Entrevista com Dr. Pedro Antonio de Souza

 


O nosso entrevistado é o Dr. Pedro Antonio de Souza, natural de Mimoso do Sul, e filho do Sr. Pedro de Souza (falecido) e de dona Isaura M. de Souza. Como médico e cidadão militante do PAN (Partido dos Aposentados da Nação), Dr. Pedro tem se dedicado de forma incansável a causa dos idosos.Trabalhando, de forma intensa, em Vila Velha ou em Calçado, encontramos o Dr. Pedro, ministrando uma Aula da Saudade na UFES para os alunos da turma da 3ª idade. De forma gentil, ele nos recebeu para conceder a entrevista a seguir.

O broinha: Dr. Pedro, fale-nos um pouco sobre sua trajetória.
Dr. Pedro: Minha trajetória começa , no mundo externo, no dia 18 de junho de 1950, na rua 23 de maio, no alto de São Sebastião em Mimoso do Sul. Por lá fiz meu curso primário, morei em Rio Novo do Sul e finalmente em Vitória. Em 1973, me graduei na primeira turma da Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia (EMESCAM). Na minha formação profissional, fiz meu internato e residência no Rio de Janeiro, especificamente em psiquiatria social. Trabalhei também alguns anos na área de planejamento de saúde, e desde 1993 venho me dedicando à geriatria e gerontologia.

O broinha: Como surgiu sua vocação em trabalhar com idosos?
Dr. Pedro: Particularmente acho esta questão curiosa, ainda durante a minha graduação, entrei na faculdade em 1968, eu sempre pensei em fazer geriatria, endocrinologia ou psiquiatria. Curiosamente, eu já pensava em geriatria na faculdade, apesar de não ter tido nenhuma aula sobre o assunto.
Nós, como adultos, vamos seguindo alguns caminhos da alma, sou uma pessoa que teve o privilégio de ter tido uma relação afetiva muito boa com os meus avós maternos, principalmente a minha avó, e desde pequeno sempre me interessei em conviver com as pessoas de mais idade. Felizmente, como escolhi a psiquiatria social e fiz minha formação em saúde mental no Instituto Nacional de Arterapia no Rio de Janeiro , fui conduzindo minha vida profissional para as ações promocionais da saúde.

O broinha: Como a sociedade trata o problema do idoso hoje? O Sr. acha que mudou, se comparada a 20 ou 30 anos atrás?
Dr. Pedro: Está mais favorável. Hoje o idoso conquistou aquilo que chamamos de visibilidade social. Na medida que o nosso país está passando pelo envelhecimento populacional, onde 7% da população tem mais de 60 anos, tem acontecido um avanço considerável na geriatria e gerontologia, e as pesquisas mais recentes tem proporcionado ao idoso melhores condições de vida. Outro aspecto importante, é que o idoso vem ganhando espaço na mídia e se organizando como grupo social, através dos centros de convivências e das universidades abertas à 3ª idade.A situação hoje é bem melhor, mais ainda longe da ideal. Hoje, o paradigma dominante em relação ao idoso, ainda é relacionado aos valores considerados negativos da velhice, e o desafio da gerontologia, prescrito pela Organização Mundial de Saúde, é a mudança deste paradigma , onde a velhice passará ser vista com naturalidade.

O broinha: O que levou o Sr. para São José Calçado?
Dr. Pedro:Fui para Calçado, depois de seis meses de insistência do Dr. Guerra, então secretário de saúde no governo do meu colega de faculdade do Dr. Raft. O Dr Guerra insistiu que eu fosse para lá, para dar uma assistência na secretaria, pois eu já tinha a experiência de implantação da nova estrutura em Mimoso do Sul, acabei aceitando o convite.
O broinha: E o trabalho com os idosos?
Dr. Pedro: Não fui para Calçado para trabalhar com a 3ª idade, mas o Dr. Raft, que tinha sua mãe dona Olga já velhinha e sem atividade, me disse do seu interesse em criar um centro de convivência, e gostaria que eu me envolvesse, pois já conhecia o meu perfil e a minha formação em saúde mental.
Junto com duas assistentes sociais, formamos um grupo e começamos este trabalho. O interessante, é que neste ano de 1993, eu havia perdido o meu pai e ainda estava muito sensibilizado. No período em que esteve doente, passei pela condição de seu "cuidador", e me identifiquei com o trabalho. A partir daí, passei a procurar qualificação profissional especifica para área do envelhecimento. Fiz pós-graduação no Hospital Antonio Pedro, na Fundação Oswaldo Cruz e na PUC do Rio.


O broinha: Sabemos que o Sr. vem trabalhando, há muitos anos em Calçado, com as pessoas da 3ª idade. Fale-nos sobre esse trabalho?
Dr. Pedro: O primeiro encontro com os idosos, reuniu oito pessoas no salão nobre do grupo Manoel Franco, todos olhando assim meu desconfiados. Mas continuamos. Um dia, um deles levou um "oito baixo" e começou a tocar, descontraindo o ambiente e, assim, fomos motivando estas pessoas para que buscassem outras.
   O trabalho com idosos tem resposta muito positiva. Na comemoração do primeiro aniversário deste trabalho, fizemos uma festa no Montanha Clube onde reunimos mais de 350 pessoas, sendo aproximadamente 150 de Calçado e o restante vindas de Bom Jesus do Norte, Bom Jesus do Itabapoana e Itaperuna. Foi uma festa maravilhosa.

O broinha: E o poder público municipal tem sido um parceiro nesta sua jornada?
Dr. Pedro: Quando este trabalho começou, em 1993, foi uma decisão do governo municipal do Dr. Raft. Coube a mim, o papel de coordenar o trabalho. Foi uma fase de muito crescimento, onde tive a oportunidade de ser secretário de desenvolvimento social durante dois anos. Além das atividades criativas, promovemos bailes e o forró da 3ª idade(que as pessoas gostam muito, pela sua identidade cultural). Implantamos também o turismo social, onde visitávamos e recebíamos pessoas de outras cidades. Fizemos o centro de produção artesanal e o grupo folclórico da 3ª idade. Neste período, o trabalho de inserção do idoso, fazia parte de um plano de governo.

O broinha: Este trabalho continuou em Calçado?
Dr. Pedro: No governo seguinte, durante três anos, tivemos a oportunidade de criar Associação Municipal de Envelhecimento(AME), que nos seus melhores momentos chegou a ter mais de 400 associados. A associação, desenvolveu na época, um trabalho bastante intenso com escolaridade dos idosos.
   Após a minha saída da secretaria, o trabalho continuou, mas passou a ser dirigido por pessoas sem a qualificação técnica sobre o assunto. O trabalho com a 3ª idade ficou restrito ao forró, que é muito importante como pólo de agregação, pois pode ser usado para o diagnostico de lideranças e o entrosamento entre as pessoas. Mas, quando o trabalho é feito por pessoas sem qualificação profissional, fica o baile pelo baile.
   As vezes, escuto também reclamações da descaracterizações dos baile, não ficando restrito a 3ª idade.

O broinha: Estudos recentes, apontam que em 2025, o Brasil será um país com uma população aproximada de 34 milhões de pessoas com mais de 60 anos. O que a sociedade, e o poder publico, precisam fazer para enfrentar esta situação e permitir que a nossa população envelheça com dignidade?
Dr. Pedro: Ter uma decisão política e o entendimento que esta questão assusta o mundo todo. Se chegarmos aos 34 milhões de brasileiros, nas condições atuais, teremos uma epidemia de demência e um volume muito grande de pessoas incapacitadas, do ponto de vista mental e físico. É urgente, que as políticas públicas sejam construídas, para evitar que o aumento do número de pessoas idosas não venha acompanhado deste perfil epidemiológico, que hoje está sustentado por muitas doenças que chamamos de crônicas não transmissíveis, e que geram incapacidades.


O broinha: Já que estamos em período de eleições municipais, o que o sr gostaria de falar para os candidatos a prefeito? O que eles tem que fazer para enfrentar esta situação?
Dr. Pedro: O primeiro passo, para que a situação do idoso não se torne uma tragédia, é não pensa-la fora do contesto geral da sociedade. Se você cuida bem do idoso, mas não pensa nas crianças e nos jovens , o problema não será resolvido.
   Fica difícil de acreditar em governos onde o diploma de uma secretária de ação social do município, é a certidão de casamento com o prefeito. Pessoas, que não tem competência para ocupar os cargos que ocupam, - eu gosto de dizer - cargos que desocupam, não nos trás muitas esperanças.
   Calçado está por eleger um novo prefeito, espero que os candidatos entendam o problema do idoso dentro do contexto geral do envelhecimento humano, e não, apenas a questão da velhice, pois envelhecemos como vivemos. Portanto, a criança, o jovem o adulto e o velho requerem cuidados. Espero também, que sejam implementadas ações em parcerias com os governos, federal e estadual, onde temos as políticas nacional e estadual do idoso, e, que escolham para os cargos, pessoas com competência técnica e não aquelas indicadas por algum político amigo.

O broinha: Para encerrar, que mensagens o sr. gostaria de deixar, principalmente para os mais jovens, que serão os nossos idosos do futuro?
Dr. Pedro: O que gosto de dizer, para a população não idosa, é que viva intensamente a infância e a adolescência, com participação e com interesse, pois uma das formas preventivas da demência é a informação. Hoje, um jovem que não estuda, que não se informa, que não observa o que está em seu entorno, não utiliza bem o cérebro , tornando mais propenso a um quadro demêncial na velhice. Outra questão, é não desenvolver hábitos nocivos a saúde, tais como: o cigarro, a ingestão excessiva do álcool e de qualquer outro tipo de droga. Não fique só contemplando o mundo, tenha uma ação ativa, uma alimentação saudável e rompa com o sedentarismos. Todas estas ações levam a uma preparação para o envelhecimento saudável.
   Neste final de entrevista, gostaria de pontuar uma questão sobre o nosso trabalho em São José do Calçado. Tivemos a oportunidade de fazer parte da grade cientifica da Sociedade Brasileira de Gereatria e Gerontologia. Calçado era uma referência, na inserção social do idoso no Brasil. Participamos de vários congressos brasileiros, apresentando o nosso trabalho em São José do Calçado. O impacto que este trabalho teve foi sempre muito positivo.
   Outro fato, que acho importante comentar, é que Calçado é o município do estado do Espírito Santo com maior presença de pessoas com mais de 60 anos dentro de sua comunidade, por volta de 12% da população. Este índice é considerado muito alto, o que comprova que vivemos as últimas décadas sem nenhum ciclo de crescimento, uma vez que a taxa de mortalidade e a de natalidade de Calçado, não difere dos outros municípios do estado. O fluxo migratório, de Calçado para outras localidades, tem sido muito intenso nestes últimos anos. Isto prova porque o trabalho que fizemos em Calçado, teve tanta repercussão na comunidade, Hoje, qualquer pessoa na cidade entende a importância deste trabalho.



 

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