 |
|
SEU ZECA BENTO: Um Calçadense de Muito Respeito |
Parte 01: Das Origens

O Alto do Jardim, ou simplesmente o Jardim,
é uma região montanhosa que antigamente pertencia
ao Município de Calçado mas agora faz parte de Bom
Jesus do Norte. Fica para os lados de Mimoso do Sul. Para chegar
lá, saindo de Calçado, havia dois caminhos principalmente,
um passava pela estrada do Jacá e antes de atingir o povoado
entrava à direita, na altura da propriedade dos herdeiros
de seu Pedro Silva. Subia a morraria e virava para o outro lado
da serra. Um outro caminho alternativo passava pela Memória,
e também implicava em subir muito morro. Havia duas fazendas
grandes na região, cujos proprietários se davam
muito bem, uma era a do Coronel Alfredo Junger e a outra a Fazenda
da Conquista. Nesta foi onde seu Zeca Bento começou a vida,
e foi onde nasceram seus cinco primeiros filhos. A propriedade
era de seus pais, aliás, mais exatamente de sua mãe,
Dona Antônia Mendonça, cujo sobrenome foi legado
à família. O sobrenome do pai, Pereira, não
pegou. Inclusive parece que morreu bem antes da esposa e era uma
pessoa meio diferente. Sobre ele corre um caso interessante, dizem
que separou-se da mulher e foi morar na tulha. Fez um bodoque
para atirar pedras nos passarinhos e de vez em quando acertava
a velha, dando-lhe umas bodocadas sempre que se aproximasse e
ultrapassasse certos limites de seu território.
A casa ficava a uns quinhentos metros, um quilômetro,
da casa grande da Fazenda, numa encosta, a parte de cima junto
ao solo e a de baixo num nível de uns três ou quatro
metros, formando um porão onde eram guardados os equipamentos
de serviço: carroças, arreios, cangalhas, balaios,
cestas, artigos de couro, e outros implementos. Ali se armazenava
também parte dos estoques de cereais, os artigos de comida,
arroz, feijão, fubá, sal, etc., e o querosene que
não podia faltar nas lamparinas.
A água vinha lá do alto da serra, através
de uma vala, um canalete artificial, e se despejava abundante,
cristalina e fresca, numa bica na porta da cozinha. Em volta da
casa o terreiro, sempre muito limpo e capinado, onde se secava
o café, batia o feijão, e onde as crianças
brincavam. Mais embaixo o paiol de milho, a ceva dos porcos e
o galinheiro das galinhas.
Seu Zeca, aparentemente muito calmo, era um
homem cheio de habilidades, um artista da madeira e do arame.
Construía verdadeiras obras primas, equipamentos complexos,
cheios de engenhosidade, que através de polias, barbantes
e arames, transmitiam movimentos a distâncias. Uma jóia
suas ratoeiras.
Parte
02: Das Visitas à Fazenda da Segunda...
Dessa
época uma coisa importante que ficou na lembrança
foram os deslocamentos da família entre o Jardim e a
casa do sogro, na Fazenda da Segunda. Uma caravana de três
ou quatro animais, seu Zeca, o pai, na frente, montado em sua
excelente besta de sela, a Fazenda, com o caçula no colo,
amparado por uma espécie de tipóia, a mãe,
dona Zizinha, logo atrás encaixada no seu silhão,
com as duas pernas do mesmo lado, e depois os outros dois burros,
um de cangalha levando os apetrechos e mantimentos e o outro,
o "Tudo" que era muito manso, levando um conjunto
bem complexo, invenção de seu Zeca, onde eram
colocadas as outras crianças, que eram quatro: Walter,
Zuleica, Eliezer e Pedro. Esse equipamento era constituído
de dois caixotes, montados um de cada lado da cangalha, com
dois compartimentos, um para cada criança. Eram bem confortáveis,
com banquinhos, brinquedos, carrinhos de madeira, bois de sabugo,
bonecas de pano, coisas assim. Para completar havia anexado
ao conjunto uma cobertura, armação de madeira
e esteira de taquara, para proteger as crianças do sol.
Como o mais velho, cabia ao Walter carregar e controlar a sacola
de biscoitos.
Visto de fora, à distância, devia
ser muito interessante esse deslocamento, lembrando talvez um
grupo de beduínos se deslocando no deserto. Fila indiana,
passos lentos, os animais procurando as trilhas do caminho.
Chamando mais a atenção o burro "Tudo",
puxado por um empregado, com sua armação de espantalho
balançando no ritmo de seus passos.
A viagem demorava um dia inteiro. Saindo cedo,
vindo pela Memória, evitava-se a cidade para não
chamar a atenção, seu Zeca não gostava
de exibições. Quando aparecia o rio, seguiam pela
margem esquerda, contornando a base do morro e saindo na Vala,
seguindo depois para o caminho de Bom Jesus. A parada principal
era na Fazenda Velha, casa de Dona Lota, parada obrigatória
de todos que passassem por ali. Onde se descansava, comia e
colocava em dia as conversas e as notícias. Esta casa
uma beleza, jardim na frente, terreiro enorme, pomar cheio de
fruteiras, animais de vários tipos, galinhas, perus,
galinholas, patos, marrecos e outras aves. Para comer, uma fartura,
biscoitos de polvilho de araruta, brevidades, broinhas de fubá
e rosquinhas de salamonico.
Mais tarde retomando a viagem, largavam a
estrada de Bom Jesus e se dirigiam para os lados do Sossego,
onde tinha uma ponte, atravessavam o rio e seguiam adiante por
umas boas três ou quatro horas, chegando na Segunda já
quase de noitinha com o sol se pondo.
Há um caso dessa época que talvez
não seja verdadeiro, talvez apenas uma brincadeira, mas
ilustra bem o temperamento e o jeito de seu Zeca. Consta que
em uma das idas da família à Segunda, ele decidiu
deixar o pessoal lá por alguns dias e voltar sozinho
para casa, para cuidar de algumas coisas, colheita de café,
gado leiteiro, coisa assim. Na hora de se despedir um problema,
o filho mais novo, o Sinval, um manhoso, começou a chorar,
e não parava de jeito nenhum. Seu Zeca esperou, consolou,
acarinhou, tentou vários estratagemas para fazer o menino
parar. Terminou desistindo de partir, desarreou a besta, soltou-a
no pasto, iria no dia seguinte. No outro dia a mesma coisa,
besta arriada, choro e desistência da viagem. No terceiro,
o sogro, o velho Pedro Vieira, apesar de toda sua calma e bonomia,
saiu do sério e ralhou com a filha "Zizinha, por
favor, leva esse menino lá pra dentro, senão o
Zeca não vai mais viajar e cuidar dos seus afazeres".
|
|