Dr Napoleão Lyrio Teixeira,sua viagem e o caso do bicho Charpinel



Prezado leitor,se você nunca ouviu falar do nome acima,saiba que levo apenas uma pequena vantagem sobre você: tenho em mãos um livro escrito pelo Dr Napoleão e pouquíssimas informações sobre ele colhidas junto a meus pais.

Entretanto, no próprio Broinha já existe uma menção ao seu nome na interessante crônica "Mais uma história de suas muitas vidas ...”,Livro V, escrita pela Maria das Dores Teixeira de Rezende Raggi,na qual se fala da saudosa Dona Nádia e no do Dr Napoleão,a propósito do famoso caso do "bicho" Charpinel,que o poeta Carlos Drummond de Andrade chamou de "o Saci de São José do Calçado”,segundo ainda Maria das Dores.

Napoleão Lyrio Teixeira é um calçadense nascido no Limoeiro,em 1911.Como tantos antepassados de ilustres famílias calçadenses, os seus eram mineiros.

"Formou-se em Medicina, especializando-se em psiquiatria,foi professor universitário, jornalista profissional, militar, conferencista nacional e internacionalmente disputado. Perfeito homem-do-mundo,falando e escrevendo fluentemente nada menos do que onze idiomas"... Deixou para"mais de 20 mil crônicas, mais de 100 monografias, 18 teses. Polimorfo,estudou (e publicou), desde a influência do pau de bugre e suas conseqüências no Interior brasileiro,ao problema da verminose e crônica do caboclo.O último tema solidificou imensa e intensa amizade com Monteiro Lobato,segundo nos conta João Regis Fassbender Teixeira,um de seus descendentes, num prefácio intitulado “Palavras...”"

Com o advento da Internet,as monografias do Dr Napoleão deixaram de existir tão somente no velho papel__e ganharam outra vida na mídia eletrônica. É assim que vamos encontrar no site http://www.ronet.com.br/conhecer/suicidio.htm, em quatro idiomas, dedicado a desfazer o tabu relacionado ao suicídio através do seu conhecimento e profilaxia,a obra do ilustre médico, "0 suicídio em face da psicopatologia da literatura, da filosofia, e do direito. Estudo psiquiátrico, médico-legal e profilaxia,junto a outras, algumas delas consideradas clássicas sobre o inquietante tema:” 0 suicídio”,do célebre pensador francês Émile Durkheim(1858-1917),tido como um dos fundadores da Sociologia,”Eros e Tânatos : o homem contra si próprio”,de Karl Menninger (1893-1990),eminente psiquiatra norte-americano, “Meditaciones sobre el dolor del mundo,el suicidio y Ia voluntad de vivir”,do sempre atual filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860).

Em 1941 mudou-se o Dr Napoleão Teixeíra para Curitiba.Segundo meu pai,sua clínica era bastante concorrida,tinha ele vasta clientela, inclusive de pacientes da Europa e América do Norte,e de lá só saiu para as suas muitas viagens pelo Brasil e no exterior.E é sobre uma dessas viagens e o porquê dela que quero tecer alguns comentários.

A viagem foi a Paris,a quarta que ele fazia à velha capital da cultura,da civilização e do bom -gosto. Corria o ano de 1974,era uma tarde de outono.Dr Napoleão Teixeira narrou-a no livro "Plantando para o Amanhã.Seu título diz tudo o que o médico sentia por quem ia visitar:”Túmulo de um amigo em Paris”.E começa assim:”Tinha assumido comigo mesmo uma promessa para com meus pais,aos quais devo o pouco que fiz,o modesto que sou:visitar,em Paris,o túmulo daquele que,com sua crença,os guiou e iluminou em vida,os assistiu e amparou na morte:Allan Kardec.

0 cemitério é o de Père-Lachaise,uma das necrópoles mais visitadas em todo mundo,desde que foi inaugurado em 1804.Lá estão os restos mortais de La Fontaine,Balzac,Edith Piaf,Vitor Hugo,Chopin e uma série de vultos que a humanidade venera.E na sua entrada,Dr Napoleão indaga de “de dois funcionários fardados,agaloados,vastos bigodes,solenes como marechais napoleônicos” pelo túmulo de Kardec.Obtém resposta pronta, imediata,e se põe a andar na direção indicada.O cemitério o encanta:”É alegre,agradável,aprazível.Avenidas calçadas,orladas de árvores a cujas sombras mães trazem crianças a brincar”.

E continua,mais adiante:”Numa volta,beaucoup du monde,beaucoup de fleurs__muita gente,flores mil:O túmulo de Allan Kardec,a que não faltam flores o ano inteiro( ... ).Vemo-lo literalmente coberto delas,numa profusão multicolorida e perfumada,de comover”.Contempla o dólmen em estilo druídico do túmulo e explica o que é:”Consta de uma grande pedra chata colocada sobre duas outras,verticais (o nome Allan Kardec é de origem gaulesa,mais precisamente armoricana,sendo a antiga Amorica a província bretã da França de hoje)." Allan Kardec,nome bretão de uma de suas encarnações, foi o escolhido pelo guia espiritual de Leon-Hippolite Denizard Rivail,nome de batismo do insigne pedagogo e médico,que “morria” para dar lugar àquele a quem estava confiada a missão de codificar o Espiritismo.

A tarde se faz noite.Dr Napoleão termina assim sua crônica:”Uma calma imensa desce sobre as coisas.”C'est l'heure grise,c'est l'heure de l'adieu__a hora cinzenta do adeus,a hora de partir.

__Adeus?Por que adeus,se adeus não há,haver não pode?Se nada finda,nada se acaba,tudo se renova,tudo recomeça,a viajada continua,rumo à Perfeição?

Passos lentos,sem falar,vamo-nos afastando. Paramos,voltamo-nos,acenamos aos que ficaram. Um carinhoso aceno de até breve...”

E há ainda aqueles que acreditam que o Espiritismo é ocupação de gente pouco instruída,carente de juízo crítico ou de meramente desesperados que aderiram a uma causa porque ela lhes acenou com a possibilidade ilusória de seu ente querido morto poder estar vivo.

No mesmo livro em que o Dr Napoleão nos narra a sua visita,isto é,no "Plantando para o Amanhã",que ressuma sabedoria e bondade,escreve ele ainda sobre o "bicho”do Charpinel.Não se trata,em absoluto,de uma lenda,de uma criação do inconsciente coletivo,de uma bizarria folclórica,de um mito que torna a realidade freqüentemente dura em excitante aventura.Até se compreende que um poeta se refira ao caso como o "saci de São José do Calçado”.Os poetas lidam com outra espécie de verdade__as verdades do coração,as verdades captadas através dos canais obscuros da intuição.E estas verdades não são de valor inferior às verdades da Ciência.Mas é preciso estabelecer uma linha demarcatória entre elas ou a confusão se instala.Não se usa uma chave de fenda para bater um prego nem se aperta um parafuso com um martelo.
Assim,é preciso que fique claro que o caso do bicho Charpinel,ao qual pretendo voltar em outra oportunidade e tentar entendê-lo à luz do Espiritismo,não foi uma alucinação coletiva que se apossou da população calçadense no alvorecer do século XX.Os fenômenos que se produziam eram de aspecto sonoro: "dolorido grito de agonia,alto como prolongado silvo de locomotiva",é como o Dr Napoleão Teixeira os descreve.Talvez por que eram ouvidos também uivos,que mais semelhança tinham com os que um animal emite (por ex.cães) do que aquele que um ser humano pode produzir,tenham-lhe dado o nome de “bicho”.E como esses fenômenos tiveram início nos arredores da casa de Charpinel,nada mais lógico do que estabelecer uma conexão entre os fenômenos com o que sucedera entre o viajante francês que solicita pousada ao igualmente francês Charpinel:Daí a expressão “bicho” do Charpinel.Mais apropriada ainda se tornou a ligação entre os dois pelos fatos posteriores que culminaram num desfecho emocionante e intrigante,visto que aqueles excruciantes lamentos eram,afinal,os de um ser humano que manifestava toda a sua dor advinda do arrependimento de uma falta cometida e não perdoada. Que não havia alucinação coletiva é fácil de ver.Os uivos e gritos de agonia não escolhiam um grupo determinado de pessoas para se externarem em nosso mundo.Eram ouvidos por caminhantes solitários, em meio a reuniões festivas, nas celebrações religiosas, em bailes,velórios, enterramentos,"por toda a parte enfim,não importava onde nem quando",esclarece o Dr Napoleão.Este último,aliás,como médico psiquiatra e,portanto,afeito às anormalidades mais esdrúxulas do psiquismo humano,além de homem sério e probo,dono de invejável bagagem científica,seria o primeiro a recusar tratar do caso Charpinel,se ele não passasse de invencionice do povo,de brincadeira de mau-gosto do populacho ocioso.

Termino com as palavras emocionadas do grande médico ao recordar a dor de sua mãe que deixa a casa em que moravam no Limoeiro:" Jamais esquecerei a cena. Devia ter, vamos dizer, meus quatro anos de idade.Estávamos de mudança, da nossa casa branca no Limoeiro, para a fazenda do Retiro que seu Capitão, meu pai, havia comprado. Os carros-de-boi, com a mudança, já haviam partido.Íamos nós, agora. Foi então que minha mãe, Dona Regina, pronta para partir__e como me lembro da bela roupagem de viagem, toda em veludo preto, que trazia__percorreu, aposento por aposento, da casa__e chorava! Deus meu!Tantos anos viva e nunca olvidarei minha mãe chorando, chorando de saudades, por ter de deixar o mundo em que vivera, o mundo da primeira infância minha, que verei para todo o sempre."

Teresópolis,29 de novembro de 2005.
Carlos Rezende

 



 

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