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A
partida
Já
eram passados dezoito dias frios do mês de julho, quando
deixei minha terra natal, São José do Calçado,
em 1954. Não em busca de aventuras, pois os meus objetivos
eram bem definidos. E o meu novo endereço seria a casa
de meus tios em Belo Horizonte, cidade então pacata que
não se prestava a devaneios e futilidades, a não
ser trabalho e estudo, binômio que preenchia com todos os
requisitos as minhas necessidades daquele momento
E enquanto o asfalto da estrada consumia a borracha preta dos
pneus do ônibus que engolia a primeira etapa da viagem entre
Calçado e Rio de Janeiro, acionei o gravador da memória.
Queria arquivar, apenas e tão somente, os alegres, descontraídos
e inesquecíveis momentos vividos em minha cidade. Momentos,
cujas recordações me tornavam fedelho, de pé
no chão, cortando sem pressa e sem horário as ruas,
praças, becos e estradas de terra batida que ligam os diversos
distritos do município.
A interseção de uma linha imaginária, partindo
da porta principal da Igreja Católica até a porta
do Grupo Escolar Manoel Franco, com a rua que corta a grande praça
em duas, Praça Pedro Vieira e Praça Governador Bley,
era o ponto geométrico do centro da minha cidade no meu
tempo de menino. Partindo desse ponto, em um raio de, aproximadamente,
três quilômetros, suponho não existir um metro
quadrado que não tenha sido pisado e repisado pelos meus
pés.
Pés,
geralmente sujos e naturalmente feridos por espinhos e cacos de
vidro, cujos remendos eram, cuidadosamente, costurados pelo saudoso
e estimadíssimo "seu Cruz", para aliviar as dores
e evitar o tétano. Se o estrago ocorresse no arco que tangencia
Bandeira, Jaspe e Córregos das Areias, era mais prudente
procurar a Farmácia do "Seu Cajuca" (José
de Souza Mello), por estar mais perto e fugir do sobe e desce
da ladeira, pulando com um pé só, e cujo atendimento
era imediato, com sua costumeira atenção e boa vontade,
características, aliás, sempre encontradas nos velhos
calçadenses daquela época distante.
E
o sacolejo do ônibus me adormeceu, só acordando quando
senti o cheiro característico do mar e o clarão
das luzes da Cidade Maravilhosa, divisor presente, entre o passado
e o futuro, já que meu destino final era Belo Horizonte.
Naquela época, 1954, contrariando um princípio básico
da Geometria clássica, a de que o caminho mais curto entre
dois pontos é uma reta, para de deslocar de Calçado
para Belo Horizonte, o caminho mais curto era um triângulo
de, coincidentemente, 450 quilômetros de cada lado, logo,
um triângulo equilátero. Ainda não tínhamos
a BR-262, mesmo cheia de acidentes provocados pela burrice humana,
nem a BR-101, cheia de buracos e trechos interrompidos.
Às
vinte e uma horas, do dia 20 de julho, embarquei num minhocão
de aço escovado da Rede Ferroviária Central do Brasil,
chamado "Vera Cruz", e segui para a capital mineira.
Lá, na estação, encontrei com as duas "detetives",
Ruth e Dinah, minhas primas, portando meu retrato de formatura
do Ginásio de Calçado, para me localizarem na plataforma
de desembarque. Era uma manhã gelada de 21 de julho de
1954 em Belo Horizonte, onde, plagiando Cesar, inclusive na língua
latina, "Vini, vidi, vinci" (vim, vi e venci).
Samuel Thièbaut
O
autor é calçadense de São Benedito, em 1933,
formado em economia e administração de empresas
pela PUC, membro da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra e professor de Economia Internacional
em Belo Horizonte.

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