passividade incomode-me um pouco. Poderíamos ser uma sociedade agregadora, buscando os mesmos objetivos, onde compartilhássemos as nossas energias, as nossas vontades, para viabilizarmos ações em prol de um desenvolvimento real. Não adianta esperar que o Governo faça isso. A força poderia vir de grupos cooperados, tratando dos mesmos interesses, com objetivos claros e definidos para alcance real do crescimento da comunidade.

Tenho várias saudades. Tenho saudade do sossego (muito embora eu seja muito inquieta). Tenho saudade da paz. Tenho saudade daquele ventinho suave e desaforado que entrava sorrateiro pela janela do meu quarto. Tenho saudade dos bailes do Montanha. Tenho saudade das amizades sinceras e de muitas outras coisas.

O broinha: Recentemente, você escreveu uma crônica onde manifestava sua tristeza ao ver a desesperança nas crianças que participavam do desfile escolar, será que você poderia falar um pouco mais sobre este sentimento?
Eléia Abreu: Os tempos mudaram. Mesmo morando em São Paulo, denominada "Selva de Pedra", vejo-me, freqüentemente, analisando essa mudança rápida dos tempos. Tudo hoje parece líquido. Além de líquido, quase volátil. Até o conhecimento está assim. O que você aprende hoje, amanhã está defasado.

Quando estudava em Calçado, as ocasiões de desfile escolar eram eventos desejados por todos, momentos onde éramos destaque para a população. Tínhamos orgulho de participar. A noção de cidadania, embora frágil, era repassada pelos pais ou pelos professores de uma forma muito inteligente. O que percebi nas últimas festividades foi que os alunos não tinham nos olhos o brilho de "ser broinha". Parecia simplesmente uma participação obrigatória, para cumprir tabela e nem se preocuparam em terminar o desfile, simples, mas representativo. Essa cultura moderna de "tudo pode" deixa-me apreensiva. Limites devem ser entendidos como propósitos para a vida adulta. Não quero que entendam com isso como somente um sentimento meu de nostalgia. Os estudiosos sobre comportamentos humanos reforçam a necessidade de todos termos noção dos limites das nossas ações. As dificuldades, as obrigações existem para crescermos e devemos ter orgulho de participar da vida em comunidade.

O broinha: Fazendo um paralelo entre o Calçado que você viveu e o Calçado de hoje, o que melhorou e o que piorou?
Eléia Abreu: Paradoxalmente analisando Calçado de hoje e o de ontem posso fazer uma
única e intrigante colocação: Calçado de ontem era esperança, Calçado de hoje, nem tanto. Com todas as pessoas que venho conversando deriva-se a idéia que o melhor de tudo isso é ir embora de Calçado. Uns querem ir apenas para Bom Jesus, outros pra Vitória, outros pro Rio, etc. De onde vem essa vontade de partir?
Em toda a nossa história vimos que, muitos que de lá saíram, conseguiram sobressair-se nas suas profissões.

Agora, tem uma coisa interessante para ser também analisada. Muitos saem, fazem sua vida fora e alguns anos depois retornam. Por que este retorno ao cordão umbilical? Algum mistério existe aí! Esta é a prova máxima que quem nasceu em Calçado, jamais a abandonará! É apenas uma questão de despertar e de ter coragem para tal.

O broinha:Em sua opinião, que ações concretas a comunidade calçadense deveria implementar para o desenvolvimento do Município?
Eléia Abreu: Como Calçado é tipicamente Agricultura, o ideal seria organizar uma Cooperativa que fornecesse atributos para que essa implantação desse certo. Outro caminho é descobrir um segmento que favorecesse o Município. Recentemente li algo sobre uma Fábrica de Calçados de Segurança. Ainda não tenho conhecimento se isto é real. Calçado precisa descobrir o seu produto e buscar pessoas interessadas em, comandar essas ações.Poderíamos usar tantas possibilidades para isso: SEBRAE, SENAI, SESI, etc. Se me for permitido uma sugestão, poderíamos organizar um evento, através da ONG, chamando o povo de Calçado para definir as linhas do seu futuro. Tudo isso tem queser muito planejado e com muito cuidado para não tratar-se de evento político, principalmente nessa época de eleições.

O broinha: Ao acompanharmos as opiniões de nossos leitores, observamos que alguns
deles criticam aqueles que apontam os problemas econômicos e falam da política de Calçado. Será que não corremos o risco de ficarmos admirando um Calçado virtual e acabamos não contribuindo para o desenvolvimento do Calçado real?
Eléia Abreu: Tenho consciência que o "meu" Calçado está muito no virtual, até porque
pouco vou lá. Todos os pequenos Municípios do Brasil sofrem com a ingerência política e todos também sabem que esperarque o Governo resolva tudo é pura ilusão. Temos que ter essas bases sedimentadas para que o Município ande sozinho, sem depender unicamente de "emprego político". Esse marasmo causa revolta em muitos que nem sempre têm voz ativa ou chances para divulgar as suas opiniões.

Os orientais dizem : " Não adianta dar o peixe, o melhor é ensinar a pescar." Quem sabe não estamos dirigindo as nossas ações apenas para distribuir peixinhos!!!

Uma outra coisa que tem que ficar claro é que a Educação é a base para tudo. Se conseguirmos melhorar o nível do nosso ensino, poderíamos estar formando essas crianças para o futuro.

Num livro que li recentemente existe a seguinte afirmação:
* 50% das crianças de 4ª Série não entendem o que lêem;
* apenas 26% dos adultos conseguem ler e entender um livro;
* 74% dos adultos têm problemas de leitura

Sem pilares sólidos não há educação sustentável. Essa estatística é preocupante e comparando com as pessoas nascidas no ES e, particularmente em Calçado, chega a ser intrigante, pois está provado que, pelo tamanho físico do nosso Estado, é uma terra de muitos autores ( escritores, poetas, compositores, cronistas, letristas, jornalistas, etc.), sinal este claro que o ES forma gente culta. Será que no futuro teremos outros brilhantes escritores como Rubem Braga, Paulo Vellozo, Geir Campos, Nádia Rezende, Pedro Teixeira, Fernando Sabino, Edson Lobo; Debora Brasil, etc.

O broinha: Em sua opinião, que importância o broinha.com e a ONG AMIGOS, tem para Calçado e o que podem fazer para ajudar o desenvolvimento do Município?
Eléia Abreu: Desnecessário dizer sobre a iniciativa de Oscar Rezende e dos organizadores da ONG AMIGOS DE CALÇADO. Dentro do meu pequeno mundo, para mim, estes fatos foram os mais importantes de 2003.

Além de ser a nós proporcionados encontros belíssimos de "broinhas desgarrados", pude também rever amigos e parentes e fazer novos e interessantes amigos através do site e, participando dos eventos, descobri que o meu coração, além de capixaba, é "BROINHA".

Como viajo muito a trabalho, ministrando treinamentos na área de Consultoria Empresarial, faço questão de divulgar a minha terra, o site e a ONG. Todos os meus amigos de São Paulo já entraram no www.broinha.com.br para descobrirem que mistério é este de uma cidade desconhecida para a maioria e que, em pouco tempo, atinge 100.000 visitantes. Isso é para poucos.

Os objetivos da ONG são claros e muito bem estruturados, com a preocupação de avançar os passos de maneira cuidadosa e apolítica. Sabemos, no entanto, que para muitas ações precisamos usar também a política no seu sentido mais importante.
"Política é a arte de bem governar os povos, com habilidade no trato das relações humanas, com vista a obtenção de resultados favoráveis, baseados em procedimentos corretos." O ruim é que a palavra acatou toda a parafernália negativa da mídia, em razão de um passado não tão glorioso, mas o povo brasileiro tem um diferencial louvável do resto do mundo: ele nunca perde a esperança. Como canta Raul Seixas o negócio é "Tente outra vez !"

Creio que este final de 2004 as coisas se compliquem um pouco para novas ações da ONG por ser um ano de Eleições, mas não podemos esmorecer.

O broinha: E as manifestações culturais. O que você achou do projeto do nosso conterrâneo Pedro Teixeira sobre os escritores calçadenses? Quais suas expectativas para o futuro?
Eléia Abreu: Pedro Teixeira reforçou a índole literária de Calçado. Li todos os seus livros que recebi de presente do meu tio Cleber Coimbra.

Para mim, o Pedro é uma ave que voa alto, pois ter a coragem que ele teve para insistir em lançar os seus livros tem um mérito muito grande. De vez em quando, pela mente inquieta que demonstra ser, tem uns arroubos de alçar novos vôos, mas um dos seus pézinhos está enlaçado em alguma árvore frondosa de Calçado e ele não consegue partir. Para nós, isso é muito bom, pois continuamos a ter lá, mais uma pessoa culta e que trabalha para divulgar a nossa história, a nossa estória, os nossos "causos", os nossos misteriosos personagens e as nossas personalidades.

Como disse atrás, o brasileiro tem esperança e eu também vivo com expectativa eterna de que há sempre uma saída iluminada no fim do túnel. Quero ainda ter a chance de ver Calçado se desprotegendo dessa carcaça sem futuro e ver os nossos jovens agindo em prol do nosso Município.

O broinha: Eléia, para encerrar, que mensagem você deixaria para os calçadenses?
Eléia Abreu: Eu sei das nossas tensões, das inquietudes, dos propósitos idealizados e não cumpridos, dos desânimos, das preocupações, das limitações humanas, dos nossos anseios, da falta de dinheiro, outras vezes das decepções, mas... está na hora de nós "broinhas" fazermos alguma coisa de real.

A primeira condição para isto é fortalecer a nossa ONG, cadastrando-se
como Associado e contribuindo além das sugestões, com matérias interessantes para o site e com participação monetária - uma anuidade justa - para a subsistência da ONG e do site.

Está na hora de buscarmos patrocinadores para o www.broinha.com.br. Lanço para todos este desafio.

Grata pela oportunidade de expor as minhas idéias. Sinto-me diferenciada por isso!

"Grandes realizaçães são possíveis quando se dá importância aos pequenos começos." - Lao Tzu.

NÓS, BROINHAS, JÁ COMEÇAMOS ! . . .





 

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