Não são só os homens públicos notáveis
que formam a sociedade calçadense,assim como uma floresta
não é composta apenas de árvores grandes
e luxuriantes. Deste modo,pretendo escrever sobre uma pessoa
que, já pela sua aparência física, instiga
o nosso racismo bem acobertado: ela é mulher e negra,não
poderia ter tido origens mais humildes. Nunca, nem mesmo em
sua juventude, teve um corpo escultural,que pudesse ser exibido
num desfile de escola de samba para deleite dos olhos__o seu,como
o de tantas outras de sua raça,foi talhado para a labuta
mais árdua e ingrata.Não deixou descendentes e
são poucos aqueles que sabem o que ela fez e o quanto
ela vale.O perfil que tentarei traçar não é
meramente elogioso ou uma espécie de reconhecimento pelo
que ela fez em minha família.No momento em que o escrevo,a
Josefa não está em condições de
o entender.Como acontece muitas vezes,nunca encontramos ocasiões
para o agradecimento ou simplesmente__o meu caso__não
sabemos e não gostamos de expressar a nossa gratidão
porque tememos externar emoções.Somos uns autistas
malogrados,fronteiriços;usamos a pessoa para exibir a
beleza de nossos sentimentos e,muito secundariamente mesmo,a
beleza dos dela__ ou nossa habilidade em compor um retrato com
palavras.Que as negras como a Josefa possam me entender e,se
quiserem,que vejam aqui um elogio,pois eu mesmo não me
entendo...
Minha avó materna, tolhida em sua cadeira de rodas, a
chamava de Josefa;os filhos de minha avó,a chamavam de
Zefa ou Izefa;nós,os netos,de Izefa;uma tia exageradamente
sentimental,supra-sumo do pieguismo ingênuo e bom, a chamava
de Zefinha;outros talvez adotassem variantes outras para se
dirigirem a ela.A todos ela atendia de boa vontade,mas sem mostras
de servilismo. Bem, não atendia a todos. Exagerei. Atendia
a quem ela quisesse e para os demais fazia ouvidos de mercador.Tinha
lá o seu orgulho,as suas birras,as suas trombas.Quem
não as tem?Por que com ela seria diferente?Mas a quem
atendia,fazia-o com a naturalidade com que um passarinho enfia
uma minhoca na boca do filhote,ou como a cadela pateia seu cachorrinho
meio cego que ultrapassou as medidas das boas maneiras caninas,ou
o abocanha no lugar apropriado e assim o transporta para lugar
mais seguro.E isso é tanto mais admirável quanto
é certo ela ter sido rainha duma tribo africana.Palavra
de um médium incorporado,que contou sua vida tintim por
tintim no tempo em que ela não havia nascido para nós.Ela
e eu,que presenciei a cena,acreditamos no médium sem
pestanejar;ela,por vanglória;eu, por ver nela todos os
indicativos de uma rainha sem trono ou uma rainha em prova cármica
de serviçal doméstica, por haver talvez abusado
de sua outrora soberba condição na mais elevada
hierarquia tribal africana. Mas, pensando melhor,quem pode ter
alguma certeza sobre os papéis a que todos fomos chamados
a representar no teatro da vida?Quanta variedade de situações,quanta
variedade de destinos,quanta variedade de caminhos e descaminhos!Não
há metáfora mais certeira do que essa de considerar
a vida como um palco,muito embora usada à saciedade.Creio
que a Izefa veio resgatar um débito(qual de nós
não tem?),veio cumprir uma prova cármica,como
diriam os mestres hindus.E ela a desempenhou com perfeição,acho
eu,e aprendeu para sempre que " a verdadeira majestade
na Terra consiste em servir aos outros e não servir a
si próprio", ou servir-se dos outros,coisa ainda
mais deplorável mas infelizmente prática generalizada.
Meus avós maternos a pegaram para criar e trabalhar quando
ainda moravam em Varre-Sai.Eles a pegaram quando ela era uma
"nigrinha",segundo as palavras da própria Izefa.Quando
vieram para Calçado,a Izefa veio junto.
Em Calçado,mais tarde,amigou-se com o Vevé,um
pintor,e os dois juntaram os trapos e passaram a habitar uma
espécie de paiol no quintal de meus pais,na Governador
Bley.Aí,ajudou na minha criação,suportou
os meus berreiros,as minhas manhas detestáveis e,depois,como
refresco,ainda fazia o serviço na casa de minha avó.
0 casamento com o Vevé não foi dos mais tranqüilos.
Ele,como muitos epiléticos,era emocionalmente desequilibrado.
Brigavam às vezes e,soube pela Solange Medina,vizinha
nossa na Governador Bley,que certo dia a Izefa irrompeu na casa
dela,durante o almoço,perseguida pelo Vevé,que
tinha uma faca na mão.Com tudo isso,ainda acho que gostavam
um do outro e que ela deve ter sofrido quando o companheiro
se afogou num trecho do rio Calçado,enquanto pescava,ao
sofrer um de seus ataques epiléticos e perder os sentidos.Depois
disso,se não estou enganado,e tomara que esteja,a Izefa
só veio a namorar outro homem em Niterói.
Era tão metida,quando mais nova,que ia ao extremo de
supor que sabia o que era melhor para nós,seus "filhos",mais
do que nossos país.
0 Gilberto,esse mesmo que tanto enriquece as páginas
do Broinha com seus escritos,um de seus “filhos”,mamava
em casa não sei quantas mamadeiras. Quando sua mãe
branca recusava os seus apelos de" mais uma",vinha
correndo para casa da minha avó e,como era o "filho"
predileto da Izefa,seu xodó,filava mais mamadeiras preparadas
por ela.E a Izefa ainda contentava o sujeitinho fazendo suas
vontades,isto é,o GJuquita gostava de sugar a mamadeira
no quarto quentinho dela,debaixo dum cobertor felpudo, que ele
ficava a beliscar com uma das mãos enquanto que, com
a outra, se atracava à mamadeira com medo que a tirassem
dele.A Izefa dava essas mordomias a ele que nem a mãe
branca,minha Tia Mariinha, dava.Quanto a mim,tinha um temperamento
mais fleumático,mais distanciado dessas intimidades infantis
de alcova,sem falar que eu já me libertara da mamadeira
e não tinha nenhuma lombriga a sustentar.
Durante todo o tempo em que minha avó esteve paralítica__e
foram dezesseis longos anos__a Izefa é quem a carregava
para lá e para cá e lhe dava banho,vestia-lhe
a roupa,massageava-lhe os músculos,fazia tudo que fosse
preciso.Minha avó estava sempre cheirosa,limpinha,dela
emanando um suave perfume de talco,como de um bebê bem
cuidado.Suas filhas não suportavam seu peso.Por recomendação
médica,minha avó tinha que movimentar o corpo.Assim,a
Izefa a pegava por trás,enfiando os braços entre
os da minha avó,enquanto a apoiava em seu corpo.Minha
avó ia dando passinhos curtos e indecisos,e a Izefa a
ia segurando firmemente.
Negra forte,vendendo saúde,de média estatura,mãos
e pés enormes,larga,gorda como as baianas que se vestem
de branco para vender quitutes nas ruas de Salvador__hoje,com
a concorrência,devem existir até as negras de araque,as
falsas,que mancham a cara com graxa de sapato.Foi a sua labuta
incessante que liberou as filhas e o filho para cuidarem de
suas vidas,tendo a certeza de que a mãe estava entregue
em boas e seguras mãos.
Tinha o gosto pela dança no sangue.Era,e ainda é,
mangueirense doente(quanto ao seu time,acho dispensável
dizer qual era...Tá bom.Era flamenguista). Participou
de um bloco de sujo em Calçado,no tempo em que os blocos
ganhavam as ruas,para a diversão de todos.Era assídua
freqüentadora do antigo e creio que extinto Clube dos Operários.Alguém
não acredita?Pois já existiu um clube só
para negros em Calçado.A sociedade calçadense
era composta por indivíduos conservadores, segregacionistas
mesmo__ao menos na hora da diversão em local fechado.E
nós, moleques,seguíamos o exemplo dos adultos
e gostávamos de implicar com a Izefa,quando ela se preparava
para sair para suas visitas ou ensaios no clube,quando então
dava um trato nos cabelos,isto é,engordurava-os previamente
e depois os espichava com um pedaço de ferro quente,feito
uma escova.Hoje chamam a isso de alisamento ou “escovinha
progressiva",sei lá.A Izefa,mais tarde, modernizou-se:passou
a usar peruca,em ocasiões solenes ou nem tanto.A primeira
que ganhou sofreu em nossas mãos.Deitados na sua cama
e no chão,nós a jogávamos de um para o
outro,não sem antes a experimentarmos em nossa cabeça
e fazermos pose,virando o beiço inferior e expondo as
mucosas,para torná-lo mais grosso,tal e qual a Chita
do Tarzã fazia.
Com a morte de minha avó,a Izefa foi trabalhar para uma
família de calçadenses em Niterói,e,como
era seu hábito,ajudou na criação do casal
de filhos dos patrões.Sua função era de
cozinheira,mas ela,sem que lhe pedissem e lhe pagassem mais
por isso,assumiu também a função de babá.Aquilo
era natural nela.Via duas crianças dentro de casa,os
patrões fora.As crianças lhe pediam algo__o que
ela iria fazer?Atendia-as e logo ficavam apegados a ela e ela
a eles.Era natural nela,repito.A babá mais atípica
que se pudesse ter,mas nem por isso pior que as profissionais,muito
ao contrário.Antes disso,viveu e trabalhou na casa de
meu tio Edyl,também em Niterói.Não deu
certo.Era muito mandona e intrometida.Coisas da Izefa.
E foi em Niterói também que ela se apaixonou novamente
por um típico malandro carioca__que a Izefa me desculpe__,que
lhe tirava dinheiro a troco de umas migalhas de amor bandido.A
Izefa merecia coisa melhor.Quando ela o levou em meu apartamento
para que o conhecesse,abrindo a porta,tive a impressão
de que um homem atrás dela a tinha feito refém
e viera negociar comigo a sua cabeça,cano da arma premido
contra as costas dela.Mas não.Eu me enganara.Era o tal
namorado dela.
Os tempos foram passando até que meus tios se reuniram
e acharam que ela devia se aposentar.Ela não gostou nada.Queria
continuar trabalhando.
Convencida por fim a se aposentar,veio morar em Calçado
novamente.Apesar de baques feios em sua saúde ultimamente,ela
ainda está viva e mora numa casinha confortável,
acolhedora e muito bem situada,em um desses novos bairros que
surgiram na cidade. Duas ou três acompanhantes se revezam
cuidando dela.
Ninguém sabe exatamente a sua idade,que é do tipo
flutuante,entre 87 a 91 anos(houve um acordo recentemente pelo
número 91).Desde sua última internação
no hospital,voltou menos falante,seus olhos mais apagados,muito
mais magra.Ultimamente,deu para conversar horas no controle
remoto da tv pensando tratar-se do celular.Caduquice boa,que
nos vinga da voracidade desses magnatas da maquineta ubíqua.Também
descobriu,um tanto tardiamente,é verdade,dotes na arte
da carpintaria,e assim não pode ver um martelo ou uma
faca,que sai pela casa a acertar defeitos nos móveis__terá
incorporado o tal bicho carpinteiro?Suas ajudantes,desesperadas,desejam
uma solução já ou se demitem coletivamente!
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Teresópolis,14
de julho de 2006.
Carlos Rezende