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Entrevista
com Pedro Teixeira
O
nosso entrevistado de hoje é o jornalista, escritor, historiador
e broinha Pedro Teixeira. Desde 1986, quando retornou para viver
em Calçado, Pedro Teixeira vem lutando de forma incansável
para resgatar a história de nossa cidade e da região.
Nesta entrevista vocês irão conhecer melhor este
grande patrimônio calçadense.
O broinha:
Pedro, sempre que começamos uma entrevista pedimos aos
nossos entrevistados que falem para os leitores um pouco de sua
vida. Gostaríamos que você falasse para nós
como foi sua trajetória, desde a infância.
Pedro
Teixeira:
Fui "menino de rua" em Calçado. Só que
o termo na época significava outra realidade. Estudava
no Manoel Franco de manhã e o resto do dia fazia biscates
que até Deus duvida, para defender o dinheiro da matinê
de domingo no Cinema São José, do picolé,
das figurinhas de álbuns e outras coisas comuns às
crianças dos anos 40 no interior. Os biscates iam desde
varrer a coletoria do seu Múcio Alencar, catar café
nas calçadas da rua 15, para vender na venda do seu Ataliba,
entregar carne para o açougue do Diocrécio e, até,
vender selos já carimbados (e limpos com água e
sabão) para a dona Rosa dos correios. Mais detalhes, no
livro "Debruçado na ponte do ribeirão",
que estarei relançando, em versão infanto-juvenil
e compactado com o título de "Memórias de um
menino caipira".
O
broinha: O escritor e o Jornalista quando
começou?
Pedro
Teixeira:
Por incrível que pareça, como profissional, muito
tardiamente, lá pelos 43 anos de idade. Antes disso perdi
tempo como bancário, vendedor e executivo de empresas.
Tinha de defender o leite das crianças. Depois, virei o
mundo de cabeça para baixo e fui ser revisor, redator e,
em menos de um ano, editor da revista do Sítio do Picapau
Amarelo, da Rio Gráfica, no Rio de Janeiro. Paralelamente,
fui roteirista de histórias em quadrinho, na própria
editora e na Editora Vechi, enquanto colaborava com jornais e
revistas alternativas. Depois de uma seleção nacional,
fui contratado pela Rede Globo, como "autor-roteirista",
após um curso de 5 meses na própria emissora. Depois
disso, lancei meu primeiro livro, "Debruçado na ponte
do ribeirão", em Calçado, em 1984, em Vitória
em 1985, me mudei para Brasília como chefe de gabinete
de deputados, voltei para Vitória e de lá para Calçado,
onde fundei o jornal "Folha do Vale", o primeiro em
off-set de todo o sul capixaba. Depois vieram os outros 9 livros.
O
broinha: Com muito sucesso, é
claro, entre os conterrâneos, não é?
Pedro
Teixeira:
Não! Infelizmente os calçadenses até podem
gostar de livros, mas têm horror de comprá-los. Foi
dureza viver de um jornal sempre às portas da falência,
por falta de apoio oficial, e de escrever os 4 livros (além
dos outros) sobre minhas pesquisas da história do Vale
do Itabapoana (Calçado, Bom Jesus do Norte e do Itabapoana,
e Apiacá).
O
broinha: Mas então, por que você
não deixou a cidade e foi procuraruma outra cidade , fazendo
a mesma coisa, que é um sonho para qualquer município:
um maluco que se disponha a passar a limpo sua história
e colocar tudo isso em livros às sua próprias custas?
Pedro
Teixeira:
Aí, nem Freud explica. Só sei que depois de lançar
o meu primeiro livro (o primeiro lançamento em Calçado)
foi que aconteceu esse movimento de mais de 39 novos autores e
outros tantos lançamentos, que culminou nesse livro, que
estou editando, "Calçado não cabe em apenas
uma crônica", que vai dar início a uma série
de outras coletâneas de autores calçadenses. Uma
tremenda revolução cultural.
O
broinha: Mas você não desanimou
ainda de Calçado, pelo que posso presumir.
Pedro
Teixeira:
Cheguei a pensar, mas agora com a "nação broinha"
peguei mais fé em minha terra. Pelo menos nos que moram
fora. Não serei injusto: tenho cá meus 50 leitores
cativos, dentre os 10 mil e poucos habitantes do município.
Mas o Pedro J. Nunes, que considero o maior de nós todos
(inclusive com a melhor crônica do livro), foi bem mais
injustiçado do que eu. Os calçadenses só
sabem que ele é filho do carreiro Zé Benedito e
não uma das maiores promessas literárias do Espírito
Santo. É mole?
O
broinha: A coisa é assim por aí?
Pedro
Teixeira:
Deixa eu contar uma historinha recente. Cheguei a um supermercado,
comprei, e por falta de dinheiro na hora, disse para o rapaz do
caixa, com cara de quem já cursou o segundo grau em Calçado:
"Anota aí para mim!" - E ao que ele respondeu:
"pois não, mas qual é o seu nome?" Então,
perguntei a ele se sabia quem era o José de Alencar e ele
respondeu de pronto: grande escritor, Tronco do Ipê e O
Guarani! E o cara conhecia vários outros autores. Mas de
Calçado, o Zé Carlos Fonseca era um grande deputado,
o Pedrinho Nunes, ele sequer conhecia e assim por diante. Aí
eu pensei: cadê as professoras que não sabem que
entre os 10 escritores capixabas em atividade, 7 são calçadenses?
... Dói paca!!
O
broinha: Caracas!!!
Pedro
Teixeira:
E bota Caracas nisso! Os caras, com vários autores circulando
entre eles, lançando livros todos os anos e eles ignoram.
O
broinha: Antes de voltar para Calçado
você trabalhou em diversos órgãos de comunicação,
fale-nos um pouco deste período?
Pedro
Teixeira:
Fui aquilo que disse em cima, tive uma "tirinha" de
humor (junto com o Amarildo- Muqueca Capixaba) no jornal A Gazeta
e enganei como redator de publicidade.
O
broinha: O que fez você voltar
para Calçado?
Pedro
Teixeira:
Não sei exatamente. Tinha tudo para ficar em Brasília,
mamando nas tetas do poder, muito para ficar em Vitória
ou no Rio de Janeiro (onde até hoje tenho propostas de
trabalho como copy-desk), mas engastalhei num remanso do Rio Calçado
e fui ficando. Deve ser o destino.
O
broinha: Como foi o seu reencontro com
Calçado? Você teve dificuldades em se adaptar à
cidade e quebrar o conservadorismo de muitos que aqui vivem?
Pedro
Teixeira:
O povo de Calçado é gente muito boa. Eu falo às
vezes que ele é isso e aquilo, mas eu amo esse lugar e
sua gente. Acredito até que eu tenha dado minha contribuição,
em paga por ter enterrado meu cordão umbilical num terreiro
da Rua Nova. Afinal, sempre ouvi dizer que Calçado era
a "Atenas Capixaba", terra da cultura e outras coisas,
mas fomos nós, eu, Pedrinho Nunes, Zé Carlos Fonseca,
Marcos Alencar, Zé Costa, Fernando Tatagiba, Edson Lobo,
Debrinha Brasil e outros escritores que vieram depois, que consolidamos
esse paradigma. E agora, com os cronistas do broinha, como Carlos
Rezende, Oscar Rezende, Gilberto Vieira, Joel Raggi, Solange Medina,
Maria das Dores Raggi, Almir Lobo e uma porção de
outros, do livro de crônicas que estou editando, acredito
que Calçado vai entrar definitivamente para a história
cultural do Espírito Santo.
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