RESGATE HISTÓRICO:
Uma visão de Calçado sob os olhares dos anos 30



Um dos prefeitos de São José do Calçado, no período da "ditadura Vargas", foi o major Antão Gomes da Silveira e Souza, que governou o município de 1934 à 1938.

O então prefeito ordenou a produção de um documento completo sobre o município de São José Calçado intitulado, "São José do Calçado, Aspéctos de sua vida histórica e Econômica", que foi escrito por Mario de Oliveira.

Estamos divulgando a integra do precioso documento, em forma de capítulos, na expectativa de proporcionar ao nosso leitor, além de uma gostasa viagem ao passado, conhecer um pouco mais da nossa história.


MUNICIPIO DE SÃO JOSÉ DO CALÇADO

ASPÉTOS DE SUA VIDA HISTORICA E ECONOMICA
Por Mario de Oliveira
capítulo I

Desbravando a mataria inhospita, na ansia de conquista do desconhecido no seio da floresta secular, Marciano Lucio e o caboclo Valerio, os bandeirantes intrépidos que vieram edificar o marco de uma futura civilização, abriram com o fio de aço de seus ,machados, o primeiro espaço que o sol aproveitou para o seu primeiro beijo á terra virgem que, antes, sómente podia espreitar através a ramagem espessa das suas arvores gigantescas.

O casebre rustico que lhes dava této amigo tinha a protegê-lo uma pequenina ermida de palha e taipa que esses dois abnegados ergueram ao lado de suas palhoças e onde num altar tosco puzeram a figura do padroeiro de suas crenças - São José - com o fervor evangelizador de um ideal.

Foi assim que da imaginação aventureira de dois brasileiros gerou a hoje prospera e bonita cidade de São José do Calçado.

Deixando o planalto de "Fazenda Velha", ótimo local para uma cidade, os, dois solitarios sertanejos subiram as ladeiras ásperas da vertente léste da Serra do Jaspe e no alto das suas cercanias assentaram a sua tenda, como se ' procurassem a vizinhança das nuvens na crença fervorosa de ficarem mais junto ao Creador.

Como sempre, vinham os destemidos descendentes de Catarina Paraguassú e Marcilio Dias abrir e fecundar a terra alheia, por isso que, os senhores feudais da época, mesmo habitando aa Minas Gerais, de lá estendiam os seus dominios á terra capichaba que lhes seria futuro mealheiro para suas abastanças.

José Dutra Nicacio era o senhor das vertentes de São José do Calçado e, numa extensão infinita de léguas exerciam ainda o seu poderio, outros mineiros que de lá das Alterosas Montanhas sonharam a fundação de uma fecunda e alviçareira povoação: Fernandes Dutra, José Francisco Furtado de Mello, Bento José Furtado, Manoel Basílio de Souza, José Lino da Silveira, dr. Honorio da Fonseca e Castro.

Conquistado ao dominio das féras o invio sertão, foram chegando, já destemerosos, outros colonos, animando, com a sua presença aquêles que traçaram a epopéa da coragerem e do destemor: Antonio Lucio de Souza, ferreiro, e Vicente-Ferreira de Souza e sua companheira Justina Souza.

Quando em 1869 Felipe Diniz Pobel, vindo da colonia suissa de Friburgo, ali chegou, sómente quatro casebres existiam: o de Valerio, o de Marciano Lucio, o do ferreiro Antonio Lucio e o de Vicente Ferreira.

Seu pai, o suisso Francisco Pobel que veio para o Brasil em 1818, fez parte da guarda do Imperador Pedro I ao tempo da Indenpedencia.

Adquirindo em São José do Calçado uma pequena colonia, Pobel que é hoje posuidor de avançada idade de 96 anos e bôa situação financeira, ainda conta os fátos originais da fundação do primitivo arraial e a sequencia dos fátos que o antecederam.

O suprimento de mercadorias para os primeiros habitantes era feito por intermedio do Porto das Caixas e, posteriormente pelo de Limeira, sobre o rio Itabapoana, pouco abaixo da estação de Santo Eduardo, vindo em canôas, da barra até ali e depois em lombo de alimarias; até a pequena séde, encravada no meio da selva.

Solidários no isolamento, viviam os primitivos habitantes, só tendo por companhia o silencio, a sombra das matarias espessas e a cumplicidade soturna do azul escuro das encostas ingremes de suas pedreiras.

Conta a tradição da terra que o nome de São José do Calçado proveio do fáto de haverem adquirido na Córle, com o sacrifício de uma viagem penosa e prolongada, uma pequena imagem do Santo de sua devoção, tendo em seus sagrados pés juxtapostas, umas pequenas sandalias que vieram causar espanto ao principio de devoção daqueles espiritos doceis, que só podiam compreender um Santo descalço. . .

Adorando a imagem como a representação do Pai Adotivo do Creador, aceitaram-na contritos.

Com a abertura de novos nucleos e colonização que os proprietarios vizinhos mandavam abrir pelos seus escravos, remetidos sob o jugo de feitores perversos das longinquas terras onde moravam e, erigidas outras tantas capelas rusticas, distinguia-se a primeira delas com o nome São José do Calçado como característica principal, daí perpetuando-se essa tradição que se corporizou, transformando-se em São José do Calçado, seu nome atual.

Quem sóbe a Mata Fria, deixando as baixadas do rio Itabapoana, onde ao espírito acomodaticio do brasileiro acudiu logo a idéa de assentar o seu lar nas ribeiras que o volume de suas aguas provocam e desnudam de tempos a tempos, nessa constante luta de absorção que o homem trava com o elemento adverso, fica desde logo convencido de que a procura das serras foi o impulso do braço escravo impelido pela força do mando, quem abriu á civilização o denso misterio das nossas florestas, deixando pela Sua passagem no ecoar das encostas e no murmurio das cascatas o gemido de seus penares, o ai dos seus martírios que eram o que recebiam por paga de seu esforço, da brutalidade de seu esforço, na docilidade animal da sua humilhação e resignada contingencia de vida que o destino lhe deu.

Ha dois tipos diferentes na constituição eugenica do espirito-santense: o do norte, o do sul.

No ,sul, onde a tendencia feudal se arregimentou nas éras remotas do imperio, predomina o espírito impulsivo do mando.

São as grandes fazendas, léguas e léguas de terras, onde os cafezais se alinham num aprumo prussiano...

O fazendeiro é um senhor austero, de ligeiro sorriso, aristocrata, ainda conservando a tradição dos ancestrais, com as variantes da modernice: radio, luz eletrica, automovel.

E, em cada encosta do morro, na vertente de uma pastaria, junto ao brejal, as pequenas casas dos meieiros, escravos modernos que trabalhando para o senhor, contudo, recebem a metade da produção e com ela vivem e alimentam a sua geração de homens pacatos e sem aspirações.

Sente-se que são voluntariosos, fazendo vencer a sua opinião.

Os do Norte, onde a fusão de raças formou um tipo de cruzamento racial, são condescendentes, não enfrentam a adversidade, aceitam as contingencias da vida e repelem a luta; pequenos situantes, reduzida, fortuna.

Essa diferença influiu na organização social espirito-santense, dando ao ,sul maior força de vontade, maior espirito de audacia, e assim, maiores fortunas, mais capacidade de ação e melhores vitorias. . .



 

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