P E R F I L
Nádia Teixeira de Rezende: Das estórias de dona Nádia - Parte 02



2.1. Das rezas do terço

Tempestade no Jacá, raios, estalos e trovões de grande intensidade, parecia que o Todo Poderoso estava aborrecido, que o mundo vinha abaixo. A família se reunia na sala de jantar, alguns tremendo, outros apenas assustados, queimava-se palha benta do último Domingo de Ramos, e a Nádia, como a de mais iniciativa, puxava o terço, todos ajoelhados, em coro acompanhando, um terço mais ou menos improvisado, de emergência, visando apenas a aplacar as fúrias do Criador.

Na Fazenda Velha muito diferente, havia uma rotina de reza do terço, rotina e solenidade, principalmente depois do falecimento de seu Luizinho, durante o luto, que foi longo, meses e mais meses, um ano, não sei. À noite juntavam todos na casa da dona Lota. Para os adultos uma forma de expressar a fé e pedir pela alma do morto, para as crianças, embora também contritas, já que criança acredita em tudo que os grandes falam, era mais um enfado, quase martírio, permanecer ali ajoelhado, os dois joelhos no chão, mãos cruzadas, cara fingida de contrição, mais de meia hora sem poder se mexer, brincar ou simplesmente conversar. Quem puxava o terço era a Nádia, na sua pose de líder, ex-filha-de-maria, tinha bastante experiência e jeito para a coisa, com sua autoridade mantinha todos em atenção.

Porém havia uma situação bem pior, o terço da dona Euclísia. Se com a Nádia já era maçante e difícil de agüentar, imagine com a dona Euclísia, muito mais comprido, prolongado e complicado.

Ela era uma senhora já idosa, beata e solteirona, prima de dona Lota. Às vezes vinha passar uma temporada na Fazenda Velha. Boa gente, porém mandona, moralista e autoritária, mantinha forte pressão sobre as crianças. Enquanto presente, não abria mão de puxar o terço. Como ainda nos lembramos, este começa com um "Creio em Deus Padre", um "Padre Nosso" e mais três "Ave-marias", seguidas dos cinco "Mistérios", que são recitados junto com um "Padre Nosso" e intercalados por dez "Ave-marias", terminando com uma "Salve Rainha". Reza de meia hora, quarenta minutos com a Nádia, mais de uma hora com dona Euclísia, pois antes de cada Ave-maria ela enfiava um refrão, um tal de "coro dos anjos": Assim seguia: "primeiro coro dos anos, Ave-maria, cheia de graças, o senhor é convosco, etc"; "segundo coro dos anjos, Ave-maria, cheia de graça, etc". e assim, terceiro, quarto e até o décimo coro dos anjos, em cada série de cada Mistério. Uma demora de mexer com os nervos. Portanto era um alívio quando a velha ia embora e o comando do terço voltava para a Nádia.

Vamos recordar agora de um caso que aconteceu numa das rezas do terço. Todavia antes, como introdução, para criar um clima, vale lembrar e colocar algo relacionado, a letra de uma musiquinha ouvida de um guia turístico local no Pantanal Mato-grossense, de título "Soltaram um gás". No início, após a apresentação, antes das explanações, para descontrair os turistas e alegrar o ambiente, ele, guia, convidou a turma a cantar em coro:

"Soltaram um gás! Soltaram um gás!
Acho que foi a turma de trás!
A turma de trás é bem diferente,
acha que foi a turma da frente.A turma da frente não faz rodeio,
acha que foi a turma do meio.
A turma do meio é desportista,
acha que foi o motorista.
O motorista não faz besteira,
acha que foi a turma inteira
A turma inteira está inocente,
só pode ser o guia da gente
Estou arrependido, estou envergonhado...confesso,
confesso a vocês que comi feijoada."

Pois no caso em questão alguém soltou um gás, aconteceu mesmo, não é invenção não. Um fenômeno muito estranho que ocorreu durante uma das rezas do terço na casa da dona Lota. Todos concentrados, ajoelhados, compenetrados, acompanhando em coro a líder, no seu ritmo, quando começou a aparecer no ambiente um cheiro desagradável, cheiro conhecido, cheiro proibido.

Já se pode imaginar do que falamos. A coisa foi se agravando em silêncio, de forma que não se podia imaginar quem seria o dito cujo, mas agravando o odor, tornando o ambiente irrespirável, até que o Oscar, não agüentando mais foi o primeiro a reclamar, pegou de sua cadeira, pois como exceção ele se ajoelhava em um joelho só, se apoiando numa cadeira, falou em voz alta pra todo mundo ouvir "tem alguém podre por aqui, é muita falta de respeito", e se afastou indo lá para a outra sala. Pronto, a garotada esperava uma dica para começar a rir, primeiro riso contido, segurado, depois descontrolado, escancarado, quando então começou a surgir os barulhos, pareciam rajadas de metralhadora e o responsável foi identificado, um dos garotos, que levantando-se foi para a cozinha, atirando, deixando atrás de si um rastro de poluição. A Nádia que estava puxando o terço ficou sem saber o que fazer, aquilo não era coisa comum, era um acesso, merecia até um estudo, presença de especialista. Dona Lota, colocando panos quentes, comentou "isto acontece com os vivos". Conclusão, uma avacalhação, não deu para continuar, parece que o terço foi melado, interrompido, ou será que não? Não, não há certeza absoluta quanto a isto, mas de qualquer forma se continuou foi um resto de reza apressada, desmoralizada, sem convicção, incapaz de sensibilizar os santos e anjos ou o próprio Deus. O fenômeno foi tão estranho, tão esdrúxulo, tão exagerado, que deixou os adultos sem ação e os pequenos numa gozação, ainda mais que não houve feijoada naquele dia, sendo mais razoável pensar talvez em mexerica ou batata-doce em excesso. Não houve igualmente repreensão e nem castigo, carecia de condições para isso. Todavia ficou registrado o fenômeno como algo muito estranho e a lembrança do caso para que um dia fosse contado.

2.2. Da estréia do chicote

Um ano após o casamento, tendo em vista que o Jacá ficou sem escola, a Nádia resolveu conversar com o pai e trouxe para morar com ela um dos irmãos mais novos, do segundo matrimônio, o mais velho deles que aos sete anos não podia ficar sem estudo. O menino não era dos mais levados, mas também não era santo, dava lá o seu trabalho. Nádia que fora uma menina levada e levara inúmeras surras do velho, então mais novo e mais sem paciência, achou de bom alvitre que tinha que educar o irmão, não com aquele jeito dos Vieira, na base do deixa pra lá, da moleza, pouco rigor e muita paciência, e sim como ela fora, com rigor, no princípio de que criança tinha que ser educada passando os seus percalços. Esta, como já foi dito, era a política lá do Jacá, criança não tinha moleza, e estava sempre sujeita a bolos, chineladas, beliscão, puxão de orelha ou umas boas correadas. Pois o pai mandou junto com o menino um chicote, por sinal bem simples, diferente dos dele que eram trabalhados e enfeitados. Esse era um simples pedaço de madeira, uma espécie de porrete curto, com duas tiras de coro de mais ou menos um metro e meio de comprimento, presas na ponta.
Este chicote foi inaugurado, acho que podemos dizer, de uma maneira pouco ortodoxa. O menino fazia das suas, mas muito esperto não dava chance. Mais ou menos bom aluno, não brilhante, um tanto preguiçoso, mas tinha facilidade em entender e sabia conduzir as coisas. O único problema eram os assuntos de Português, mais precisamente o ditado, errava muito e só tirava zero. Também o critério era por demais rigoroso, cada erro contava um ponto, dez erros nota zero, vinte erros também zero, não tinha nota negativa. Como normalmente em três quartos de página ou numa página inteira, ele cometia em torno de vinte erros, quando errava pouco, por exemplo doze erros, dez erros, a nota era também zero. O caderno de ditado era uma sucessão de zeros, da primeira à última folha. E parece que não faziam nenhum efeito os castigos de costume, ou seja copiar cada palavra errada dez vezes.

O garoto ficou até meio sem vergonha, desanimado, não dava mais bola para aqueles zeros. A irmã um dia resolveu e ameaçou-o "olha aqui se você tirar zero no próximo ditado, vou lhe dar umas boas chicotadas". Não deu crédito à ameaça, achou que era conversa, pois não tinha dúvida que ia continuar tirando zeros nos ditados, ela também sabia, a ameaça um despropósito. Como conseguir diferenciar dois esses de ce cedilha, gravar que antes de "b" e "p" era "m", o "g" com o mesmo som do "j", os xis com os esses e os zes? Uma confusão. E os acentos, agudos, graves, circunflexos, diferenciais, palavras proparoxítonas, paroxítonas e oxítonas? Tudo uma coisa de doido. Aquilo que ela falara não era ameaça, era certeza, apenas uma desculpa. Não deu outra, próximo ditado, nota zero. Aí o dilema da professora, como pegá-lo? Era esperto e sabido. Então fingiu que tinha alguma coisa a tratar com ele no banheiro, um cômodo amplo que ficava depois da cozinha, e chamou-o. Quando ele entrou ela lhe perguntou, "fulano, quanto você tirou no ditado?" A resposta foi de admiração e até um pouco cínica, todo mundo já sabia, "ué! Zero, é claro!". Então ela fechou a porta e mostrou o chicote que estava escondido e começou a lhe dar umas chicotadas, principalmente nas pernas. Uma coisa horrorosa, pulos, corrida, negaceios, vai e volta, gritaria e etc..Uma meia dúzia de lambadas deve tê-lo atingido.

No outro dia, no outro ditado, qual a nota? Mas é claro que foi zero de novo, aquilo era uma impossibilidade. Aí ele ficou meio assustado e fez seus planos, coça todo dia? De jeito nenhum, agora estava prevenido, ninguém o pegaria mais, nem no banheiro nem em qualquer outro ambiente confinado. Felizmente ela esqueceu e não falou mais no assunto e parece que nunca mais tocou naquele chicote, que ficou aposentado.
Muitos anos depois, quando tudo já estava de há muito esquecido e perdoado, num papo amigo entre os dois, saiu o assunto e ela lembrando gabou-se que aquela coça fora muito útil, para ajudar na educação. Ao que o outro, fingindo concordar para não desagradar, pensou consigo mesmo, lá com seus botões, "aquilo não adiantou foi nada, uma besteira, um momento infeliz, uma covardia, os zeros nos ditados ainda continuaram por muitos anos, só cessando muito tempo mais tarde, já no curso superior, quando começou a ter motivação para os estudos da língua portuguesa".

2.3. Do quase suicídio do Oliveira


Dona Nádia depois de algum tempo, já mãe de dois ou três filhos, resolveu mudar a escola novamente, desta vez para um prédio bem junto da casa, pertinho, no terreiro, onde era o paiol e a tulha, e havia espaço sobrando. De novo, por conta própria, derruba parede, levanta parece, melhora o telhado, caiação, pinturas, novo quadro negro, daqueles de cimento com pó de sapato, etc. etc., a mudança das carteiras e dos demais móveis agora em carro de boi, com ajuda dos próprios alunos.
O intervalo de aula era de meia hora, as crianças brincavam no terreiro, as meninas de um lado e os garotos do outro. Elas de roda, que era a brincadeira mais comum, cantando "pobre viúva, com quem se casar, com o filho do rei ou com o senhor general?", ou "a dona mariquinha tão engraçadinha", etc. etc., ou de saltar amarelinha, jogar peteca, pular corda, etc., e eles, os garotos, de pelada com bola de pano, jogo de baleba, pique de esconder, luta corpo a corpo e outras brincadeira mais brutas, brincadeiras de homens.

Pois em certa época, sabe como são crianças, ainda mais meninos entre os sete e os doze anos, cheios de vida, alguns insubordinados e moleques, criadores de problemas, pois eles inventaram uma brincadeira muito inconveniente, de mau gosto, que era jogar pedras nos carros que passavam, geralmente fordecos, os automóveis da época, que a estrada ficava bem junto do terreiro da frente, onde brincavam.

Houve reclamações, dona Nádia reuniu a turma e fez advertências, ponderou, ameaçou, mandou que parassem com essa brincadeira perigosa. Pararam? A maioria sim. Entretanto como sabemos nesses casos há sempre alguns recalcitrantes. Enquanto as pedras foram jogadas sem pontaria não aconteceu nada de mais grave. Até que um dia...

Até que um dia uma pedra acertou. O homem parou o carro e veio reclamar, estava ferido, sangrando no rosto, uma pedrada, e justamente naquele dia em que estava indo para o seu casamento. Um noivo com a cara machucada. Não se tem certeza se dona Nádia participou do evento, se a chamaram para reclamar. O que se sabe é que o autor da pedrada foi logo identificado, era o Oliveira, e que o homem ferido fez um grande estardalhaço, ficou uma fera, uma grande confusão, muito barulho, reclamou, xingou, ameaçou, disse que a coisa não ia ficar assim não, que ia reclamar ao delegado, chamar a polícia, falar com o juiz, etc. etc.. Porém logo logo foi embora porque não podia demorar, devia estar atrasado para o casório.

O pobre do Oliveira, um pretinho forte, meio gordo, talvez com uns nove anos, muito solicitado nas ajudas quando alguma tarefa dependia de força, ficou muito assustado. Não era mau garoto não, não era de fazer tais estripulias. Ele foi na onda de um outro menino maior, este sim, dos mais insubordinados e mau elemento. Esse tal, quando viu o carro surgir na curva, pegou duma pedra e convidou o Oliveira para apedrejarem. Na hora ele malicioso, que sabia do perigo, apenas fingiu que atirou a sua, enquanto que o outro bobão jogou de verdade.

Hoje em dia, é só observar, e vemos que o Rio Calçado vem lá da cachoeira do seu Zezé e desce quase direto, atingindo o antigo quintal da casa da dona Nádia, quando então vira à direita e desce. Naquela época, antes dos efeitos da erosão, o leito era outro, bem diferente, fazia uma longa curva de quase uns 360 graus, tangenciava o Alambique, continuava virando e somente depois é que seguia para a direita. Era volumoso, profundo, água escura de não se ver o fundo, dependendo do trecho, devia ter profundidade acima de três metros. Tanto que os filhos de seu Eustáquio, principalmente o Wenceslau e o Dário, quase toda tarde podiam ser vistos tomando seus banhos. Bem no meio da curva, eles chegavam de calção, faziam um pequeno aquecimento, se benziam beijando uma medalha que traziam no pescoço e se atiravam de cabeça, desapareciam, ficava um silêncio, e depois reapareciam uns vinte ou trinta metros mais abaixo, bufando e espargindo água. Pelo lado de dentro da curva havia uma grande área que lembrava uma península, continuação da propriedade de seu Manoel Vieira, onde a gente podia ver o gado pastando.

No final da curva, onde começava o quintal de dona Nádia, havia um poço bastante profundo e sombrio, água parada, junto de uma grande pedra e de uma árvore, um pé de piorra, cujas raízes em parte expostas mergulhavam nas águas do rio, junto ao barranco erodido. Pois era ali que os meninos bebiam água. Durante o recreio, desciam a encosta, e pendurados nas raízes expostas, se debruçavam sobre o rio, bebendo, usando as mãos como concha.

No tal dia fatídico, da pedrada, no final do recreio, um dos meninos retardatários quando foi beber água no rio deu o alarme, havia alguém dentro d'água, algo estranho, que subia e descia. Tentaram agarrá-lo pelos cabelos, mas era de pixaim muito curto, difícil de pegar, acabaram puxando-o de qualquer jeito. O Oliveira, desmaiado, deram-lhe massagens no peito e na barriga e o colocaram de cabeça para baixo. Vomitou um montão d'água e pouco a pouco voltou a si. Dona Nádia, depois de refeita do susto, mandou que o deitassem numa cama de empregado que havia na tulha, deixando-o de repouso, enquanto ordenou que o resto da turma excitada voltasse para a sala de aula para continuar.

O negrinho deve ter dormido mais de hora, depois apareceu na porta da sala, refeito, meio contrafeito, pediu para entrar e dirigiu-se ao seu lugar.
Um baita susto.

H. Teixeira de Siqueira

Vila Velha, novembro de 2004.