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No ônibus, eu vinha pensando: será que aquela
árvore ainda está lá? E, aquele banco...
Ó, quantas horas alegres, quantos momentos felizes
passei ali, sonhando e buscando inspiração para
transformar meu futuro numa poesia cheia de encantamento...Será
que aquele canteiro, o único, traz ainda aquela roseira,
donde, uma vez, tirei um botão?... Era lindo quando
subia eu, passando pela ladeira do Montanha, para olhar o
sol morrendo! Lembro-me ainda quando encontrei o meu amor.
Foi naquele banco...
O ônibus estava chegando, vindo de longe - de Afonso
Cláudio, onde estou morando; onde comigo mora a recordação
desta Calçado, cidade mãe do meu corpo e amiga
da juventude minha. Que bom voltar à casa paterna!...
E, ao chegar, a primeira impressão que tive foi de
que minha casa tinha sido reformada. Suas paredes não
estavam mais desbotadas; percebi um lindo colorido a dar elegância
àquela moradia, residência dos meus sonhos de
menino pobre... A casa tinha sido mesmo modificada; estava
nova e bonita...
Esta casa - minha casa - é Calçado.
Corri àquela praça. Fiquei triste. Não
encontrei mais a árvore, o banco; aquela roseira foi
morta ou a levaram dali. Está tudo diferente. Não
encontrei mais nada que deixei; levaram-me tudo... Não
reformaram minha casa; derrubaram-na e construíram
uma outra, muito mais bonita, é claro. Mas, fiquei
triste. Ora, não devia misturar realidade com fantasia.
Que tolice a minha de ficar triste... No lugar do meu canteiro
há milhares de diversas flores; no lugar daquela árvore
tem outro canteiro florido; enfim, tudo são flores,
um só perfume em cores... Eu que, de começo,
fiquei zangado, acho agora lindo tudo isto. Tenho até
inveja dos que vivem hoje, neste jardim, o que eu vivia ontem
naquela praça pobre...
O homem transforma tudo. Porém, para sair do feio para
o belo, é necessário que este homem tenha um
coração que saiba admirar, um coração
que o empurre disposto para o trabalho, levando-o até
ao final de suas aspirações. O nosso Prefeito
tem esse coração. E, no peito de nossa Calçado,
o seu nome é o coração - jardim cândido
que dá garbosidade às nossas ladeiras.
Como a mim foi dado o direito de um elogio, gostaria de ter
permissão para dar uma pequena sugestão.
Que achas, meu caro J. B., de um chafariz, ali bem no centro
da praça, entre as flores que plantaste?
Marcio
José Furtado
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* Crônica publica em "A ORDEM", no domingo
de 17 de dezembro de 1967.

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