Por Addison Viana
Hoje, pela primeira vez nos três anos e existência
do site “O Broinha”, estaremos apresentando uma
entrevista com um cantor de nome nacional com exclusividade
para o site www.broinha.com.br. O Rei do baião, José
Domingos de Morais, o popular Dominguinhos, com sua simplicidade
e de toda sua produção, concedeu a entrevista
ao site no dia 24 de setembro, minutos antes de dar início
ao show no Parque de Exposições Divinéia,
na VI Mostra de Desenvolvimento Sustentável da Região
do Caparaó que aconteceu este ano (2005) em Calçado.
Veja a entrevista.
Addison
- Dominguinhos, primeiramente quero agradecê-lo
por ter aceitado a nos dar esta entrevista, que será
publicada em nosso site como a primeira de nível nacional
e com exclusividade. Obrigado! Dando início a entrevista,
fala um pouco dos shows que você fazia nas portas de hotéis
com oito anos de idade, em 1949. Sabemos que foi em um desses
que o seu trabalho foi reconhecido por Gonzaga, e foi a partir
daí que as portas começaram a se abrir para o
senhor.
Dominguinhos - Olha, era uma coisa muito simples
porque éramos três irmãos, Eu, Moraes e
Valdomiro, e minha mãe que levava a gente até
a porta do hotel, um hotel que está lá até
hoje, Casa Hotel Tavares Corrêa, e até hoje quando
vou pra lá eu me hospedo nesse hotel. Eu tocava pandeiro
e meu irmão Moraes tocava sanfona e meu outro irmão
tocava uma outra peça, e lá à gente tocava
todo dia, era uma coisa muito simples e gostosa de fazer.
Addison
- Como surgiu o nome artístico “Neném
do Acordeon” no início de sua carreira, antes de
você ser Dominguihos?
Dominguinhos - Ah...é coisa de mãe
né?...a família começa a chamar de neném
pra cá, neném pra lá – risos –
acaba ficando, e foi até um bom pedaço da minha
vida no Rio de Janeiro, até que Gonzaga durante uma gravação
dele na STA achou que era melhor mudar esse nome porque ele
faria uma homenagem a Dominguinhos, Domingos Ambrósio
que foi um professor dele em Juiz de Fora, e aí ficou
Dominguinhos, mas foi uma homenagem que meu nome tem Domingos
também, deu tudo certo.
Addison
- Depois de 50 anos de carreira Dominguinhos
grava o primeiro CD ao vivo. Como foi fazer esse trabalho?
Dominguinhos -Foi fácil, foram dois
shows no SESC de São Paulo, SESC Pompéia, fizemos
dois shows, gravamos um bocado de coisas, depois fomos para
o estúdio, foram dois trabalhos porque a gente acaba
indo para o estúdio para concertar alguma coisa e acaba
tendo mais trabalho do que se fizesse um disco mesmo.
Addison
- Como foi a experiência de gravar um
CD com acompanhamento de uma orquestra?
Dominguinhos - Não é novidade
pra mim porque eu já toquei com a Orquestra Sinfônica
da Bahia, toquei com a Orquestra Sinfônica de Pernambuco,
toquei com a Orquestra Sinfônica de São Paulo,
então o maestro escreve o meu repertório, então
não tem nada demais, é uma coisa simples, e lá
inclusive, no SESC, foi uma pequena orquestra, o pessoal que
tocou no disco, não tem tanta gente de orquestra não,
mas eu já toquei com grandes orquestras com 70 “figuras”,
80, é uma coisa maravilhosa. Eu vou fazer em novembro,
em Curitiba, dois dias com João e Caxias e vou também
estar acompanhado por uma pequena orquestra.
Addison
- No meado dos anos 60, quando o Baião
saiu de moda, o senhor teve de se aderir a novos gêneros
musica. Foi difícil?
Dominguinhos - Não, em 1957 eu comecei
a ter uma noção de outros gêneros de músicas
em Vitória do Espírito Santo, morei lá
durante um ano, toquei com vários músicos da capital,
e eu comecei a dar os primeiros passos que eu tocava muito baião
com Luiz Gonzaga, aí depois dos anos 60 é que
eu comecei a tocar na noite carioca, então eu já
tocava uns bolerinhos, um samba canção que era
o gênero da época, e quando a bossa nova começou
não era novidade porque a gente já fazia aquilo
com outro nome que a gente chamava de samba sapê, só
aumentava o rítimo um pouquinho e virava bossa nova,
então não foi novidade a bossa nova para mim,
foi novidade para o americano naturalmente.
Addison
- Como você se sente sendo considerado
o sucessor de Luís Gonzaga, o “rei do baião”?
Dominguinhos -Olha, eu não me
considero, ele me considerava uma pessoa que poderia seguir
adiante com o trabalho dele, mas como eu deve ter muitos e muitos
sanfoneiros que fazem a mesma coisa, agora como eu estava mais
perto dele, ele achava isso, e eu acho que é muita pretensão
uma pessoa se achar substituto de alguém que tem o trabalho
tão importante como o de Gonzaga, eu sou um seguidor,
continuo nessa temática e achando que eu estou certo.
Addison
-O senhor costuma dizer “Se Deus me
desse outra vida além dessa que vivo, queria viver de
novo pertinho de Seu Luiz e aprender outra vez os segredos da
sanfona, o canto de amor e esse apego ao chão”.
Quais são esses segredos que a sanfona tem?
Dominguinhos - Estou aprendendo ate hoje –
risos – eu acho que o aprendizado da sanfona é
eterno, ninguém nunca sabe o que tem esses instrumentos,
porque depende da capacidade como de qualquer estudante para
fazer boas notas, como de qualquer médico para ser um
bom médico, então minha capacidade é para
tocar música popular brasileira, então eu fiquei
para tocar a música brasileira de um modo geral, e sempre
venho a descobrir coisas novas, porque cada música nova
é um evento novo.
Addison
- Em muitas de suas entrevistas, o senhor
cita os nomes de Nandom Cordel e Elba Ramalho. Para o senhor,
qual a importância desses dois na música brasileira?
Dominguinhos - Bom, Nandom é o meu parceiro,
“aconchego”, “isso aqui ta bom demais”,
“Gostoso demais”, muita coisa que nós fizemos.
E Elba como intérprete que meu deu muita guarita como
autor, mas não foi só ela, eu, primeiramente,
Marines, que é a nossa maior cantora pernambucana de
música nordestina, ela foi quem gravou primeiro minhas
músicas, e aí depois veio a Elba, então
desde que Elba começou a trabalhar que eu tanto toco
no disco dela, como passei a mostrar algumas melodias a ela
e ela gravou.
Addison
- Sei que o senhor e a Elba têm uma
amizade de quase 30 anos. Como começou essa amizade?
Através da música?
Dominguinhos -Foi, e quando ela chegou, eu
já estava gravando há muito tempo. Agora mesmo
fizemos uma parceria para um disco maravilhoso e vamos fazer
um DVD, já fizemos 14 shows, então a amizade está
sendo coroada também pelo trabalho artístico.
Addison
- Qual público prestigia mais o show
de Dominguinhos?
Dominguinhos - Não tem não...agora
há pouco mesmo eu fiquei numa saia justa lá em
Gravatá no Pernambuco. Eu estava lá para tocar
em um show numa casa tradicional de música nordestina,
e de repente tinha o festival do frio, que eles fazem todo ano
em Gravatá, era uma noite de rock e o Pato Ful não
sei o que foi que aconteceu que eles não puderem ir nesse
evento, aí me chamaram, e isso é uma saia justa
para qualquer artista, o pessoal ta esperando uma banda de rock
e de repente vai um sanfoneiro substituir ela, aí você
fica em uma saia justa sem saber o que fazer, não sabe
como o público vai lhe receber. Mas dentro do que vou
fazer aqui hoje, em São José do Calçado,
eu acho que eu espero boas coisas, porque quem vem aqui hoje
vem para ver esse grupo que está tocando, outro que vai
tocar depois e Dominguinhos, então não há
o que temer, acho que vou ser bem recebido
Addison
- Fazer um show em cidade pequena, do interior
como a nossa, é de maior responsabilidade a de fazer
um show em uma cidade grande?
Dominguinhos -Olha, eu acho que depende do
oba..oba...acho que se você trouxer por exemplo, um artista
desses baianos, a Ivete Sangalo, esses trios elétricos,
Daniela Mercury, todos aí que fazem um show cheio de
oba...oba..., o público não vai prestar muita
atenção no que está acontecendo no palco,
fica só no axé, na música poderosa, rítimo
poderoso, isso é diferente. Aqui pode haver aquelas pessoas
onde muitas são observadoras. No meu caso que sou sanfoneiro,
vem sanfoneiro de todo canto pra me ver tocar, que não
quer saber de dançar, não quer saber de conversa,
ele fica ali de chapéu na cabeça apreciando o
que está acontecendo, e eu estou sacando tudo isso, e
sei que a responsabilidade pra mim é até muito
maior tocar aqui em São José do Calçado
a tocar em Pleno Rio de Janeiro, na praia, ou em um evento onde
sei que é oba...oba...então isso aqui para mim
tem muito prazer porque eu também sou interiorano, eu
vim da camada pequena e continuo do mesmo jeito.
Addison
- Como surgiu a paixão pela sanfona?
Dominguinhos - Meu pai era sanfoneiro
de oito baixos, Chicão era afinador, e com isso aí
não tem outro caminho – risos.
Addison
- Como você acha que o forró
está sendo visto nos dias de hoje no nosso país?
Dominguinhos -Ta ótimo, tem uma meninada
aí, Falamansa, Forró Sacana, e uns trios tradicionais
como Virgulino, trio Xamego, Sabiá, Trio Nordetisno que
continua levando adiante o que nós começamos,
então eu acho que está ótimo, está
um momento muito bom, o povo é muito carinhoso, respeita
as bandas que vêm do Rio Grande do Norte, do Ceará
e principalmente do Pernambuco, fazendo um forró que
não é forró, é mais um show com
bailarina e etc...etc
Addison
- Além da sanfona e do forró,
e é claro, da Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis,
que hoje a tarde eu o vi vestindo a camisa dela que também
é a escola do meu coração, quais são
as outras paixões de Dominguinhos?
Dominguinhos - Eu gosto de futebol, sou botafoguense,
sou Corinthians em São Paulo, sou Sporte no Recife e
pronto – risos.
Addison
- Como o senhor vê os investimentos,
os interesses por parte das gravadoras nas músicas de
“baião” nos dias de hoje no Brasil?
Dominguinhos -O interesse é muito
pequeno, hoje o que existe é todo mundo se salvar, eu
faço um disco coloco aqui ou ali, ou então eu
mesmo mando fazer dois mil, três mil discos, e ta todo
mundo nessa base, e eu acho que hoje em dia quem está
começando está com mais facilidade porque de repente
faz um pirata aí e começa a vender – risos.
Addison
- Alcançar o sucesso para quem canta
forró em geral é mais difícil a quem canta,
por exemplo, axé, sertaneja ou funk. Porque o senhor
acha que isso acontece?
Dominguinhos - Bom, eu acho que o sertanejo
também tem suas dificuldades, não é todo
mundo que vira Zezé di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone,
é muita gente boa, agora tem aqueles menorzinhos que
estão sofrendo, a música nordestina porífera
mais, toda hora chega um artista nordestino, é repentista,
é violeiro, é sanfoneiro, aí o cabra não
sabe nem o que fazer pra colocar tanta gente, aí eles
vão se ajeitando, vão trabalhando em todas as
áreas e juntam um dinheirinho para vê se fazem
algum trabalho em termo de disco, e eu acho que a dificuldade
está em todos os lados.
Addison
-O que o senhor fala para os que estão
começando a se ingressar na carreira, para aqueles que
estão começando a se apaixonar pelas sanfonas
e violas?
Dominguinhos - Se puder estudar, fazer algum
curso, cursa, para ter um conhecimento geral e não ficar
bobão aí sem ter o que falar, procurando enganar,
porque o público merece muito respeito.
Addison
- Dominguinhos, quero agradecê-lo mais
uma vez por essa oportunidade que está dando ao nosso
site, de ter uma entrevista com uma pessoa tão querida
que é o senhor, e dizer que Calçado estará
sempre a espera de mais um show de Dominguinhos, o nosso povo
gosta de forró e tenho certeza e seu show será
sempre apreciado com carinho por nós calçadenses
e visitantes.Muito obrigado!
Dominguinhos -Certo, eu quero agradecer também
pela entrevista que estou dando aqui, levando um pouco mais
de conhecimento para os jovens internautas, às pessoas
que estão interessadas no trabalho, estão interessadas
em saber um pouquinho do que a gente faz e etc...muito obrigado,
um abraço, até uma outra oportunidade e que tudo
corra bem.