Pedro
Teixeira, nome de um famoso explorador de terras e águas
amazônicas, é também o nome de um Proust
capixaba, navegador no tempo e desbravador de lembranças
esquecidas, nascido e criado à margem do ribeirão
que lava as memórias do povo de São José
do Calçado, mítico paraíso terreno, pousado
no interior do estado do Espírito Santo.
Há muitos anos, escrevemos sobre esse encontro de Pedro
com seus arquétipos, seus arcanos, com o escrínio
de mitos, sombras e ilusões projetados naquelas gavetas
mais íntimas da mente, lá onde velhas conchas
guardam ainda o segredo do cântico das ondas, daquele
vaivém sonoro que os ouvidos captam e encerram para sempre.
Agora
ele retorna aos pagos da memória, às velhas e
sempre novas querências da infância, onde o gado
bom de nuvens sempre iluminadas pasta a brisa das tardes intermináveis,
em que a infância fluiu como um arroio de águas
límpidas e transparentes.
O nosso memorialista capixaba devassa os velhos e renascidos
caminhos, revisita o ribeirão que transportou sonhos
e quimeras, senta nas pedras erodidas pelo tempo, encostado
a velhos muros que os dias recobriram de musgo e de manchas
bordadas pelas chuvas.
É ainda o mesmo Pedro, o bom e jovem Pedro, que faz jus
ao seu nome e, assim como o outro, o do Evangelho, é
a pedra segura sobre a qual repousa a memória de um tempo
que não se perde, não se corrompe e não
se esgarça, porque está no centro, na base, no
âmago de todos os que nasceram de um ventre de mulher.
Lembrar faz parte do acervo pessoal e intransferível
de cada ser humano. Se a “memória dos elefantes”
é conhecida e divulgada, que dizer da memória
humana, que, só por si, pode representar motivo bastante
para se continuar a luta, o bom e estimulante combate de cada
dia?
Paulo de Tarso disse ter combatido o bom combate. Não
o poderia ter dito, se lhe faltasse a memória dos dias,
dos “pensamentos idos e vividos”, segundo os versos
de Machado de Assis, ao chorar a saudade de sua bem-amada Carolina.
Pedro também combateu e combate o bom combate. Por isso
mesmo se cobre com o “véu diáfano”,
não da fantasia, como queria Eça de Queirós,
mas da própria memória, a fim de resgatar a luta
vitoriosa pela vida bem vivida, iniciada às margens de
um ribeirão interiorano, sobrevivente, ele também,
num mundo em que os rios são assassinados e morrem de
exaustão.
O
memorialismo sempre se manifestou com força na literatura
brasileira. Já no século 19, Joaquim Nabuco, Raul
Pompéia e outros souberam falar de seu tempo. Alguns
escreveram memórias. Outros, contos, crônicas,
romances, biografias, tendo a memória como ponto de partida.
Na primeira metade do século 20, Coelho Neto, Humberto
de Campos, Belmiro Braga e outros mais exploraram os veios da
memória. Na segunda metade do mesmo século 20,
nomes como os de Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Pedro Nava
e Antônio Carlos Vilaça se impuseram como importantes
cultores do gênero.
Pedro lavra, semeia e colhe na mesma leira do sadio retorno
aos mitos, encantos e seduções do passado, banhados
no ouro e na prata dos desejos e fantasias de hoje. A contemporaneidade
recompõe as dobras e os rasgões dos velhos trajes,
para que possamos recriá-los e vesti-los, quando remontamos,
no palco da memória, as comédias e os dramas que
retiramos de nossos empoeirados baús familiares.
Nosso memorialista, Pedro Teixeira, o faz com todo o sabor e
toda a graça, com uma nova e sóbria elegância
plantada pelo tempo, um esplêndido “estar à
vontade” que só os anos podem construir, trabalhar
e depurar. Uma prosa proustiana se desenrola no ritmo da memória
capixaba, como se a sombra emblemática do memorialista
francês se debruçasse na velha ponte sobre o incansável
ribeirão de São José do Calçado.
E mais não devemos dizer, porque o essencial já
está mais do que dito. Que os leitores mergulhem, deliciados,
nas páginas instigantes e bem escritas deste memorialista
de mão cheia, abrigados “à sombra”,
não só “das raparigas”, mas também
de toda a existência, revivida agora no calor das lembranças
de um tempo que reaparece todo “em flor”.
Reynaldo Valinho Alvarez *
*Reynaldo Valinho Alvarezé escritor e poeta
autor de Lavradio e A faca pelo fio,
entre outros livros.