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PEDRO VIEIRA - parte 1

 

UM CALÇADENSE APAIXONADO

     Quando a gente visita a cidade histórica em ruínas de Alcântara, no Maranhão, entre muitas outras coisas, podemos ver as ruínas dos "Palácios do Imperador". Elas chamam a atenção pela imponência em relação às demais ruínas. Só que na verdade, para surpresa nossa, os palácios nunca existiram, ou melhor, nunca ficaram prontos, as obras foram abandonadas pela metade. Conta a tradição que em uma de suas viagens à Europa, ou aos Estados Unidos, não estou certo, a populaçãode Alcântara soube que Dom Pedro II ia passar por lá, e pernoitar na cidade. Como não havia nenhum local decente, à altura de receber sua Majestade, os alcantarenses resolveram construir um palácio só para isso. Só que havia na cidade duas facções políticas rivais que jamais se entendiam, se digladiavam por tudo e por nada. Então cada uma resolveu construir o seu palácio. Lançaram o máximo esforço, cada prédio tinha que ser mais bonito e imponente que o outro, para disputar a preferência do monarca. E as obras iniciaram-se febrilmente. Todavia, para decepção geral, algum tempo depois veio a funesta notícia de que o navio do Imperador não ia mais aportar em Alcântara. As obras foram de imediato interrompidas, abandonadas, e para nosso deleite, os turistas atuais, lá estão em ruínas até hoje, conservadas, restos de construções, dos palácios que não existiram.
     A lembrança desses palácios nos vem à mente sempre quando passamos por nossa cidade e vemos as ruínas da Usina São José. Igualmente ao caso dos palácios de Alcântara, as obras da usina de Calçado, também grandiosas, não foram concluídas, viraram ruínas antes do tempo, sem ficar prontas. Foram abandonadas antes que a usina pudesse funcionar. O porquê disso tentaremos esclarecer mais adiante. Por enquanto vamos adiantar que, não obstante o fracasso, a Usina São José foi o maior empreendimento, o maior sonho, que jamais se acalentou em Calçado, uma obra de um homem apaixonado.
     Para entender o problema da Usina, temos que saber sobre o Dr.Pedro Vieira Filho, um homem obsessivo, que amava Calçado profundamente, apaixonado por tudo que se relacionasse com a cidade.
     Pedro Vieira nasceu na Fazenda da Segunda no dia 27 de setembro de 1903. Era o décimo segundo filho do casal Pedro Nolasco Vieira de Rezende e de dona Chiquinha (Francisca Rosa Teixeira). Desde cedo apresentou-se com dois problemas sérios de saúde, que o perseguiriam pelo resto da vida, visão muito deficiente, incapaz de distinguir uma pessoa a poucos metros de distância, e uma asma crônica.
     Naqueles idos dos anos vinte, do século vinte, não obstante suas limitações, fez como a maioria dos jovens calçadenses que na época conseguiam estudar, que aliás eram uma minoria: estudos preliminares em casa, com professor particular e depois colégios em Campos ou Leopoldina, e finalmente o curso superior em Vitória ou no Rio de Janeiro. Ele estudou tanto em Campos como em Leopoldina e fez o Curso de Direito em Vitória.

Uma nova liderança...

     Com o falecimento do pai, em 1925, trancou temporariamente a matrícula na faculdade, mudou-se para Calçado, em companhia da mãe, e assumiu a liderança política do chamado grupo dos Vieira. E a partir de então podemos afirmar, sem medo de errar, que sob sua influência a cidade passou a viver um surto de desenvolvimento nunca antes visto.
     Ao contrário da maioria dos Vieira, geralmente pacatos e sossegados, ele era irrequieto, dinâmico, tomava providências, agitava, mobilizava as pessoas, fazia reuniões, investia seus próprios recursos, sempre no intuito de modernizar o município e melhorar a vida de todos. Diferente de outros políticos, daqueles do tipo jardineiros, que se satisfazem em enfeitar a cidade, construir jardins, calçar ruas, etc., etc., ele não, ele tinha uma visão mais avançada, de estadista, outro patamar, preocupava era em criar as condições de sustentabilidade para um progresso permanente, auto-sustentável, com a infra-estrutura, a renda da população, a educação, a diversão e o bem estar das pessoas, o nome do município respeitado e admirado. Fácil comprovar isto, basta verificar seus empreendimentos e as áreas de atividades em que atuou: finanças, educação, transportes, comunicação, saúde, entretenimento, laser, etc..
     Seus negócios não costumavam dar lucros, não se preocupava com isso, era um espírito puro, espontâneo, bem intencionado, desprendido, pagava bem aos empregados, preocupava com suas famílias, confiava em todo mundo, interessado sempre em descobrir novas perspectivas de progresso para Calçado. Apesar de meio nervoso e de às vezes dar certas broncas, por falta de paciência, trabalhar para ele foi sempre um bom negócio, tanto para as pessoas mais humildes, como para os mais graduados, não era mesquinho, não tinha apego ao dinheiro. Ele mantinha um encarregado, uma espécie de gerente, para cada um dos seus setores de negócios, em quem confiava e dava grande autonomia. Lembro-me do seu Caçulito como gerente dos Ônibus, seu Walter Mendonça no Cinema, dona Mercês no Ginásio, seu Eustáquio na Fazenda Velha, seu Pereira na Olaria, e seu Didico na Propriedade da Rocinha.

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