O
nosso entrevistado é o Dr. Cristiano Dias Lopes Filho,
um dos personagens mais importantes de nossa terra. Dr. Cristiano,
se destacou na política capixaba sendo deputado estadual
e governador do estado. Durante o tempo em que foi governador,
o estado passou por um grande período de desenvolvimento.
Dr. Cristiano nos recebeu, de forma muito gentil, em seu apartamento
para nos dar esta entrevista. Além dos seus aspectos
históricos, a entrevista nos deixou a certeza de que
ele foi um homem de ação, quando esteve a frente
do governo do estado. A seguir a entrevista com Dr. Cristiano.
O broinha: Dr. Cristiano, ao iniciar a nossa conversa
gostaríamos que o Sr. falasse do período em que
viveu em Calçado, da sua infância, do tempo de
escola, dos amigos, e até mesmo das peraltices.
Dr. Cristiano: Eu não sou filho de Calçado,
e sim de Bom Jesus. Cheguei a Calçado com um mês
de nascido, minha mãe e meu pai moravam em Bom Jesus.
Meu pai morreu no Rio de Janeiro e meu avô mandou apanhar
a filha, que era minha mãe, para morar com ele na Fazenda.
Mamãe não tinha como sobreviver em Bom Jesus,
pois havia ficado pobre.
Uma
família lá do córrego da areia foi quem
forneceu o carro de boi, que nos levou a Calçado. De
lá, outro carro de boi nos levou até a fazenda
dos Pirineus, de propriedade do meu avô Antônio
Honório da Fonseca e Castro. Estou falando com todas
as letras porque havia também um outro Antonio Honório,
muito mais novo, irmão de minha mãe, que morava
em Vitória.
A
minha infância foi toda na Fazenda. No início,
estudei com minha mãe lá na Fazenda, ela era professora
do estado. Fez um concurso, na época do Governador Bley.
Depois, fui estudar no Grupo Escolar Manoel Franco.Todos os
dias, saía a cavalo da Fazenda de manhã, voltando
à tarde.
No
grupo escolar foi tudo muito bem, até que houve um episódio
que me magoou muito, apesar de ser garoto na época eu
guardo até hoje. Era diretor do grupo escolar o Sr. Nilton
Brandão, havia uma professora, a minha prima Maria da
Penha Machado, e também um professor o Dr. Idalino Monteiro,
que cuidava dos escoteiros em Calçado. O Nilton Brandão,
junto com a minha prima, resolveram fazer uma brincadeira comigo,
dizendo, ao final do ano, que eu havia sido reprovado, e a solução
para que eu passasse de ano, era raspar a cabeça. O barbeiro
foi o Idalino Monteiro. No mesmo dia minha mãe soube
do acontecido. Desceu a cavalo da Fazenda e brigou com todos.
Este fato me aborreceu muito.
O
broinha: E o ginásio, o Sr fez em Calçado
também?
Dr. Cristiano: Eu fui da primeira turma do Colégio
de Calçado, quando ele começou a funcionar na
praça Theophilo Lobo, onde é hoje o BANESTES.
Houve
também um outro episódio que foi frustrante para
todos nós. Era inspetor na época um médico
de Bom Jesus, Dr. Abelardo, que anulou o exame de Admissão.
Felizmente, o Governo Federal admitiu outro exame, e indicou
como inspetor o Dr. Colombino Teixeira de Siqueira, que também
era médico em Bom Jesus, mas muito ligado a Calçado.
A partir de então pudemos iniciar o curso.
Depois,
que Pedro Vieira construiu o novo Colégio, onde está
até hoje, fomos para o novo prédio. Continuei
no colégio até ao terceiro ano do ginásio.
Na
época, tive um aborrecimento com dona Mercês. Ela
passou um castigo para três alunos que se mostraram indisciplinados,
num determinado dia de formatura no ginásio, eu, o Luis
Mendonça e o Reinaldo Evaristo da Silva. A dona Mercês
me colocou de castigo, de pé atrás da porta do
seu gabinete.
Neste mesmo dia , o Inspetor Federal Dr. Colombino estava lá,
e quando entrou no gabinete e viu o meu pé atrás
da porta, perguntou brincando:
-
O que é aquilo Mercês? Tem um pé ali? Dona
Mercês disse quem era, e que eu estava ali para cumprir
um pequeno castigo. O Dr. Colombino interferiu:
-
O Cristiano? Não, não pode ser!!. Eu o vi nascer,
o pai dele morreu, sou amigo da família e ele não
pode ficar de castigo. E assim, saí do castigo.
De
outra vez, para este mesmo grupo de colegas insubordinados,
ela passou uma mensagem para copiar 3000 vezes: " Não
devo ser indisciplinado na formatura do colégio".
Fiquei chateado com aquilo, e então disse ao inspetor
de aluno:
-
Diga a diretora que eu não vou escrever isto. Por este
ato recebi uma suspensão de 3 ou 4 dias.
A
partir de então, o processo de mal estar com a diretora
continuou. Ela fez uma carta para mamãe dizendo que achava
melhor me tirar do Colégio. Minha mãe aceitou
a sugestão e então vim para Vitória.
O
broinha:E em Vitória como foi?
Dr. Cristiano: Terminei o ginásio em Vitória.
Vim para casa do meu tio Antonio Honório da Fonseca e
Castro e de sua esposa, Ricardina Estamato da Fonseca e Castro,
que lecionava música no Colégio Estadual do Espírito
Santo. Fui então para o Colégio Estadual, que
naquela época funcionava no prédio da Escola Normal
ao lado do Palácio Anchieta.
Terminei
o ginásio no Estadual e ingressei no Curso Clássico
ali também. Fiz a opção pelo clássico,
pois minha vocação era para área de literatura,
etc. Terminado o curso clássico fiz direito na Faculdade
de Direito do Espírito Santo.
O
broinha:Vamos falar um pouco da política, que
sempre esteve presente na vida do Sr. Quando se deu o despertar
para a vocação política?
Dr. Cristiano: Foi aqui em Vitória. No
curso clássico eu iniciei na atividade política,
eu era um aluno muito prestigiado porque gostava de Literatura
e de falar nas solenidades. O professor Guilherme Santos Neves,
que era meu professor de Português, numa homenagem de
retorno das forças expedicionárias da Segunda
Guerra Mundial para Vitória, sugeriu ao interventor Jones
dos Santos Neves que um aluno lá do Estadual seria um
bom locutor. E, lá fui eu com esta voz rouca (risos).
Mas agradou, acho que foi pelo meu entusiasmo. Dali, começou
o meu contacto com o governo.
Quando
o General Carlos Marciano de Medeiros, tio do jornalista Rogério
Medeiros, foi indicado pelo Partido Social Democrata (PSD) para
organizar o partido em Vitória, eu entrei para a ala
jovem do PSD, junto com alguns outros jovens. A partir de então
não saí mais da política.
O broinha: Com o Sr. chegou a deputado estadual
?
Dr. Cristiano: Fui convocado pelo governador eleito,
Jones dos Santos Neves, o mesmo que havia sido interventor,
para trabalhar com ele no seu gabinete, como oficial de gabinete.
Cumpri os quatro anos ali com ele, e então achei que
poderia ser candidato.
No
primeiro mandado não fui eleito, mas fiquei como primeiro
suplente. Nesta condição, estive praticamente
os quatro anos da suplência na Assembléia, pois
o representante de Guaçuí, José Eugenio
de Sousa Paixão, tinha um problema físico que
se agravou, e teve que entrar de licença.
No
segundo mandato fui eleito, me tornando presidente da Assembléia
e formando com Carlos Lindemberg a linha dominante do PSD. Na
condição de presidente da Assembléia, fui
a Brasília, na ocasião de sua inauguração.
Permaneci
na Assembléia durante quatro mandatos, me tornado líder
da oposição.
Em
Calçado, também éramos oposição.
O Sr Sebastião Thiébaut, o líder do PSD
na região, era oposição ao grupo do Pedro
Vieira, aliado do governador Chiquinho de Aguiar.
Depois
da revolução, em 1966, houve a convenção
da ARENA, partido que havia surgido após os antigos partidos
serem extintos. O antigo PSD se dividiu, um grupo foi para a
ARENA, os que apoiavam a revolução, e outro para
o MDB. Ingressei na ARENA, como um dos seus fundadores aqui
no estado.
O
broinha: E ao governo do estado?
Dr. Cristiano: Quando começaram as notícias
sobre a escolha do governador, eu fiz um balanço de como
eram distribuídas as forças dos partidos extintos,
PSD, PRP e outros, dentro da ARENA. Verifiquei que o PSD era
absolutamente majoritário, e então resolvi me
lançar candidato a governador.
Houve
uma convenção na ARENA, e como tínhamos
maioria na convenção fui escolhido junto com três
outros nomes para sermos candidatos a governador. Eu, Jéferson
de Aguiar e Raul Giubert de Colatina. A lista de três
nomes foi enviada para Brasília, naquela época
quem dava a palavra final era o governo federal.
Eu
tinha um amigo, deputado federal do Ceará , que convivia
comigo há muitos anos. Ele era fundador e presidente
da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, aqui
no estado eu era o fundador da mesma campanha. Esse amigo era
intimo do presidente Castelo Branco. Numa reunião com
o presidente, disse que a boa escolha para governador seria
o meu nome, pois já me conhecia há muitos anos.
Eu tinha na época 37 anos.
Começou
então o jogo político para me torpedear. As acusações
surgiram de todos os lados, mas o meu amigo sempre dizendo ao
presidente que tudo aquilo eram mentiras.
Na
hora da decisão, o presidente Castelo chamou o meu amigo
deputado e disse:
-A
minha preferência é para o seu amigo, mas eu não
posso escolher um deputado estadual, entre dois senadores, isto
vai criar problemas para o meu governo. Vamos devolver os três
nomes para a Assembléia Legislativa do estado decidir.
Como
na Assembléia, a maioria era do antigo PSD, eu fui o
escolhido.Todo este processo de escolha se deu em 1966. Tomei
posse em 31 de março de 1967.
