Entrevista com Enoclides     


Enoclídes Borges Rezende da Fonseca, simplemente Enoclides, é um legitimo broinha da família dos Barroso, que sempre esteve muito ligada ao futebol de nossa terra, filho do saudoso Jair Rezende da Fonseca e de Geralda Borges de Rezende. Hoje mora em Vitória , está com 58 anos é casado com a Senhora Luíza Araújo Rezende e tem uma filha Izabella Araújo Rezende. Enoclides é uma lenda viva do futebol de nossa cidade. Jogou no Americano Atlético Clube numa época em que o futebol exercia um fascínio muito grande na população de Calçado, foi ídolo de toda uma geração de garotos calçadenses. É famoso pelo seu chute muito forte. Contam que era capas de arrebentar uma bola quando batia no muro que ficava logo atrás do gol do campo do Americano. Essa e muitas outras histórias Enoclides nos contará nesta entrevista

O broinha - Como tudo começou?
Enoclides - Começou com a chuteira, antes deixa para lá. O Sebastião Gloria quando chegou em Calçado resolveu montar um juvenil lá no Motorista. Eu já tinha jogado no infantil do Americano então pensei, vou nessa. Estava com a idade entre 14 e 15 anos. Mandei o Genil fazer minhachuteira e fui para lá. Não demorou muito só uns dois meses, não foi à frente, e eu com aquele par de chuteiras continuei ali esperando o time titular treinar, ficava sempre na reserva esperando uns 5 minutinhos para treinar . Um belo dia num jogo do Motorista teve uma preliminar e não tinha um time pronto para entrar no campo, então apelaram pra mim, você vai entrar de ponta esquerda. Enquanto estava aquecendo batendo bola o Tião Marques que era o todo poderoso do Motorista chega no portão e grita: - Para o jogo, não começa não que eu quero jogar. O Antonio Sá Viana que era o técnico virou pra mim e disse: - Enoclides sai. Daí fui para o vestiário tirei minha chuteirinha, botei debaixo do braço, desci o Morro do Querosene e falei. - Aqui em cima não volto nuca mais. Fiquei uns dois ou três meses sem jogar, chateado com aquilo. Até que e um dia estava assistindo um treino do Americano, era um terça- feira, faltou gente no treino e Sr. Celino que era o técnico, olhou para mim e perguntou. - Menino você tem chuteira?
- Tenho sim respondi, e ele me disse. - Pega lá e completa aqui pra gente. Entrei no treino e acabei abafando pois entrei na minha posição que era centroavante. Andei fazendo uns dois ou três gols no treino. No treino de quinta feira o Sr. Celino, pra me testar, botou o Lé para me marcar e eu acabei fazendo um gol. Então Sr. Celino falou pra mim. - Domingo tem jogo vem jogar no aspirante. O aspirante ia jogar contra o Bandeira e eu andei metendo uns três gols no jogo. Dali foi um pulo, joguei uns seis meses no aspirante e fui para o time de cima.

O broinha - Qual o primeiro jogo que você fez no time principal do Americano ?
Enoclides - No time principal foi contra o Natividade de Carangola. O Americano tinha ido lá no domingo anterior e perdeu de uns 5. Não entrei jogando, Sr. Celino me botou na reserva. O jogo estava em dois a dois e nós queríamos ir a forra da goleada. Quando faltavam uns 20 minutos para terminar o jogo o Sr. Celino me lançou. A primeira jogada que fiz foi bater um corne, a bola caiu no pé do Aloísio Bastos, e ele que chutava muito pouco, não sei como, acertou um sem pulo e foi lá 3 a 2. Faltando uns 5 minutos para terminar o jogo eu pego uma bola na intermediária parto com ela em velocidade, o centro avante abre esperando um passe, o beque acompanha e eu fico sozinho, dei um drible de corpo no goleiro e fiz o quarto gol do Americano

O broinha - Naquela época diziam que seu pai nunca permitiu que você vestisse a camisa do Motorista? É verdade?
Enoclides - Não é que ele não permitia. Aconteceu um episódio, foi por causa de dinheiro. O Osvaldo Malheiros meu tio foi o intermediário, Sr. Alcebides Araújo na época mandou me oferecer um bom dinheiro, e eu garoto novo, assinei um ficha para jogar um campeonato pelo Motorista. Quando apareci com aquele dinheiro em casa meu pai viu e perguntou. - Que dinheiro é esse ? e eu disse. - Vou jogar no Motorista, eu ganhei dinheiro para jogar. Ai ele virou para min na hora e disse.: - Você é amador, você pode jogar no Motorista não tem problema, mas o dinheiro vai ser devolvido, e fique sabendo que eu estarei lá na cerca torcendo contra você. Na mesma hora fui lá devolvi o dinheiro e mandei rasgar minha ficha. Mais tarde joguei duas ou três partidas pelo Motorista que me pediu emprestado ao Americano através de um oficio.

O broinha - Você só jogou no Americano ou chegou a jogar em outro time?
Enoclides - Joguei em 63 e 65 pelo Ordem e Progresso de Bom Jesus do Norte, disputei campeonato capixaba como profissional.

O broinha - Fez muitos gols?
Enoclides - Sim, em 65 fui artilheiro do Ordem e Progresso e vice- artilheiro do campeonato capixaba.

O broinha - Quando jogava pelo Americano vocês disputavam algum campeonato?
Enoclides - Disputávamos o campeonato da liga Bonjesuense

O broinha - Quais os times da época que se destacavam nos campeonatos?
Enoclides - O bichos papões mesmo do campeonato eram Santa Izabel, da Usina de Santa Izabel, e o Olímpico de Bom Jesus do Itabapoana. Nesta época o Santa Izabel tinha o Cocóta que era um maestro.

O broinha - E os times de Calçado se saiam bem nos campeonatos?
Enoclides - Não, o Americano chegou a ter bons times no campeanato, teve chance, mas tinha um problema de arbitragem, os juízes eram todos de Bom Jesus e ai não tinha jeito. Eu mesmo joguei um jogo contra o Olímpico em que o Americano fez 1 a 0, o Olímpico empatou, o Americano fez 2 a 1 e o Olímpico empatou. O Americano fez 3 a 2 e o juiz deixou o jogo ir a 60 minutos do segundo tempo até o Olímpico empatar.

O broinha - Falando dos jogadores de sua época e principalmente dos beques, quais eram leais na marcação e quais eram pau puro?
Enoclides - Quem metia o sarrafo mesmo era o Valdir, (jogador do Motorista) mas ele sempre me respeitou, o que fazia com outros adversários eu não admitia. Ele nunca me machucou, mas entrava pra quebrar. Fino no trato da bola felizmente estava do meu lado, era o Lé.

O broinha - Uma história sua que me lembro de ter ouvido é que um dos beques que mais tinha broncacom você era do Zé do Canto, do Ordem e Progresso. Contam que uma vez você subiu com ele para disputar uma bola de cabeça e meteu-lhe o dedo lá naquele lugar que incomoda os homens, e ele saiu correndo atrás de você, é verdade esta estória?
Enoclides - É verdade, só que não foi bem assim, eu lembro que o lance era uma bola lançada na área e eu não tinha como eu chegar primeiro do que ele. Então tive a presença de espírito de meter-lhe o dedo lá. Ele tomou um susto e saiu desesperado perguntado o que estava acontecendo e a bola ficou então comigo. Quando vi que ele vinha pra cima de mim corri para o vestiário.

O broinha - Diziam que você chutava muito forte?
Enoclides - Realmente, hoje eles medem o chute do Roberto Carlos em 100 Km/h, eu acredito que se tivessem medido o meu dava mais de 120 km/h.

O broinha - E esta história de que era capas de estourar uma bola?
Enoclides -Eu me lembro que num jogo do Americano tinham duas bolas, a bola nova e uma velha. Num dos primeiros chutes que dei para o gol a bola nova passou por fora pegou no muro e voltou murcha, estorou. Botaram a bola reserva, uma bola mais velha, numa falta na intermediária ela saiu murcha do meu pé. O José Abib que estava sempre no campo do Americano assistindo jogo, teve que ir lá na sua loja pegar uma bola nova para continuar o jogo. O chute realmente era a minha principal arma eu não era um jogador muito técnico, inclusive tinha uma deficiência muito grande eu não sabia cabecear. Dos duzentos e tantos gols de minha carreira no Americano eu devo ter feito uma meia dúzia de cabeça.

O broinha - Falta você batia muito bem não é?
Enoclides - Falta mais de longe. Um metro da barreira era suficiente para que eu passasse a bola, e se ela passasse o goleiro não segurava não.

O broinha - E verdade que uma vez por maldade colocaram uma pedra dentro, ou atrás de uma bola para você chutar?
Enoclides - É verdade, o rapaz que fez isso acredito até que fez por brincadeira, não mediu as conseqüências. Era um treino do Juvenil do Americano eu estava descalço e o José Luiz que era lateral esquerdo do Americano estava brincado com uma capa de bola. Pegou um tijolo e colocou dentro daquela capa. Eu estava saindo do campo e ele gritou comigo. - Dizem que você chuta muito eu quero ver. Ele estava no gol perto do vestiário e a capa da bola com o tijolo dentro estava na marca do pênalti. Ai eu vim na corrida e chutei. O tijolo saiu da capa da bola e se ele não abaixa estaria em maus lençóis, porque o buraco que o tijolo fez está neste muro até hoje. Fiquei machucado por um bom tempo.

O broinha - Vamos falar da grande rivalidade entre os dois times de Calçado..O Americano e o Motorista, como era esta rivalidade? Quando os dois times se enfrentavam a população se mobilizava para o jogo?
Enoclides - Na semana do jogo era o assunto de Calçado. Homens, mulheres, senhoras, moças e crianças, o jogo movimentava a cidade. Um jogo de Americano e Motorista dava de duas mil a três mil pessoas no estádio, vinha gente daquelas cidades vizinhas, Bom Jesus, Guaçuí, Itaperuna. Para você ter uma idéia naquela época eu já gostava de tomar minha cervejinha, e o Carioca andava atrás de mim no sábado até eu entrar no portão de casa me vigiando para não beber.

O broinha -Quantos gols marcou nesta disputa entre Motorista e Americano?
Enoclides - E eu não lembro exatamente quantos, eu sei que só deixei de marcar gols contra o Motorista em uma partida que empatei.

O broinha -Você fez quantas partidas contra o Motorista? Quantas ganhou?
Enoclides - Mais ou menos 6 ou 7 partidas sendo que eu perdi duas empatei duas e ganhei umas três ou quatro. Mesmo numa partida que perdemos por 2 a 1 eu fiz o gol do Americano.

O broinha - Qual jogo do Americano e Motorista foi marcante para você?
Enoclides - Eu te digo até o mês e o ano, foi dezembro de 64 lá no campo do Motorista. Ganhamos de 4 a 2 e fiz o primeiro e o quarto gol. O quarto gol eu considero a minha obra prima no futebol . Eu recebi um lançamento do Márcio, que era o lateral esquerdo, na entrada da área eu matei no peito, dei um lençol no Valdir com a perna esquerda, e sem a bola cair no chão com a perna direita e encobri o Mauro que estava um pouco adianta. Tudo foi feito sem a bola cair.

O broinha - Na sua época qual o jogador do Motorista que você mais respeitava?
Enoclides - O destaque do Motorista era naquela época o Ari Melo. Eu até reclamo com alguns companheiros que converso quando vejo o Ari Melo esquecido lá em Calçado. Os caras do Motorista podiam fazer alguma coisa por ele. O Motorista girou em torno do Ari Melo.

O broinha - Na sua opinião qual foi o maior jogador de Calçado que você viu jogar?
Enoclides - Para mim foi o Lé. Apesar de ser zagueiro e zagueiro não ter assim um nome, o Lé era um jogador que naquela época jogava um futebol moderno, ele não dava um ponta pé, não fazia uma falta em niguem.

O broinha - Tem uma história sua com ele?
Enoclides - Sim, eu não sei o que deu nele. Já no final de carreira resolveu ir jogar no Motorista. A sua estréia foi num jogor contra o Americano.Colocaram ele numa posição que não estava acostumado a jogar, a lateral esquerda. E eu na época pedi para o meu técnico para jogar na ponta direita pois queria encarar o Lé. Eu estava com raiva por ele ter saído do Americano. Aconteceu que acabei dando um baile nele e ele foi substituído.

O broinha - Um dupla de jogadores do Americano que fez sucesso naquela época era Enoclides e Orcino, fale um pouco do Orcino ele era realmente um jogador talentoso?
Enoclides - O Orcíno foi o jogador mais técnico que teve lá em Calçado. Era oriundo do futebol de salão do Rio de Janeiro, inclusive foi campeão brasileiro pelo Vila Izabel. O futebol de salão traz aquele domínio de bola fora de série. Nos dois anos mais ou menos em que joguei com o Orcíno, de 60% a 70% dos gols que fiz agradeço a ele. Ele era o que se chamam hoje de "garçom".

O broinha - Durante o tempo que você jogou futebol, que caso pitoresco você se lembra?
Enoclides - Tiveram muitos, pois no futebol estas coisas acontecem. Uma vez o Americano foi convidado para jogar na Fazenda do Batatal, era uma festa na fazenda. O fazendeiro era o Sr. Dico . Os filhos dele moram ainda em Calçado. Ele não gostava muito do Americano pois o Americano era o time da elite de Calçado enquanto o Motorista era o time do povão. Ele desafiou o Americano para ir na sua fazenda e deu uma boa cota ao time. Na época quem comandava o Americano era o Capitão Joel Machado. Eles exigiam minha presença neste jogo pois eu era atração naquela época. Seguimos para lá com um time misto. Só sei que com dez ou quinze minutos de jogo o Betinho Castanheir foi a linha de fundo e rolou para traz e eu peguei a bola na veia. A bola pegou na trave desceu e ficou quicando atrás do gol. O interessante nesta história é que a trave foi embora e o juiz marcou o gol. Naquela paralisação tiveram que ir na fazenda buscar prego para consertar a trave e então o Sr. Dico que era do dono do time falou. - Você não pode jogar mais não pois é o meu filho que está lá no gol, assim você vai matar ele, e se você continuar jogado eu não pago. O capitão Joel ia me tirar mas a torcida não aceitou que eu saísse. Então combinei com o Mazinho, que era meio de campo, para que ele fosse para frente e eu ficasse mais atrás assim eu evitava chutar em gol.

O broinha - Para encerrar essa nossa entrevista fale para nós do que você mais se lembra e do que tem saudades da sua época em Calçado?
Enoclides - De Calçado em geral eu tenho saudade de tudo, eu amo aquela terra eu não fico sem ir a Calçado. Eu tenho minha mãe lá, e ainda vou pelo menos umas três a quatro vezes ao ano. Faça chuva ou faça sol eu não deixo de ir e pisar no gramado do Americano. Quando as portas do campo estão fechadas eu peço a pessoa que mora ali para abrir dizendo que já fui jogador do Americano e estou com saudades. Fico lá no campo me imagino correndo lembro de alguns gols que fiz. Dá para imaginar, as lágrimas descem.

O broinha - Quando pronunciou estas últimas palavras, no encerramento da entrevista, seus olhos estavam cheios de lágrima. Obrigado Enoclides, você é um personagem importante da história de Calçado.

 




 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados