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José
Teixeira Vieira de Rezende, seu nome civil, sempre conhecido por
Zezé Vieira. Quem se lembra desse nome, afora seus filhos,
outros familiares e alguns poucos amigos e contemporâneos,
que ainda restam?
Sobre o seu túmulo, fundado em 07/10/1979, desceu o mais
espesso silêncio. Aliás, antes disso, já se
não falava mais nele, desde que se afastou, voluntariamente,
da política, após trinta e tantos anos de militância,
mesmo no período em que - liberal convicto - resistia ao
regime estadonovista, que nunca aceitara. Pouquíssimos os
que o visitavam na sua viuvez de velho amargurado pela perda de
sua esposa e companheira, Maria Alice Borges de Rezende - a sua
e nossa D. Mulatinha, à qual sobreviveu por mais de um decênio.
Também muito teria contribuído para seu sofrimento
e a solidão a circunstância de se haver tornado ocioso,retirando-se
do seu meio de ocupação produtiva, embora cercado
pelo carinho e assistência do outro filho, o Antônio
e a nora, Mariinha.
Quando se trata de depoimento de filho sobre o pai, em vista do
que aconteceu a Tatiana, nas reminiscências de Tolstói,
assinaladas pela hostilidade à mãe, Sófia,
que teria sido a causa das desavenças do casal (viveram entre
o amor e o ódio), fica a impressão, erroneamente quase
generalizada, de que o elogio ao pai é uma espécie
de vingança contra a mãe. Mesmo assim, o velho Leon,
grande romancista, só "fugiu de casa" aos oitenta
anos de idade...
No que se refere a meus pais, de muito poucas letras, se eram de
temperamentos diferentes, nem por isso deixaram de ser felizes e
até se completaram, equilibrando-se com o tempo e a convivência,
de modo tal que," in memoriam", os junto aqui, num mesmo
amplexo de saudade e admiração. A maneira íntima,
com que os evoco, não se estranhe, vem dos longes de minha
infância, a que voltarei ao abrir o baú das recordações.
Ah! minha mãe, a bondade em pessoa, que com olhar e sorriso
- o sorriso de D. Mulatinha, a quantos dela se aproximassem, tristes
ou deprimidos - resolvia-lhes os problemas do espírito. Irradiava
paz! Seu sorriso, sincero, lhe refletia o interior e era, ao mesmo
tempo, complemento de uma fisionomia calma. Viveu a vida sem revolta
como o bom semeador, até o seu término de sofrimento
físico (e nem isto lhe abateu o domínio espiritual)
pela doença que a consumiu.
Cordata sempre, todavia não abriu mão (expressava
sua última vontade) de ser sepultada na sua fluminense Bom
Jesus, junto a seus pais. Vem daí, na massa do sangue, o
meu bonjesuísmo. Por outro lado, teria sido o seu amor às
crianças desamparadas (a diversas socorreu e abrigou) que
me levara, contra as minhas preferências jurídicas,
a ser Juiz de Menores e de Família.
Meu pai, com a mesma bondade de minha mãe, foi um homem de
bem, na plenitude da expressão, quer na vida particular quer
na vida pública. Caráter rijo, que não transigia
com a desonestidade. Equilíbrio, bom-senso, bravura e atitude
de um modelar político, que os próprios adversários
respeitavam e ele, de sua vez, os também respeitava, não
admitindo qualquer tipo de perseguição, em tempos
difíceis, de ânimos acirrados por brigas entre famílias
tradicionais do município oriundas da política que
então se praticava. Em meio a tudo isso, morreu sem deixar
um único inimigo. Sob outro aspecto, saiu da vida quase pobre,
pelo muito que repartira seus bens e a pequena renda da propriedade,
no incentivo à instrução e educação,
além dos seus, de filhos alheios, inclusive de colonos, custeando-lhes
os estudos, de fora parte as contribuições para a
iniciativa privada, sob a liderança do seu irmão o--o
dinâmico e benemérito Pedro Vieira Filho, no afã
de introduzir melhoramentos no município, tais como transporte,
comunicação, indústrias de açúcar,
infelizmente malograda etc., em regimes de sociedade.
Com Pedro Vieira, ele - meu pai - e Aristides Teixeira de Rezende,
seu sobrinho, prestigioso político e excelente médico,
incansável no amor ao próximo, que se antecipara,
pode-se dizer, à própria previdência social
de hoje, constituiu-se uma tríade que merece creditar-se
à memória calçadense.Oportuno aqui se consigne
que o nosso pequeno município, à época compreendendo
o entãoimportante distrito de Bom Jesus do Norte, chegou
a eleger três Deputados Estaduais: o mesmo Pedro Vieira Filho,
Joffre Virgilio Lobo e Sebastião Martins Thiebaut;ajudou
na eleição de um Deputado Federal, na pessoa de Paulo
Afonso Vieira de Rezende; e de um Senador, Atílio Vivacqua.
Por todos esses motivos e para completar o que chamaria "idade
de ouro" de Calçado, tivemos, sucedendo a Eurico Rezende
(autor do Hino Oficial, música do juiz Alonso Fernandes de
Oliveira) na direção técnica do Colégio,
a figura marcante da Professora Mercês Garcia Vieira, cuja
competência e gosto pelo ensino a projetaram no cenário
educacional capixaba. Neste ponto, ouso pedir licença para
incluir um modesto personagem que, jovem advogado, precisou desdobrar-se
em professor, meio pego a laço, e ensinando o pouco que sabia,
muito aprendeu para a vida em fora, nas suas andanças judiciárias...
Quanto, ainda, ao tradicional Educandário,seja dito para
a história que, desde a sua fundação por um
grupo de idealistas, criaram-se condições de desenvolvimento
e cultura para a região, com o proporcionar a rapazes e moças,
de menos recursos, a oportunidade de estudarem, o que antes lhes
faltava, ao desejo de uma vida melhor.
Quem, da geração de moços, conheceu meu pai
já na decadência dos anos, dificilmente entenderia
o que ele representou de autêntico valor moral e social, no
painel de sua época, segundo o traçado destas incipientes
memórias.
Homem simples e despretensioso, o que fazia - e o que conseguiu
fazer, há de estar documentado nos anais da Câmara,
que conheci sob a firme presidência de Álvaro Fernandes
Medina (saudade de "seu" Cruz) e nos arquivos do órgão
Oficial e Noticioso do Município, "A Ordem", jornalzinho
teimoso de 60 anos; e era tudo sem alarde, em prol da sua terra
querida de São José do Calçado. Sábio
sem nenhuma escolaridade, jamais quis passar de Vereador, pois reconhecia
suas limitações para vôos mais altos, Bem-humorado
e até espirituoso, porém, na vida pública não
era de agrado fácil, nem se deixava conduzir por sentimentalismos
momentâneos, sim, de idéias e iniciativas úteis
e necessárias à comunidade. Uma das obras foi a primeira
luz elétrica instalada nas vilas de Airituba e Alto do Calçado,
cuja realização, em ambos os casos, resultou de trabalho
seu no legislativo, junto ao Prefeito de então, o Dr. Aristides.
Outro foi o projeto que beneficiava o esporte, através de
incentivos aos clubes de futebol. Apenas aí, três exemplos,
dentre os muitos que poderia citar.
Lembro-me de que, reconstitucionalizado o País, depois da
queda da ditadura Vargas, nos idos de 1948, estando eu recém-formado
em Direito, pediu-me ele lhe redigisse um projeto de lei autorizando
o Executivo a adquirir um retrato do Presidente eleito, General
Eurico Gaspar Dutra, para ser inaugurado, em 29 de outubro de 1949,
no gabinete do próprio Prefeito. Na justificativa, recomendou-me
ressalvasse que, em princípio, era contra homenagens aos
vivos. Por outro lado, ressalvasse ainda que, e vale transcrever...
"não se pode deixar de reconhecer o carinho, o zelo
que S. Excia. tem demonstrado pelos municípios, no sentido
de sua revitalização. Nós, homens de experiência,
bem sabemos do abandono a que eram relegados os municípios
brasileiros, principalmente os do interior como o nosso, em comparação
com o que agora se verifica. É bem verdade que foram os constituintes
de 46, homens conhecedores da vida municipal, que empreenderam e
a inseriram em nossa Carta Magna, essa verdadeira revolução
municipalista a que, para alegria nossa, estamos assistindo atualmente.
Mas, se não fosse a boa-vontade do Presidente Dutra e a sua
alta compreensão patriótica,estariam sendo letra morta
os dispositivos de nossa Constituição que beneficiam
o Município. Nós mesmos somos testemunhas disso, pelos
benefícios que o nosso Município já tem recebido
do Governo FederaL A homenagem,que proponho, vale ainda como incentivo
ao Presidente Dutra, para que prossiga no bom caminho, convencendo-se,
cada vez mais, que a grandeza da Pátria depende da grandeza
do Município. É justa, pois." Pela cópia.
Preparei tal proposição, dando-lhe apenas o meu toque
redacional, inclusive pela honra de haver testemunhado, na pessoa
do então Deputado pela Bahia, Aliomar Baleeiro, o seu brilhante
desempenho a fim de inserir emendas municipalistas no texto constitucional
-- a maior parte delas, creio, de sua autoria. A propósito
(era eu estudante em Niterói e costumava ir ao Palácio
Tiradentes, no Rio), não me esqueço de que, em conversa
comigo, ele me revelou que as principais cidades do interior de
seu Estado não possuíam redes de esgotos, em razão
da penúria de recursos. Grande figura de mestre - e mais
uma vez lhe homenageio a memória, que mais tarde, com o mesmo
brilho e saber de sempre, veio a integrar a Supremo Tribunal Federal.
Voltando a meu pai, eis ali o homem, no bojo da justificativa trazida
à nossa lembrança, a se auto-retratar,na sua devoção
cívica ao Município, base do amor à Pátria.
Enfim, à semelhança do que disse o poeta Carlos Drummond
de Andrade, por ocasião da morte do inolvidável Milton
Campos: "foi o homem que a gente gostaria de ser" (também
eu, meu pai, desejaria ser como você), de aliança com
as virtudes de minha mãe. Em atividades a que a vocação
me conduziu, bem que o tentei e o que não fiz, sonhei, como
na conhecida quadrinha de D'Annunzio - e você foi sabendo
do meu muito idealismo pouco realizador.
Pedro Borges de Rezende.
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