Ênio Octávio Fazôlo

  

QUEM NÃO SE LEMBRA DAS TIRADAS DO PADRE ÊNIO?



    Falar do falecido pe. Ênio é, também, citar um grande calçadense, por que não? Ele não nasceu em Calçado, mas talvez nenhum “estrangeiro” tenha conseguido ser tão broinha quanto ele.

Ênio Octávio Fazôlo nasceu no dia 5 de junho de 1929 no município de Alegre. Entrou para um seminário no Rio e foi ordenado em Cachoeiro de Itapemirim. Trabalhou nas paróquias de Apiacá e de Guaçuí, até que foi nomeado, no início da década de 90, para a paróquia São José do Calçado. E aí morreu no dia 20 de junho de 2001.

   É para celebrar a sua vida e a sua morte que lembro aqui, com gosto de uma
refinada saudade, a inegável intensidade com que viveu. Diante da personalidade do padre Ênio, ninguém conseguia permanecer neutro: ou ele agradava pra valer, ou então desagradava de vez – mas fazia ambos com uma ternura incomparável.

   As crônicas que ele adorava escrever revelavam a genialidade profunda e simples de alguém que afirmava aprender o tempo todo com as pequenas coisas, os pequenos detalhes dos dias, das horas. Era um homem que acordava antes do sol nascer e saía ainda de pijama para rezar o terço dando voltas ao redor da igreja matriz. Depois parava sob as janelas dos vizinhos para tomar aí mesmo o café da manhã. Aliás, ele era devoto das manhãs. Lembro-me de um dia em que nos acordou de madrugada, pedindo que fôssemos a ele com nossa câmera amadora para filmar as cores e o canto dos passarinhos que faziam festa no jardim da praça municipal.

Com que beleza de alma ele arranjava uma folga de vez em quando para ligar bem alto seus Tchaikovsky de vinil e tomar uma chuveirada no quintal, junto ao laboratório de floresta que cuidava com afinco atrás da casa paroquial! Era divertido vê-lo cantar ao volante do seu (às vezes perigoso) fiat “elba ramalho”, dando as tradicionais três buzinadas para avisar que estava chegando. Era cômico vê-lo compor paródias engraçadíssimas sobre temas ainda mais espontâneos, ou observá-lo torcer pelo flamengo ou ainda forrar o altar da celebração com a bandeira nacional no dia em que vencemos a copa do mundo. Era edificante ver sua postura de místico quando rezava em silêncio após a comunhão, ou ainda seu empenho de pastor ao passar dirigindo
mensalmente por cada quilômetro quadrado do município para atender a todas as comunidades rurais.

   Sua informalidade nos constrangia. Seu desapego às coisas materiais nos inspirava. A maneira humilde como voltava atrás em suas burradas – e dava, quantas vezes fossem necessárias, o braço a torcer – nos ensinava. Os momentos em que chegava mais perto da perfeição dos grandes santos eram justamente as vezes em que mais se demonstrava frágil e próximo de usas “ovelhas”. E mesmo quem não pertencia ao seu rebanho sempre pôde ter nele um verdadeiro amigo.

   Na semana que vem, padre Ênio completaria 75 anos; e se aposentaria. Ainda
bem que não tivemos a oportunidade de vê-lo parado... Um dia, no hospital, ele pediu que lhe comprassem umas uvas. E saboreou aquele cacho com a serenidade de Chico Buarque: “como se fosse o último”. E era. Teve bom gosto até na última refeição. Sabia o que queria. Sabia o que o esperava e não se desesperou com isso. Apenas pendurou as chuteiras após dois tempos muito bem jogados...

Juliano Ribeiro Almeida
28 de maio de 2004




 

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