Vicença - tiquinho de gente que nem foto deixou


Só sei que ela vivia na propriedade rural de meu tio,na Fazenda Velha.

Conheci-a quando ela veio morar em nossa casa,na Governador Bley,por uns tempos.Estava com as pernas fininhas muito feridas,um eczema rebelde ou coisa do tipo, e não tinha quem cuidasse dela,ou melhor,de suas pernas,pois sem o tal problema, ela poderia muito bem se virar sozinha.Tinha uma casinha,sabia fazer sua comida,sabia arrumar sua casa,pegar lenha para acender seu fogão.

Entretanto,minha mãe,que já a conhecia,apiedou-se dela e a trouxe para casa.Era minha mãe quem,todos os dias,e sem auxílio de ajudantes,fazia os curativos,limpava a carne morta que se desprendera, removendo a gaze do dia anterior e pondo no lugar outra,com uma camada de algodão embebido num líquido antiinflamatório e salpicada de pó cicatrizante. Ela,aVicença,só voltaria para sua casinha quando estivesse curada,dizia minha mãe em tom taxativo—minha mãe que sempre quis ser enfermeira dos pobres.

Vicença era um tico de gente,uma negrinha velha e já mirrada pela idade avançada, mas nada estúpida.Só não estava a par das novas invenções—quem está?Quase sempre não passamos de meros manipuladores de máquinas e conceitos novos,sem os entender sequer superficialmente.Somos como esses macaquinhos muito curiosos,que viram e reviram um objeto nas mãos e logo se desinteressam dele e passam a examinar outro,e mais outro.

Vicença tinha uma relação estranhíssima com a televisão. Estava tão certa de que aquelas pessoas que surgiam como por encanto na telinha estavam ali materialmente falando,que as tratava como se visitas fossem, fazia sala pra elas,murmurando bem baixinho,um "é mesmo,não é?","pois é menina,é isso sim", "tenha a bondade,dotô, pode pegá assento","qué um cafezinho?". Depois de acompanhar por 20 ou 30 minutos um programa de auditório,uma novela,com as propagandas de permeio,ela desfiava todo dia a sua ladainha de pasmo,e agora em modo admirativo e bastante audível,e dizia:"Como pode,meu Deus,esse povo todo cabê indentro desse aparêio tão piquininim?!Ai,minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!Ai,São Benedito!Ai, Deus Pai!E já reparei que tem um homenzinho que aparece todo santo dia quando o relógio carrilhão da parede bate 5 horas da tarde.É só vê!Ele entra e sai todo dia daí de dentro.Só fáia um dia,que já reparei e é domingo".

Eu,que gostava muito de implicar com ela,dizia:"Mas,Vicença,se você quiser ver o homenzinho saindo da televisão,é só dizer,que eu pego ela,viro e ponho na sua frente..."

Ela me repreendia em modo severo,disciplinador,espantada com a idéia estapafúrdia: "Duas coisa: primero,qui ocê não vai tirá o aparêio dali,que pode caí e sua mãe dispois não vai consegui de vê o que ela gosta;em sigundo lugar,esse aparêio tem parte com o capeta –“Deus Pai!Credo em Cruz,Pé de Pato mangalô treis veis!”--e persignava-se várias vezes,repetindo as mesmas palavras --e ajuntava:"E dispois ocê é um minino bobo,que só fala bobagi qui não aproveita de nada.E eu não sei como uma mulher tão boa qui nem sua mãe pode de tê um minino tão impricanti como ocê".

E ia dormir com as galinhas,zangada de eu ter "mangado dela",aí por volta das seis horas -- na verdade,um pouco depois das galinhas.

Quando um dia a Vicença estava comigo na varanda e passou um negro curioso pela calçada e perguntou qual era a idade dela, nem eu nem ela sabíamos. Então,o negro falou de modo doutoral: "Preto,quando o cabelo começa de branquear,pode contar que passou dos 80".Se esse sábio estava certo,Vicença deve ter morrido com quase 120 anos.
Já outro dia,estávamos na mesma varanda,só que resolvi me esconder por detrás de um vaso de samambaia.Uma grávida abordou-a e começaram a conversar sobre as particularidades da gestação.A senhora,que parecia ser marinheira de primeira viagem, perguntou a ela,Vicença, como era ter um filho.A Vicença,com a maior naturalidade,disse: "Ué, minha nega,não tem mistério,não.É como a gente istá com uma prisão de ventre de semanas e o cocô saí arrebentando a gente.Ocê não pode é segurá,tem qui fazê força pra ele saí.E ele acaba saindo..."

Suas roupas eram do tipo colcha-de-cama-de-gente-da-roça:uma porção de quadrados,retângulos,círculos de diversas cores unidos,frequentemente inteiriças,de uma peça só,do pescoço ao tornozelo,amarradas na cintura por uma tira de pano com nó.Andar,andava de chinelas ou alpargatas e raras vezes,sapatos cambaios que tinham andado na boca de boi.

Quando ria,o corpo todo ria com ela, principalmente seu ventre,que parecia ir parar no peito,subindo e descendo.Ela como que entrava numa convulsão baldadamente contida.Se ia além da conta,seus olhos se umedeciam de lágrima,de a lágrima escorrer feito torneira mal fechada–então,ela tirava de dentro de um bolso da saia um imenso lenço branco,de quase dois palmos,amarrotado,que daria para secar o piso de um cômodo com meio dedo de água,e secava com sumo cuidado os olhos e sempre aguardava um tempinho antes de o guardar,porque poderia sobrevir novo acesso de riso e ela teria que repetir toda a operação.Ria quando um adulto muito conhecido brincava com ela;ria do "pessoal do aparêio"de televisão;ria das próprias coisas que ela recordava.Às vezes ela ria das birutices que eu dizia,umas coisas sem a menor graça,do tipo:”Você sabe,Vicença,o que a galinha diz depois de botar um ovo?".Ela perdia tempo de me encarar e virar a cabeça em sinal de que estava pronta pra ouvir algo muito sério.E eu então soltava a besteira:"Ela diz:Que alívio!,Que alívio!".E ela desatava a rir,fazendo primeiro um beicinho como quem era complacente com alguém que definitivamente não merecia a sua condescendência,dizendo sempre no final:"Qui minino mais do bobo,meu Deus,mais invencionista de bobagi.O qui eu fico mais incrivi é qui é bem qui a galinha devia de pensá isso mesmo.É essas bobagi qui ocê aprendi na iscola?Nem não carecia de ir pra isso..."

Muitos e muitos anos mais tarde,minha mãe me pediu que a levasse de carro ao hospital.Ela sabia dirigir mas parecia emocionada.Nem me dei ao trabalho de perguntar o que ela ia fazer lá.Simplesmente a levei.Quando parei o carro bem ao fundo do hospital,minha mãe me disse para acompanhá-la.Achei muito estranho ela entrar num lugar um tanto escuro.Em cima duma bancada de cimento do necrotério jazia estendido um corpo que mais parecia uma múmia,vestido com saia muito simples de gente da roça, de quadrados e uma blusa preta.Cheguei mais próximo,olhei melhor as feições do rosto e reconheci a Vicença.Não mudara nada de quando a tinha conhecido na minha infância.Seu semblante não expressava o menor vestígio de dor.Dizem que morreu dormindo,como um passarinho muito velho que cai do poleiro para o chão.

 

Teresópolis,13 de outubro de 2006.
Carlos Rezende

 



 

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