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A lista


Quem já morou, ou mora na pequena cidade de São José do Calçado, deve ter conhecido, ou conhece o "Sô Joaquim da dona Elvira" ou o "Joaquim do Mateus". Não importa, trata-se da mesma pessoa. Acredito que devam conhecê-lo, porque houve época em que era bastante popular. Possuía um pequeno comércio no centro da cidade, e trabalhava como caixa nos bailes do Montanha Clube.

Hoje ele leva uma vida menos agitada; dedica-se a cuidar de meia dúzia de galinhas e atualizar "sua lista". Parece trabalho simples, mas Sô Joaquim leva tão a sério suas obrigações, que praticamente não lhe sobra tempo para mais nada. Na verdade, as galinhas pouco lhe ocupam. O que toma mais o seu tempo é a tal "lista".

Desde que entrou na chamada terceira idade, lá por volta dos seus 65 anos, começou a freqüentar velórios e a fazer a lista de quem seria o próximo defunto. Se alguém adoece, ele coloca na lista. Se piora, encabeça a tal lista. Se não melhora em dois dias, ele já pega a caneta para "dar baixa". Se melhora, passa para o terceiro ou quarto lugar. Se estava internado e sai do hospital, passa para a lista de espera. Se está em casa e tem qualquer alteração no quadro, volta para a lista.

Quando é dada a tal "baixa", Sô Joaquim se prepara para a outra importante etapa de suas obrigações. Comprar um queijo, fazer uma garrafa de café, assar um bolo e se dirigir à capela para o velório. Não importa se o defunto é alguém conhecido ou não. Isto ele descobre depois. Sua ausência é tão sentida, que quando se atrasa para o evento, um bêbado da cidade passa sob a janela de sua casa e grita: "Sô Joaquim, morreu mais um, estão esperando o senhor lá!"

Recentemente, Sô Joaquim achou que estava entrando na lista. apavorou-se, procurou vários médicos, fez vários exames e feliz, constatou que ainda não era a sua vez. Para que ele não saísse do consultório sem remédio, o médico receitou óleo de amêndoas para passar na pele, pois achou que estava um pouquinho ressecada. A partir de então, Sô Joaquim tem mais uma obrigação antes de se dedicar às galinhas e à lista. Acorda cedo, toma banho e lambuza o corpo com o tal óleo de amêndoas. Feliz, sorridente e "cheiroso" ele afirma: "Nunca é bom facilitar. Quem sabe pele ressecada também mata? ..."

Denise Rodrigues de Souza

Obs. Esta crônica faz parte da coletânea "São José do Calçado não cabe em apenas uma crônica", com 45 outros autores, a ser lançado no sábado da festa do município.

 

 


 

 

 

 

 

 

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