Minha
avó Maria,quer por parte de mãe,quer por parte
de pai,descendia de fazendeiros de Natividade, município
do noroeste do Estado do Rio.Nasceu em 10 de janeiro de 1914
e morreu em 1974,em sua casa na Governador Bley,Calçado.
Nada sei sobre sua infância e juventude,mas creio poder
supor que ela foi uma jovem muito ativa,muito dada ao trabalho.
A primeira lembrança que guardei dela foi de a ver no
quintal dando ordens às empregadas,na bela residência
da rua Quinze,hoje propriedade do Sr Ederly,a quem,muito mais
tarde,conheci como sendo o dono de uma Kombi de fazer propaganda
pelas ruas.
Nessa casa sentia-se a presença de minha avó por
toda parte.Na frente dela havia uma varanda de piso frio vermelho.Por
uma passagem de cimento,que cortava um bem cuidado jardim,chegava-se
à porta principal,de entrada.Por entre grades de ferro,eu
enfiava a cara e observava a rua,torcendo para que um carro
de boi subisse a ladeira.Aliás,de onde
eu estivesse,quer num cômodo da grande casa,quer no imenso
quintal,tão logo meus ouvidos captavam o ranger agudo
de um carro de boi,eu largava tudo que estivesse fazendo e disparava
para a varanda e daí para a calçada.Nenhum carro
de boi era igual a outro,assim como cada boi possuía
características próprias,inconfundíveis.Alguns
torciam a boca de cansaço ou esforço e de seus
queixos pendia um fio grosso de baba,que às vezes quase
se arrastava pelo chão e parecia como a goma de mascar
que alguns moleques puxavam da boca e esticavam até o
joelho,prendendo-a pelos dentes.Outros seguiam resignados,outros
ainda até altaneiros,ouso dizer,mas eram poucos--de todos
os carros que subiam e desciam a ladeira.
Do lado oposto da calçada, as catadeiras de café
do Armazém do Salim Sá entoavam a sua cantilena
para espantar o tédio do ofício.Eram vozes desencontradas,mas
quem as ouvia diariamente acabava por captar nelas um padrão
que soava bem aos ouvidos.
Gostava
de ir pescar no fundo do quintal,onde corria um trecho caudaloso
do rio Calçado.Na verdade,quem pescava era a Ana,uma
das empregadas, e eu,menino de uns quatro ou cinco anos apenas
carregava uma lata contra a barriga, com cara muito séria,tentando
não derramar a água limpinha colhida numa talha
e onde seriam postos os lambaris vivos para que eu os observasse
a nadar. A Ana tinha o cuidado de tirar com muita perícia
o anzol de suas bocas para não feri-los mortalmente.
Quando me enjoava de os ver,dava a lata a Ana e ela preparava
para mim lambaris fritos com arroz e feijão.Para mim
não tinha comida melhor.
0 caminho até o rio não era desimpedido. Primeiro,
passávamos por um plano mais elevado do terreiro,onde
fora construído o espaçoso galinheiro,tão
amplo que abrigava perus e galinholas,além das galinhas,claro.
Havia sempre muitas delas que acabavam de botar ovo,fazendo
aquele seu escarcéu característico e sendo respondidas
pelo galo bobão de plantão,um entre vários.
Tínhamos que fazer grandes contornos.Raízes de
mandioca se entrecruzavam,formando armadilhas para nossos pés.Folhas
de bananeiras pendiam de tristeza,enrugadas pelo sol quente
e úmido de beira de rio.O mormaço não dava
trégua.Goiabeiras cresciam para todos os lados,em desordem,exibindo
seus frutos já meio comidos pelos sanhaços.Caramboleiras,com
frutos verdes ou amarelecidos,com seus cinco gomos ou arestas,se
assemelhavam a essas velas que servem mais de enfeite.Tinham
um formato que cativava meu espírito, e quando comidas
verdes, deixavam um gostinho ácido mas agradável
na boca.Se as árvores pudessem andar,sem dúvida
iam preferir a beira do rio,onde suas raízes iriam encontrar
água com fartura,como tinham feito algumas bananeiras,devaneava
eu.
Ao voltarmos, eu às vezes encontrava minha bisavó
já acordada, olhos vagos nas órbitas, em visita
de poucos dias a filha.Esguia dentro dum vestido negro,os cabelos
brancos abundantes presos em bandó,errava pelas peças
da casa com sua caduquice.Eu tinha medo dela e temia pela sorte
do papagaio Pacheco,já que corria um zunzum de que ela
teria metido a mão no gaiolão dele e lhe roubado
uma fruta.Garoto miúdo que era,eu tinha mais apego ao
Pacheco do que à minha bisavó,até porque
ela nunca me dirigia a palavra enquanto que o Pacheco,sempre
que me aproximava dele,ouvia-o ao menos dizer "dá
o pé, loro!",embora não aceitasse que eu
lhe pusesse a mão.Temia,acima de tudo,que minha bisavó
o matasse e comesse,como se fosse um pimentão verde recheado
de carne.Lembro-me de ter dito isso a Ana por várias
vezes,que ria e me censurava,de brincadeira,para não
me preocupar com essas coisas.
À
noite,quando ainda não existia televisão em Calçado,meu
avô Zequinha e eu ficávamos a ouvir o seriado do
Jerônimo,o Herói do Sertão,e do seu pau
para toda obra,Moleque Saci.Todo aquele mundo de aventuras nos
vinha através dum poderoso rádio Telefunken,o
qual tinha um olho cor de âmbar,hipnotizador se o encarássemos
por longo tempo,assim diziam.Portanto,eu só o olhava
com o rabo dos olhos.
Só nós dois,cabeças quase juntas,ficávamos
a ouvir aquelas aventuras de nosso herói,filho de Maria
Homem,nascido em Serro Bravo--para onde teria ido todo o povo
da casa?Meu avô,se eu tivesse esquecido algum detalhe
do capítulo anterior, tinha a paciência de me contar
tudo e ainda explicar certos nomes cujos significados eu não
conhecia.Terminado o seriado,vinha a Voz do Brasil.Aí,
a quantidade de perguntas que eu fazia a meu avó era
tão grande,que ele perdia a paciência e perguntava
se”não estava na hora de eu dormir?”Eu já
sabia que aquilo equivalia a uma ordem, e então ia embora.Se
não estivesse com sono,ia para a sala contígua
à que estávamos,com a mesa onde ficava o rádio.Sentava-me
na poltrona e começava a folhear os vários números
da revista o Cruzeiro,empilhados. Não sabia ler mas via
e às vezes entendia as charges do Amigo da Onça.Quando
me cansava,ia dormir.
Um novo dia raiava,a magia da noite sendo substituída
pela magia do dia.Mas toda essa magia um dia foi interrompida.
Morávamos
em Muniz Freire e soubemos que vovó Maria tivera um derrame,que
se temera inicialmente pela sua vida,mas agora houvera uma melhora
e ela se achava presa ao leito,sob os cuidados do tio Aristides.
Saimos todos de Muniz Freire e viemos a Calçado visitá-la.Acho
que não me deixaram vê-la,pois se a tivesse visto,teria
guardado sua lembrança.Não costumamos esquecer
aquilo que está envolto em sentimentos profundos,sejam
eles maus ou bons.
Agora,quando meus pais vinham visitar minha avó Maria,eu
nunca a via.Até que meu avô vendeu a casa da rua
Quinze e comprou outra na Governador Bley.
Minha avó Maria,agora,tinha a aparência muito mudada.Não
andava, movimentava os membros lenta e hesitantemente, perdera
a elegância dos gestos,dependia dos outros para tudo,ela
que sempre gostou de ser independente; agora, necessitava dos
outros até para a satisfação de necessidades
fisiológicas mais banais,envelhecera mais do que se a
passagem dos anos tivesse sido mais tranqüila e saudável,havia
alguma amargura nela mas continuava doce e amável,falando
com a gente com tanta brandura como se temesse nos melindrar
ou tivesse alguma vergonha e culpa do estado com que ela se
mostrava a nós.Era vaidosa como toda mulher.Por minha
vez,eu sempre pensava antes de lhe dizer algo,com medo de algum
modo a ferir.
Ela e eu nos tínhamos tornado mais íntimos. Gostávamos
de trocar conhecimentos e impressões sobre a vida cotidiana.Os
meus eram só recortes de livros que na época lia;os
dela,nasciam de suas experiências concretas de quando
podia andar em contraste com sua situação atual,do
entrechoque entre ela e o mundo,de sua imersão pontuada
muitas vezes de dor nesta vida,de sua revolta pela incompreensão
de seu destino.
Os meus conhecimentos eram armadilhas para minha avó,objetos
de barganha para que ela em troca me revelasse o que sentira
quando caiu no banheiro,vítima do derrame que a deixara
paralítica para o resto de sua vida--mais de uma década.Mais
ou menos por essa época eu decidira fazer medicina,entusiasmado
com a recente e inédita cirurgia de transplante de coração
levada a cabo pelo Dr Barnard,na África do Sul,em dezembro
de 1967.Lia a obra do pesquisador francês Aléxis
Carrel,que misturava fisiologia com filosofia em seus escritos.Tinha
14 anos,essa idade em que fervemos de ideais.Gostava também
de conhecer o mundo animal, particularmente o dos insetos.Com
esses conhecimentos tentava atrair a curiosidade de minha avó
para eles e quando ela estivesse pensando no que eu lhe falava,como
quem não queria nada,eu lhe faria a pergunta sobre como
tinham sido os primeiros minutos antes e depois do derrame que
sofrera.Temia magoá-la,fazendo-a recordar de fatos penosos.
Mas eu não precisava de tantos artifícios,tantas
artimanhas,tantos escrúpulos para que minha avó
me fizesse as revelações que tanto ansiava por
conhecer.Certo dia,de chofre,lhe propus a questão e ela
muito naturalmente me narrou o que sentira quando a doença
lhe dera o bote fatal.Parando de dar saliva aos dedos secos
de sua mão incerta que folheava uma revista,ela deixou
a cabeça descair um tanto,fechou os bondosos e expressivos
olhos por um momento, como quem conjurasse os poderes da memória,
e me narrou tudo,naquela sua voz mansa e afetuosa,que parecia
nos acariciar o corpo.E o que ela me falou,sobretudo nas reticências
e no que não conseguia exprimir por palavras, foi mais
ou menos isso:
Escurecera o mundo em torno de minha avó Maria,uma tontura
como nunca sentira a fez estremecer de medo;um enxame de ferozes
abelhas teimava em lhe zumbir em torno da cabeça;quis
articular um grito de socorro mas a boca não lhe obedeceu.Perdeu
os sentidos,a consciência se foi,mas passado aquele intervalo
impossível de calcular por quem o atravessou,voltou -lhe
ela,pois sempre retorna com tanta certeza quanto o reaparecimento
do sol a cada manhã.E as manhãs podem ser nubladas
e chuvosas,poderá durar mais ou menos tempo,mas nada
tem o poder de impedir a volta triunfal do sol.Tal sucede também
com a nossa consciência.Ora se apaga mas retorna--ora
se apaga aqui e retorna em outra realidade mais sutil,minha
avó!?Nunca deixa de existir?__eis minha questão,minha
avó,que gostaria que a senhora me esclarecesse. Mas a
sua volta lhe trouxe angústia e aflição
nos primeiros momentos.Não conseguia mover nenhum membro,nem
sequer um dedo das mãos.Parecia estar sepultada dentro
de seu corpo—um ataúde de carne que não
nos obedece mais em que diferirá de um de madeira morta?Queria
chorar tal qual uma criança,mas nem isso lhe era permitido
fazer.Quando lhe pareceu que todo seu corpo iria explodir com
a carga de angústia que minuto a minuto se avolumava
dentro de si,conseguiu mexer alguma parte dele__e aí
sentiu um grande alívio e até pode dormir.Data
daí a sua longa e penosa reconquista da capacidade de
movimentar seu corpo,mas sempre com severas restrições.
Outra memória que guardo de minha avó,desta feita
um tanto engraçada.Era ela uma pessoa muito cética,formando
um par curioso com o marido,meu avó Zequinha,homem religioso
e confiante nas promessas de Jesus.Geralmente é a mulher
a mais propensa a abraçar um credo religioso que o marido.Mas
o ceticismo dela não se limitava à religiosidade.Quando
Armstrong pôs o pé na Lua,meu avô ficou todo
entusiasmado e louvou a ciência e a engenhosidade humana.Já
minha avó,muito antes de alguns indivíduos mais
cultos manifestarem sua descrença no feito humano,deu
a sua opinião segundo as luzes de saber de que ela dispunha,
e foi taxativa,afirmando que aquilo tudo não passava
de uma encenação,de truques especiais criados
no sentido de nos iludir,como os criados nas telenovelas que
ela via.
Na época,eu tomei o partido do meu avô,isto é,eu
também acreditava que o homem tinha ido à Lua.
Porém, pensando melhor agora,acho que o erro de minha
avó não era tão criticável assim.Afinal,se
não tivéssemos aprendido na escola,saberíamos
que a Terra é redonda?Não vale dizer que viu uma
foto da Terra no espaço tirada por astronautas, pois
poderia ser uma foto de uma bola de gude ampliada.Não
vale afirmar que uma prova de que isso é verdade é
aquele exemplo clássico de um navio em alto mar que se
afasta de nós,do qual as últimas partes que vemos
são justamente aquelas estruturas mais altas,porque ele
nos foi apresentado na escola.De outro modo,só um gênio
de sagacidade poderia imaginar uma prova sem haver freqüentado
a escola.Minha avó não conhecia as provas da esfericidade
da Lua ou da Terra e raciocinava com as percepções
que seus sentidos lhe forneciam.
Minha avó freqüentou os bancos escolares apenas
o suficiente para aprender a ler e escrever mas era inteligente,curiosa,tinha
a capacidade natural de todo ser humano de raciocinar segundo
as luzes de que dispõe.Para ela a Terra era plana e a
Lua era redonda como uma bola.Ela sabia que,afora as moscas,formigas
e outros viventes dotados de uma espécie de ventosas
(ela nada sabia sobre essas ventosas dos insetos e dizia que
eles deviam ter uma "colinha" na ponta das patas),nenhum
outro ser vivente poderia caminhar sobre a superfície
de uma bola."E o que valia para essa bola,valia para a
Lua",dizia ela.Minha avó não conhecia a força
da gravidade,que nos prende à Terra,a mesma gravidade,ainda
que mais fraca, que manteve Armstrong preso à Lua.Dela
só tinha eu uma vaga noção e,portanto,não
quis correr o risco de minha avó me fazer uma pergunta
embaraçosa e eu não poder lhe responder.Se podíamos
andar na Terra,era porque ela é plana;já a Lua,sendo
redonda,como todo mundo podia ver,raciocinava ela,não
oferecia uma superfície capaz de ser palmilhada por um
homem.
Mas havia,isso não se pode negar,coragem na atitude dela
de sustentar uma opinião que ia de encontro a de todos
os outros.Meu avô não discutia esse assunto com
ela.Com certeza achava que não valia a pena contraria-la
por tão pouco,no que,agora,lhe dou razão.Na época,entretanto,tentei
eu próprio convencer minha avó de que ela estava
errada.
Nunca se conformou em não poder novamente andar.Recorreu
a tudo.Quando se espalhou a notícia de que um fazendeiro,acho
que de Itaperuna,vira Nossa Senhora,que lhe teria aparecido
num lugar em que havia uma fonte de água,minha avó
competiu,em cadeira de rodas,com uma multidão para pegar
alguns litros da água e bebê-la durante certo tempo.Mas
nada lhe adiantou. Disseram-lhe que ela não tinha fé.
Também foi ao Chico Xavier,em Minas Gerais,e a outros
médiuns menos famosos,sem obter qualquer resultado.
Vieram os anos e com eles pareceu que minha avó se conformava
com seu destino__ou talvez fosse mais o efeito do câncer
de estômago que se aliou ao derrame,os dois deixando-a
apática, fazendo-a resvalar para o fim?
Nos minutos finais de vida,uma de minhas primas,católica
de não perder missa e dotada de uma mentalidade pouco
afeita ao mundo da imaginação e aos devaneios__tanto
que se tornou engenheira mais tarde__, conta ter visto um foco
de luz deslizar sobre o corpo agonizante de minha avó,percorrendo
uma trajetória que ia de sua cabeça às
pontas dos pés.O fato me surpreendeu tanto que escrevi
um relato minucioso do acontecido,que infelizmente perdi.Em
minha recordação só ficou o tal foco de
luz.Quando a luz desapareceu,segundos depois,minha avó
deu o último suspiro em vida.
Teresópolis,09
de novembro de 2006.
Carlos Rezende
