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O LEGADO DE UM HOMEM SIMPLES

   Num dia destes, com vistas à busca de informações sobre vultos importantes da nossa terra, me perguntaram o que eu sabia sobre o velho Pedro Vieira, o pai, o Pedro Nolasco Vieira de Rezende, aquele que há muitos anos tem um busto na praça em Calçado, naquela praça que dele herdou o nome. Questionaram-me, deve ter sido um homem muito importante no Município, um grande chefe político, um chefão, um manda-chuva, que deve ter feito muito pela cidade, não? O que foi que ele fez, quais suas obras, o que deixou para merecer tamanha honra, tanta consideração, seu nome na praça principal e o busto de bronze?

   Pego de surpresa, não soube responder, mas alguma coisa eu devia saber, teria é que arrumar as idéias. Aliás esta pergunta me intrigava há tempos, não me é nova, eu sempre a fiz a mim mesmo, desde muitos anos, desde décadas, desde que menino comecei a freqüentar a praça, quando vi aquele homem de pedra, olhando para os lados da igreja, mudo sem história, pelo menos para mim e para os companheiros da minha geração, ignorantes como eu.

   Pensando depois, consultando os arquivos e lembrando de conversas antigas com pessoas que o conheceram, decidi voltar à questão. Algumas informações são precisas, outras nem tanto. Talvez porque vamos ter que nos afastar razoavelmente longe no tempo, e as coisas vão ficando cada vez mais complicadas. As testemunhas vão nos deixando, rareando dia a dia, e as fontes escritas praticamente não existem. Nas nossas bandas, há cem ou cento e cinqüenta anos passados, não era comum então deixar coisas por escrito, inclusive porque, na população como um todo, era enorme o número de analfabetos.

   Pedro Nolasco Vieira de Rezende morreu de ataque cardíaco em julho de 1925, em sua residência na Fazenda da Segunda. Tinha sessenta e dois anos de idade e foi sepultado em Calçado, já no cemitério novo. Seu funeral foi o mais concorrido até então, nunca a cidade ficou tão cheia de gente, as pessoas vieram de todo lugar, das redondezas e de fora, até do Rio de Janeiro.

   Ele era mineiro, da região onde hoje fica o Município de Conselheiro Lafaiete, donde emigrou com a família, pais e irmãos, Vieira de Rezende, para se estabelecerem no Vale do Itabapoana.

  Em 1882, com dezenove anos, contraiu núpcias com dona Chiquinha, Francisca Rosa Teixeira, que tinha então dezesseis, e era filha de um dos primeiros posseiros da região, Francisco Teixeira de Siqueira Filho. Teve com ela quatorze filhos: Maria Carlota Teixeira de Rezende; Olinda Teixeira de Rezende; Agmar Teixeira de Rezende; Euclydes Vieira de Rezende; Olídia Teixeira de Rezende; Francisco Vieira de Rezende; Maria Carmosina Teixeira de Rezende; José Teixeira Vieira de Rezende; Olívia Teixeira de Rezende; Irene Teixeira de Rezende; Carlos Vieira de Rezende; Pedro Vieira Filho; Jacyra Teixeira de Rezende; e Manoel Teixeira de Rezende.

   
   Consta que ele ficou rico por causa do casamento, da herança da dona Chiquinha. O certo é que era mesmo abastado, suas propriedades se espalhavam pelos municípios de Calçado, Bom Jesus e Guaçuí.. Em nosso município incluíam, pelo menos, a Fazenda da Segunda e outras áreas adjacentes às margens do Rio Itabapoana, a Fazenda Velha, a Rocinha, e as terras que vinham daí até atingirem as franjas da cidade de Calçado.

   Os filhos e filhas, ao menos os mais velhos, ao se casarem, eram encaminhados para alguma região nova dessas terras, ainda não desbravada, onde deviam tomar posse, derrubar as matas, plantar as lavouras, e construir suas residências, o que no futuro seriam parte de sua herança. E assim se espalharam.
  
   
Era um homem meio gordo, altura mediana, de boa paz, bonachão, que nunca criava problemas, não sabia dizer não, não contrariava ninguém, nem mesmo os empregados. Por isso, as famílias jamais mudavam de suas propriedades. Colonos das lavouras de café, meeiros, campeiros, tropeiros, carreiros, ajudantes, outros trabalhadores, se perpetuavam, pareciam permanentes, entre eles havendo mesmo muitos remanescentes da época da escravidão. Me garantiram que para ele tanto fazia as águas correrem para baixo ou para cima, todo mundo era bom, puro e de boa fé, não imaginava intrigas ou espertezas, não havia inimigos ou adversários, todos numa boa, calmo e tranqüilo, cheio de amigos. Quem era mais enérgica e comandava a casa era a mulher.

   Mesmo assim foi um líder político respeitado no Município, por vários anos, não que se esforçasse ou se impusesse ou fizesse questão, não, a sua liderança era natural, consentida, vinha da amizade, do compadrio, do conselho, e da consideração de todo mundo. Atuava na base dos panos quentes, tentando apaziguar os ânimos, arrefecer as tensões, conter as brigas de divisas e fronteiras, causas de violências tão comuns naqueles velhos tempos.

   Festeiro e alegre, uma coisa que marcou muito sua vida e era ponto alto no município naquele tempo foram as festas na Fazenda da Segunda. Animadas, duravam até uma semana, três dias no mínimo. Devia ser muito bom.

   Mês de junho, festas de São João, de São Pedro e de São Paulo, os santos da devoção. Os filhos casados chegando com um montão de companhia, conversa alta, criançada, crianças chorando, babás, agregados, empregados, auxiliares, os animais de montaria, cavalos e éguas, os arreios, selas e silhões, os burros de cangalha, carregados de apetrechos. Iam chegando e lotando a fazenda, até não haver mais espaço, quando começavam a ocupar a tulha, o paiol de armazenar mantimentos, se alojando de qualquer jeito. Havia também os convidados de fora, gente importante, parentes, amigos e compadres, de Minas, do Rio de Janeiro. Para estes últimos, o velho mandava um empregado ou dois, com cavalos e burros, a Bom Jesus do Norte para apanha-los, com bagagens e etc., que vinham de trem de ferro.

   Festança e alegria na Fazenda.

   De dia a confusão de gente pela casa, as cozinheiras atarefadas, preparando os quitutes, comes e bebes, acepipes variados, galinhas, perus, porcos sacrificados e um boi ou dois para o churrasco. As sobremesas, doces diversos, arroz doce, goiabada, pessegada, bananada, quindins, doce de abóbora, de coco, e as compotas trazidas pelas visitas que vinham de Minas, de figo, de abacaxi, de goiaba, de pêssego, de manga e mamão, um enfeite para a vista. As bebidas, vinhos, licores, aperitivos, e a cachacinha que não podia faltar. As guloseimas para os lanches, biscoitos vários, fritos e assados, rosquinhas de salamonico, biscoitos de polvilho de araruta, rosquinha de leite, bolos de fubá, rosca doce, etc., etc.. Os homens nas salas animados num jogo de bisca ou de sueca, ou conversando e discutindo, a colheita, o preço do café, a saúva e outras pragas, o período de seca que não passava, a incompetência e burrice do governo. E as mulheres também ocupadas, espalhadas pelo resto da casa, tagarelando, falando dos vestidos, das rendas e bordados, das prendas domésticas, das receitas de cozinha, da educação dos filhos, dos problemas de casa, reclamando das empregadas.

   Não se esquecer também que havia, pelo menos num dos dias, o altar improvisado, a missa de ação de graças, e o vigário paramentado. E a banda de música e os dobrados.

   De noite, dentro de casa, as duas salas iluminadas, luz de lampiões, o baile, os músicos, o sanfoneiro, a dança de quadrilha, as valsas e polcas, os olhares furtivos dos enamorados. Lá fora na noite fria de lua cheia, a fogueira de São João, os balões, foguetes, bombinhas e busca-pés, batata doce, quentão, a passagem sobre o braseiro, um risco e uma alegria. No terreiro de baixo, mais além, também festa, o batuque, o caxambu da negrada e dos empregados, em louvor dos santos e do patrão.

   Tempo de alegria e de comemoração. Era assim que o velho se sentia bem, em companhia dos parentes e dos amigos. O resto ...

   Bem, deixemos o resto para lá. voltemos ao princípio.

   Reportando à pergunta inicial, o que mesmo de importante que este homem fez pela cidade de Calçado, quais as suas obras e feitos que ficaram, para tamanhas homenagens?

   Acho que consegui uma resposta, me veio uma luz, não tinha pensado antes. Está tudo certo sim. Se não podemos citar as obras, lembremos do seu legado, que transcende os bens materiais, indo além deles, um nível acima, o humano. Referimo-nos à prole que deixou, rica em quantidade e qualidade, que é o que mais importa. Foram principalmente os quatorze filhos, os quais se multiplicaram, no bom sentido bíblico povoaram a terra e se espalharam pela região, contribuindo com a política e a economia por décadas no Município. E produziram bons frutos, pessoas de valor, homens apaixonados por Calçado, como o doutor Pedro Vieira Filho e o doutor Aristides, citando apenas os expoentes.

   Há mais, muito mais...


H. Teixeira de Siqueira,
Vila Velha, agosto de 2003.

 

 


 

 

 

 

 

 

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