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Sou broinha, sim senhor!  


   No último fim de semana, em meio a festas, Calçado comemorou mais um aniversário. Filho de pai carioca e de mãe nascida aqui mesmo, em Vitória, sou o único da família calçadense da gema. Embora tenha vivido lá só até os seis anos de idade, convivo até hoje com uma pedra no sapato, pelo fato de ser calçadense. Na verdade é uma pedra herdada da zanga dos demais conterrâneos que nunca suportaram o engraçado apelido de "Broinha", São José das Broinhas!

   Taí um xingamento capaz de estragar o bom humor dos f1lhos da boa terrinha. Menos o meu. Exatamente porque, no meio de mil versões sobre a origem da "blasfêmia", sempre me apeguei à explicação que minha mãe dava ao fato.Dizia ela que, na época em que o Colégio de Calçado, comandado por dona Mercês Garcia, reinava absoluto como o melhor da região, atraía estudantes de muitas cidades vizinhas. Um ônibus, daqueles pequenininhos, tipo lotação, saía diariamente de Bom Jesus do Itabapoana, levando às aulas uma turma de rapagotes, filhos das melhores famílias daquela cidade do Norte Fluminense.

   Estrada ruim, de barro, subindo a serra, o velho Chevrolet gastava quse um par de horas até Calçado. Saía, então, de madrugada escura e
a rapaziada só tomava o café da manhã no Bar do Luizão. Aquele ali, no topo da ladeira, na esquina, à esquerda. .O bar era. aberto especialmente para atender os jovens estudantes. Mas o pão, a padaria ainda não o tinha pronto. Então, serviam-se todos das famosas broas de milho do bar do Luizão. "Terra das broinhas ... São José das Broinhas". . .

   O que, talvez num primeiro momento, pudesse ser um deboche, sempre me soou a coisa. gostosa. Uma imagem doce, assim como eram as compotas de frutas da dona Carolina. A de figo, guardo ainda na boca o seu mel. Ou o maron dois por tostão que se vendia num barzinho logo no início da ladeira, um pouco abaixo da sinuca. Ou o doce de abóbora que mamãe sempre fazia as colheradas num tabuleiro secando ao sol, polvilhado com canela. Era crocante, e, dentro, um melado inesquecível. Tão gostoso! ... Tão Calçado!

Marcos Alencar

 

 


 

 

 

 

 

 

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