P E R F I L
Dr SAMUEL BRANDÃO: Fundador do jornal "A ORDEM"

 

Samuel Brandão bacharelou-se em Direito em uma cidade perto de Ubá, Minas Gerais, sua terra natal, logo em seguida transferiu-se para Vitória, Capital do Estado do Espírito Santo.

Lá exerceu o cargo de Delegado de Polícia e, posteriormente, ocupou a função de Secretário de Interior do Estado do Espírito Santo.

Após seu segundo casamento, com Gilda de Aguiar era, pois, viúvo, e desse matrimônio nasceram Gilsa, Helena, Amélia, Alice (minha mãe) e Maria José, transferiu-se da Capital para São José do Calçado, fundando ali o Jornal A Ordem, em 07 de setembro de 1926.

Para que fosse possível tal realização ele adquiriu, com recursos próprios, uma máquina para impressão do jornal, vinda de Ubá, que continua em pleno funcionamento até os dias atuais, imprimindo parte do Jornal fundado por ele.

Em seu curto tempo de vida, ou seja, 42 (quarenta e dois) anos de idade, foi Delegado de Polícia, Secretário do Interior do Estado do Espírito Santo, Advogado e Jornalista, vindo a falecer no dia 18 de agosto de 1932, em São José do Calçado, onde foi sepultado.

Em 21 de junho 1945, ou seja, aproximadamente 13 (treze) anos após sua morte foi publicado no Jornal “O Globo” um artigo assinado por Edmundo Lys, onde tanto uma pessoa simples, como um paginador do Jornal O Globo, quanto o jornalista Edmundo Lys que o conheceram, exaltaram sua pessoa.

“O GLOBO”
21 de junho de 1945.

LEMBRANÇAS DE SAMUEL BRANDÃO.

Na oficina atulhada, paginadores, compositores, impressores, à hora de encerrar o serviço da tarde cinzenta e álgida, enquanto amarravam “paquets”, limpavam bolandeiras, ou tiravam a tinta das mãos à gasolina, - conversavam, transmitiam-se impressões...

Foi aí que, a certo momento, ouvi um nome e esse nome ressoou na minha lembrança, emergindo de um entulho de recordações.

Dirigí-me a um paginador:

- Parece-me que falava em Samuel Brandão...

 

- Sim, falei... Estava aqui contando pedaços da vida do Dr. Samuel, mesmo...

- E por onde anda ele?

- Então não sabe que o Dr. Samuel morreu?

- Não, ora essa...

- Pois, morreu, logo depois de ter deixado a Secretaria do Interior...

- Do interior, de onde?

- Do Espírito Santo... Subiu de delegado... Morreu muito moço, coitado... Valor estava ali... Conheceu o Dr. Samuel? Talentoso, muito culto, um grande coração... Além disso, que delicadeza... Fino, educado... Não havia outro...

Enquanto o tipógrafo, sincero e simples, enxugando em aparas de papel os dedos rachados pelo chumbo, falava de Samuel Brandão, meus pensamentos desandaram tristes...

Aí está a glória jornalística, o famoso galho de loureiro com que acena aos intelectuais do escudo da Academia Brasileira.

Conheci Samuel Brandão quando fazia preparatórios no internato do grande e generoso doutor Fecas, em Ubá. Por essa época, teria ele menos de trinta anos.

Nenhuma figura de intelectual, ao que me lembro, pareceu-me tão fascinante como a de Samuel Brandão, moço, elegantíssimo, fino, cheio de inteligência e de cultura. Quase não privei com ele e à distância, como faz os deuses, prestigiava-o ainda mais aos meus olhos admirados, tanto pela sua capa espanhola, forrada de seda vermelha, como pelos seus artigos de jornal, as suas atitudes requintadas e os livros de sua biblioteca, que li por intermédio de um seu irmão. Recordo-me a impressão que me causou o seu autógrafo na capa do “le jardin d’Epicure”, o primeiro livro de sua estante que tive as mãos: traçava o nome com uma elegância inconfundível, subindo da esquerda para a direita, em uma letra igual e fina, graciosa e delicada. E, como na assinatura de Bilac, onde o fecho do nome, prolongado para a frente e para baixo, servia de haste ao “B” do sobrenome – o “l” de Samuel era a perna do “B” de Brandão. Nessa assinatura do moço bacharel, cujo talento exercia domínio e punha certa desconfiança e algum susto nos círculos intelectuais da cidade, vi a confirmação do que dele, de suas crônicas, de seus discursos, de suas aventuras – mas chegavam ao “Grêmio 1º de Maio”, onde treinávamos para oradores e para vates em tirinhas de almaço revistas pelo padre João Rodrigues e pelo doutor Newton Carneiro... Onde os tribunos imitavam o farmacêutico José Solero e os rimadores namoravam as musas do poeta Wellington Brandão.

Entre os impulsos que me trouxeram ao jornal o encanto irradiante de Samuel Brandão, jornalista, também se conta. E desde Ubá nunca mais tivera notícias dele até quando, no outro dia, um paginador de jornal recordou o seu nome, a carreira que se fez alcançando um alto posto de governo, de sua morte obscura e precoce, de sua ausência na pobre e efêmera glorificação da imprensa e da crônica literária nacional.

Afinal quem sabe se a glória, para nós outros que vivemos no jornal, entre a obscuridade e o sonho, não é sé essa mesma o de sermos um dia lembrados, com simplicidade e doçura, num fundo sujo de oficina, por um gráfico magro e humilde que certa vez partilhou conosco o nosso sonho sempre inútil e o nosso sempre escasso pão dormido.

EDMUNDO LYS.

*Fernando Brandão Brochado.

Fernando Brandão Brochado é advogado em Bom Jesus e neto de Samuel Brandão.