O José Venâncio,ou simplesmente Zé,filho
da Vicença,de grata memória,nasceu na Fazenda
Velha.
Quanto a seus antepassados remotos,devem ter vindo na primeira
leva de escravos para o Brasil.E todos eles,sem exceção,
devem ter trabalhado duro e em serviços dos mais pesados,
de pé,rarissimamente sentados--e assim por gerações
e mais gerações até chegar ao Zé.Digo
isso escorando-me na teoria evolutiva de Darwin,na parte que
trata do uso e não uso dos membros.
Com efeito,somente pressupondo um uso excessivo das extremidades
inferiores das pernas poderemos começar a entender o
tamanho dos pés do Zé.
Para começo de conversa, o homem não andava,remava
um bote da largura e comprimento de seus pés.Sendo assim
tão avantajado,não é de se admirar que
o víssemos sempre descalço.Ele não tinha
dinheiro para mandar fazer um par sob encomenda e,por outro
lado, a indústria nacional ainda não se preparara
suficientemente para a produção em série
de um que lhe servisse.Alguém poderia argumentar comigo
que os sapatos que calçam os marmanjos do basquete certamente
serviriam no Zé Venâncio.Ledo engano.O problema
é que os pés do Zé não eram só
extremamente compridos mas também monumentalmente largos.Outra
singularidade sua advinda da impossibilidade de andar calçado,
era a espessura e dureza das solas dos seus pés,que rivalizavam
com os cascos de cavalo.
Lá às vezes me encontrava com o Zé Venâncio
num trecho da estrada de Calçado para a Fazenda Velha,com
o sol de verão a pino,ambos descalços,meus pés
e os dele.Os dele em cima do asfalto,os meus queimando mesmo
na terra do acostamento.E tinha eu a desagradável impressão
de que os pés dele zombavam dos meus,que as pontas de
seus dedões faziam comentários humilhantes para
as pontas dos meus.E as suas unhas,que deviam ser desbastadas
a poder de lixa nº 20--coisa de lixar ferro,pedra granito-,nem
me atrevo a imaginar o que possam ter sussurrado para as minhas.E
o Zé preferia andar na ponta fumegante do asfalto.Também
os cavalos, imagino, não dêem muita importância
em trotar no asfalto,se estiverem devidamente ferrados...
Em matéria de educação,daquela mais profunda
e que nos vem de berço,o Zé Venâncio era
uma dama.Nunca deixava de perguntar sobre a saúde de
todo mundo,desde a parentela recém-nascida até
àquela em seu leito de morte,por velhice.E era um tal
de desejar que os santos B,C e D protegessem a todos,que o melhor
era sair de fininho como se ele tivesse acabado de falar.Escrevi
falar?
Veio-me à cabeça agora a difícil tarefa
de botar em letra de forma o que só podia ser apreciado
presencialmente ou em filme sonoro.O homem emitia o som de voz
de um modo tão original, que poderíamos muito
bem chamar de zevenancês.Insisto na palavra “emitir”,uma
vez que o conteúdo do que ele emitia era menos interessante
que o modo físico pelo qual ele o fazia.Como era muito
gentil,falava a sorrir.E sorrindo,exibia todo o interior cavernoso
da boca,que era enorme e tinha certa semelhança com um
balaio troncho,daqueles feitos de taquara,daqueles que parecem
implorar para que as pessoas lhes joguem algo pela sua disforme
abertura.Talvez por isso a dicção fosse tão
prejudicada, e o que ouvíamos era uma torrente de palavras
emendadas umas nas outras,com a entonação indo
para o beleléu.Um aparelho que registrasse esse fenômeno
fonético na forma de linha,se não desse defeito,faria
uma representação gráfica bastante esquisita,com
enormes flutuações na forma de picos himalaicos
súbitos e descensões abissais repentinas.O som
emitido era parecido com o da folha dum serrote vigorosamente
empunhado e sacudido no ar,ou ainda o de uma sanfona aberta
e fechada por um bêbado em braçadas frenéticas
de quem se afoga.
Enquanto ele estava vivo e operante,via-me numa espécie
de dilema: queria que ele tirasse o seu ganha-pão evidentemente,mas,por
outro lado,sentia-me responsável por não avisar
a quem o contratasse para o serviço de campina de quintal,uma
de suas especialidades,de que devia fiscalizá-lo proximamente
a ele.Por quê?Bem,digamos que o Zé não fosse
tão bem dotado mentalmente quanto o era fisicamente falando.E
uma prova disso era que ele tomava o “limpar” ao
pé da letra,imaginando talvez que nada cuja altura fosse
superior a 1 metro valesse a pena conservar vivo,com respeito
ao reino vegetal.Assim,a enxada do Zé,afora pé
de manga de tronco taludo e copa ramalhosa,e congêneres,cortava
tudo o mais,fosse uma mudinha mimosa de laranjeira de qualidade
ou um caruru rasteiro,um carrapicho de carneiro,um picão
preto,uma tiririca sem-vergonha.Ele não fazia distinção
com sua ferramenta democrática.Cortava,derrubava, matava
tudo bem matado,de a raiz apontar para o céu,como a rogar
misericórdia.
0 Zé Venâncio,coitado,também tinha um azar
danado com barganhas e com mulher.Sempre saiu perdedor nas duas
coisas.Trocava colchão novo e macio por radinho de pilha
velho,desde que falasse,fogão a gás em perfeito
estado por vitrola enguiçada.Enfim,entre uma nota de
cinco e outra de dez,era capaz de preferir a primeira,caso fosse
mais nova e,portanto,provável que menos amarrotada e
menos suja.Quanto ao mulherio,elas ficavam com o Zé enquanto
pudessem tirar o que ele tinha e o que não tinha;terminada
a "limpeza" nele,elas davam o fora e ele ficava a
girar os dedos.
Correm inúmeras anedotas sobre o Zé Venâncio,daquelas
de o sujeito contar e o ouvinte se mijar todo de riso. Infelizmente,
não me recordo de nenhuma no momento.Mas isso não
é problema,basta o leitor ir ao Livro de crônicas
n° VI,aqui do Broinha.e se regalar com uma escrita pelo
Gilberto sob o título de "Qué que empurra?",para
ter uma boa idéia do tipo simplório mas prestativo,bondoso
que era o Zé.Só a ida dele à cidade de
Aparecida do Norte,para render homenagem à santa,em excursão
de ônibus,rendeu umas duas ou três anedotas.Oxalá
o Gilberto ainda as conte.
Mais uma coisa, para terminar: uma vez vi o Zé Venâncio
pegar com muito respeito a mão de meu avô Zezé
e levá-la aos lábios,pedindo "a sua bênça,padim",na
rua.Comovente...
Carlos
Rezende
