ESPERANDO A ENCHENTE



   Sempre que surgia uma oportunidade, na época em que residia em Vila Velha, eu vinha passar feriados e finais de semana em Calçado. Minha hospedagem predileta era na casa do saudoso casal Pedro Lima/Dona Zinha, hoje toda reformada pelo seu genro Osair. Minha amiga Dôra, filha mais nova do casal, com quem eu tenho grande afinidade, sempre me recebeu com muito carinho, e, Dona Zinha me cativava, a cada minuto, com sua alegria e espontaneidade.

   Numa dessas visitas, estávamos jantando quando o alto-falante do Sr. Jair Mello anunciou bem forte: "Atenção, povo da beira do rio! Vem aí um grande volume de água! Preparem-se porque caiu uma tromba d'água no Pavão e as águas estão vindo em direção à cidade!" Foi um pânico geral. Largamos o prato de comida na mesa e fomos para a ponte esperar a enchente. Toda a cidade se mobilizou e os moradores das áreas mais baixas começaram a retirar móveis e objetos de valor de suas casas.

   Interessante que, neste dia, João Bosco - meu marido - também se recorda que esteve na ponte, esperando o rio encher, junto com outros amigos e, não me lembro de tê-lo visto por lá, tamanha era a quantidade de curiosos muito assustados e alguns até desesperados. O médico (Dr. Carlos) veio de ambulância e, aos gritos, mandava todos saírem da ponte e irem para o hospital que, de lá, não haveria perigo de ninguém se afogar.

   Ficamos a postos e ansiosos, aguardando as águas chegarem pelo rio, mas nada do volume aumentar. As horas foram passando e alguns, já desinteressados, iniciaram a debandagem. Lembro-me do fato com muita clareza. A expectativa por um acidente era conflitante. Uns queriam ver a enchente, enquanto outros rezavam para que ela não chegasse.

   Fui uma das últimas pessoas a abandonar o posto na ponte. Um vento frio chegou como que trazendo a notícia do desvio da água para outras paragens. Retornamos à casa desanimados e conformados pela inegável constatação de que, não conhecendo realmente a topografia da região, jamais deveriam ter mobilizado toda a cidade na certeza de uma enchente que, por sinal, nunca chegou!


Cristina Garcia



 

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